A polémica em torno dos elevados montantes auferidos em cirurgias adicionais por médicos de Dermatologia do Hospital de Santa Maria veio destapar a realidade de um serviço que se tem mantido a funcionar de forma disfuncional há anos.
Além da falta de controlo sobre as cirurgias adicionais e a forma como eram codificadas, há também falhas no controlo da assiduidade dos médicos especialistas no serviço e no apoio aos médicos internos. Um deles denuncia ao Observador que estes médicos em formação têm de assegurar — muitas vezes sozinhos e sem supervisão — o serviço de urgência, o internamento e parte significativa das consultas, uma situação que pode colocar em causa a qualidade dos cuidados prestados aos doentes.
Ao Observador, um médico interno, que não quis ser identificado, denuncia um serviço de Dermatologia em declínio e um ambiente de perseguição e desmotivação. “O serviço está a colapsar. E agora há ainda um clima de caça às bruxas. O diretor de serviço e os poucos aliados que ainda tem estão em campanha ativa de desmotivação dos médicos mais novos, dizendo que será o fim do serviço”, relata o médico em formação.
O serviço de Dermatologia — que, entre internos e especialistas, conta com pouco mais de 20 profissionais — tem vindo a degradar-se ao longo dos anos e perdeu agora o diretor. Paulo Filipe, que estava no cargo há nove anos, demitiu-se na segunda-feira depois de ter sido confrontado pela administração do Santa Maria com as conclusões preliminares da auditoria interna à atividade cirúrgica adicional realizada no serviço.
As conclusões não foram ainda divulgadas pelo hospital, mas o Observador sabe que apontam para graves irregularidades no controlo da atividade adicional — ao ponto de ter levado Paulo Filipe a demitir-se sem esperar pelo relatório final da auditoria. O caso mais grave até agora, divulgado pela CNN, foi o do dermatologista Miguel Alpalhão, que auferiu, apenas num sábado, 50 mil euros em cirurgias adicionais e 400 mil euros ao longo dez sábados.
Confrontado com o pedido de demissão do diretor do Serviço de Dermatologia, Paulo Filipe, o presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de Santa Maria, Carlos Martins, aceitou a renúncia de imediato. No entanto, quatro dias depois, ainda não foi nomeado um diretor interino, uma vez que nenhum especialista aceitou para já assumir o cargo.
Especialistas ausentes do serviço e internos realizam cirurgias em nome deles
Mas o problema da falta de controlo sobre as cirurgias adicionais (que se estende a outros hospitais, com situações de abuso denunciadas quer pelos gestores hospitalares quer pela Ordem dos Médicos), não é o único a afetar o serviço de Dermatologia do Santa Maria. Uma das queixas é a da ausência dos especialistas.
“A Dermatologia é uma especialidade em que é difícil atrair colegas para o SNS, sobretudo num sítio em que não há liderança nem qualquer espírito de equipa”, diz o médico que falou com o Observador, acrescentando que eram frequentes as situações em que os especialistas (dez ao todo) pediam aos médicos internos para realizarem operações e as registarem no sistema como tendo sido feitas por eles próprios.
“Muitas vezes acontece que os especialistas nem estão no hospital, mas dão indicação aos internos para operarem e registarem em nome deles como se estivessem presentes“, diz a mesma fonte. Isso mesmo terá acontecido num outro caso revelado pela CNN, e que dá conta de que a médica dermatologista Rita Travassos terá registado em seu nome cirurgias em horário adicional enquanto estava fora do hospital e inclusivamente no estrangeiro. Isto terá ocorrido, por exemplo, a 14 de maio, quando a médica estava num congresso em Itália — as cirurgias nessa data terão sido feitas por médicos internos, ou seja, sem experiência suficiente, na maior parte dos casos, para poderem operar sem supervisão.
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Médico interno denuncia falta de apoio na urgência, internamento e consultas
A falta de apoio aos internos — fulcral numa fase em que estes médicos estão ainda em formação e não são, por isso, clinicamente autónomos — é também uma realidade no serviço de Dermatologia do Santa Maria e estende-se a várias valências do serviço, nomeadamente à urgência, internamento e consultas, diz o médico interno que falou com o Observador.
“É uma anarquia. A urgência [que funciona no período diurno, entre as 9h e as 21h] é assegurada pelos internos na grande maioria dos dias”, denuncia o médico interno que falou com o Observador, salientando que a falta de experiência é um risco tanto para os doentes como para os médicos. “Um médico sozinho chega, num dia, a ter de ver 50 doentes. Imagine isto para quem tem poucos meses de dermatologia. No meio desses 50 há alguns graves, o que aumenta o risco”, alerta, revelando que existe também uma escala de prevenção noturna, também assegurado pelos internos.
▲ Paulo Filipe demitiu-se do cargo de diretor de serviço do Dermatologia do Hospital de Santa Maria na última segunda-feira
O internamento, que conta atualmente com 15 camas, é deixado à responsabilidade dos médicos em formação, relata a mesma fonte. Já no que diz respeito às consultas, “os internos são quem faz mais”. “Os especialistas tentam escapar ao máximo”, diz o médico.
Questionada pelo Observador sobre os problemas denunciados no serviço de Dermatologia e sobre se essas situações estão também a ser alvo de averiguações internas, a ULS de Santa Maria não respondeu.
Ordem dos Médicos já tinha identificado alguns problemas. E reduziu capacidade formativa do serviço
Ao Observador, o presidente do colégio de Dermatologia da Ordem dos Médicos (OM) admite que, na última visita que o colégio fez ao serviço — há um ano e meio —, a OM já tinha detetado alguns problemas que vinham em crescendo, a ponto de a capacidade formativa do serviço ter sido reduzida.
“É uma situação que nos preocupa. Já tínhamos identificado alguns dos problemas que estão a ser transmitidos à comunicação social. Isso fez com que a nossa avaliação da idoneidade do serviço tivesse levado à redução dos internos formados de três para dois por ano”, diz João Alves, explicando que, no final de 2023, o “número de internos estava já a ultrapassar o número de especialistas, o que não é saudável para a formação”. O médico ressalva, no entanto, que nunca chegou ao colégio da especialidade nenhuma queixa.
Sem se querer pronunciar sobre a realidade atual, João Alves refere, no entanto, e em relação à alegada ausência de especialistas do serviço durante alguns períodos, que “se os especialistas têm um horário, este deve ser cumprido”.
Já no que diz respeito à falta de apoio prestada aos internos, o médico admite que possa estar a acontecer, uma vez que o serviço perdeu especialistas antes de ‘rebentar’ a polémica em torno das cirurgias adicionais. “A atividade dos internos, como a consulta, deve ser tutelada“, ou seja, deve ser supervisionada por um médico especialista, sublinha o presidente do colégio da OM.
Santa Maria investiga prescrição de medicamentos dispendiosos sem autorização prévia
Esta quarta-feira, a CNN noticiou um outro problema no serviço. Na sequência das auditorias em curso no serviço de Dermatologia, foram abertos processos a quatro dermatologistas por terem prescrito medicação à revelia das regras. Ao Observador, a ULS de Santa Maria confirma apenas que detetou “4 situações que de imediato deram origem a propostas de abertura de inquéritos internos autónomos”.
Em causa, apurou o Observador, está a prescrição de fármacos biológicos sem autorização prévia da Comissão de Farmácia e Terapêutica do hospital. Estes fármacos (usados para tratar de forma mais eficaz doenças como a psoríase ou a dermatite atópica) são dispendiosos e só podem ser prescritos com a autorização da Comissão de Farmácia e Terapêutica de cada hospital, o que não terá acontecido em diversos casos no Santa Maria, e que estão agora sob investigação interna.