Lisboa-Porto-Celorico-Lisboa, mais concretamente a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa para o discurso — que se prevê de vitória eleitoral — de Marcelo Rebelo de Sousa. Este é o curtíssimo roteiro de campanha do Presidente-candidato que está em “vigilância passiva” depois de um contacto de baixo risco que, em plena campanha, lhe limita as ações. Não que ache que precise delas, dada a exposição mediática nos últimos cinco anos, mas campanha é campanha e a pandemia e as suas voltas obrigaram a deixar outros planos para trás. Uma coisa é certa: seria sempre em níveis (e gastos) mínimos, com o candidato e o seu carro ou, quando muito, o candidato, o motorista e o seu carro. E agora, em meia campanha apenas.

A ideia inicial — e num início com a pandemia mais controlada e sem estas limitações — era ir pontualmente ao Algarve, Alentejo, Lisboa, Porto, Minho e ilhas em 15 dias. A última semana tirou definitivamente a Marcelo este plano da cabeça. Já vinha de uma semana com um contacto positivo entre o seu staff em Belém que o deixou 14 dias em “vigilância passiva” (até ao dia 18), depois, na segunda-feira, testou positivo ao SARS-CoV-2.

Fez mais dois testes e estava afinal negativo. Ainda não refeito do susto. que o afastou de estar presencialmente na reunião de especialistas no Infarmed, soube que teve outro contacto positivo em Belém, entrou em vídeo no debate com todos os outros candidatos presidenciais, e teve de colocar novamente a zero a contagem para novos 14 dias de “vigilância passiva”, ou seja, longe de aglomerações. Como é que se faz campanha assim?

Bom, não se pode dizer que esta sucessão de episódios tenha sido propriamente prejudicial ou o tenha deixado ausente do palco mediático, tanto que até o Chega de André Ventura se queixou do testa-não-testa em Belém esta semana, com resultados sempre muito mediatizados. Marcelo concentrou atenções, mesmo fora do terreno eleitoral, condicionando até (ainda que inadvertidamente) a agenda dos seus adversários que, por precaução, tiveram de cancelar agendas e suspenderam ações de campanha já que, nos debates, alguns se foram cruzando com ele. E entre isso e a agenda presidencial foi sendo assunto dominante na última semana.

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Despachar o Presidente e dedicar-se ao candidato por uns dias

Esta sexta-feira, segundo sabe o Observador, conta já ficar mais liberto dos deveres presidenciais. O estado de emergência está declarado, anunciado e fica em marcha. Tem ainda para despachar os diplomas relativos às coimas — que o primeiro-ministro anunciou esta quarta-feira que vão duplicar para quem não usa máscara ou viola o teletrabalho obrigatório — e a audiência semanal com António Costa, esta quinta-feira. Além disso, recebe na sexta à tarde a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que vai estar em Lisboa. Só na semana que vem pega no carro e ruma a Norte, “em princípio sozinho no carro”, antevê, embora não descarte voltar a chamar o senhor Vítor, o taxista que o acompanha nesta andanças como seu motorista.

Por Lisboa ainda tem, antes disso, uma bateria de entrevistas para dar a rádios, televisões e jornais. E até à imprensa estrangeira: ao Le Monde, sendo entrevistado como Presidente, e ao canal televisivo, também francês, M6. Com os portugueses fechados em casa e ele mesmo limitado nos contactos — “é uma dupla-limitação”, vai lamentando a quem lhe pergunta — Marcelo quer, assim, aproveitar esta via para garantir presença diária no único sítio que acredita poder provocar impacto nesta recta final: a comunicação social, sobretudo as televisões.

Mas há sempre momentos-surpresa pelo meio, como o alfarrabista que visitou esta quarta-feira à tarde na Trindade, em Lisboa, porque soube que ia fechar. Pegou no carro e seguiu, sem avisar a comunicação social ou sequer fazer uso da equipa que está preparada para lhe fazer essa assessoria nesta campanha. Antes disso tinha passado, sem saber, junto da campanha de Ana Gomes, ele mesmo ao volante, como relatou o Observador. Ainda olhou, porque viu uma movimentação fora do comum, mas não chegou a parar. Outras coincidências virão, Marcelo é especialista nelas, alguma mais pensadas (e polémicas) do que outras.

Sessões digitais para o candidato da 2ª geração

Mais ou menos previsto tem uma sessão de perguntas com estudantes da Nova, mas agora terá de ser à distância. E outra, com a Federação Académica do Porto, também com recurso a vias digitais. E logo ele, o candidato (e Presidente) do telemóvel ainda da longínqua 2ª geração, sem redes sociais ou queda para as tecnologias que, nestes tempos, substituem as proximidades e… os afetos. A divulgação terá de ficar a cargo dos estudantes.

Teve de deixar para trás, segundo apurou o Observador, uma ida ao Teatro Aberto, para assistir a uma peça, onde receberia o apoio do ator e encenador (e fundador daquele teatro), João Lourenço, e faria o proselitismo da cultura, uma das atividades mais afetada pela crise pandémica. Planos que o confinamento geral e o fecho das salas de espetáculos deixou no bolso do candidato que ainda está em busca de perceber se vai conseguir fazer uma ou duas ações mais simbólicas em Lisboa — “mas não está fácil” –, antes de seguir para o Norte (o que deve acontecer mais para o final da próxima semana).

Na próxima semana, além dos debates das rádios (que será na segunda-feira), terá o debate com Tino de Rans, no Porto Canal, dia 20. Nesse dia já estará a Norte, mas só a 22, último dia de campanha, conta ir para Celorico de Basto, a terra da avó Joaquina, onde tem raízes e está recenseado. É que apesar de, no meio dos sobressaltos desta semana, ter pedido o voto antecipado, não vai votar neste domingo, mas sim no domingo das eleições, em Celorico. Vai acompanhar a noite eleitoral na sua casa, em Cascais.

Marcelo terá campanha reduzida, mais solitária e virada para a televisão

Marcelo não tem sede de campanha, por isso está a preparar-se para repetir o local da noite eleitoral de há cinco anos para fazer o discurso final de domingo: a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. “É a minha casa”, comenta ao Observador. Foi ali que começou a dar aulas, no ano letivo 72/73, mantendo-se professor até sair para assumir a Presidência da República, a 9 de março de 2016. Nesse ano, quando ganhou as eleições, foi lá que cunhou o seu mandato com o discurso que já trazia da campanha: “Unir aquilo que as conjunturas dividem”. Foram as palavras da vitória eleitoral, com 2,4 milhões de votos (52%) dos portugueses. Quer repetir.

Sem restaurantes, menos se gasta e… menos se come

Cinco anos depois desses dias, Marcelo divide-se agora por dois postos, o de Presidente e o do candidato, mas há coisas que não mudam, como aquele nome que chama a si mesmo, “sovina”. Para esta campanha previu gastar 25 mil euros de Orçamento e, ao contrário do que aconteceu em 2016 em que abriu uma conta de campanha (obrigatória) com 40 mil euros, desta vez abriu a dita conta com apenas mil.

Sem sede, sem staff, sem sequer tempos de antena — diz que era um gasto supérfluo para quem está há cinco anos tão presente –, acredita que só gastará nas poucas estadias fora, nas deslocações e nas refeições — e pouco, já que os restaurantes estarão fechados a partir desta sexta-feira. Marcelo, que várias vezes já fez saber publicamente que tantos dos seus almoços são feitos do suplemento nutricional Fortimel, parte em vantagem também na preparação física para dias que se prevêm frugais também para o estômago.