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"Camões era demasiado inteligente para ver o mundo só de uma cor”, diz a professora e investigadora Isabel Almeida
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"Camões era demasiado inteligente para ver o mundo só de uma cor”, diz a professora e investigadora Isabel Almeida

"Camões era demasiado inteligente para ver o mundo só de uma cor”, diz a professora e investigadora Isabel Almeida

"Não devemos querer fazer de Camões um nosso contemporâneo, mas lê-lo é um exercício cívico"

Não vejamos Camões a preto e branco, a exortar os portugueses e a falar de amor. Edificou a língua, olhou o mundo e interpretou o ser humano. Quem o diz é Isabel Almeida, camonista e investigadora.

Ao comemorarmos os quinhentos anos do nascimento de Luís Vaz de Camões cabe-nos entender o homem e o poeta. Olhar e ver. Ler e reler Os Lusíadas, a lírica, as cartas, o teatro. Cabe-nos aprender. Cabe-nos ouvir quem sabe do que fala. Falámos com Isabel Almeida, uma camonista de exceção a trabalhar com todo o valor no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O resultado é simplesmente outro Camões. Um Camões muito maior do que aquele que humildemente levávamos na bagagem. Ora vejamos.

Habituámo-nos a lê-lo de olhos fechados. A achar que sabíamos o que queria dizer sem lhe prestar muita atenção. A dizer de cor versos a fio sem perceber cada estrofe. Ouvimos a cantilena na escola e repetimo-la vida fora. Camões e Portugal foram caminhando lado a lado, confundindo-se uma identidade que se quis construída à volta de um poema épico. A glorificação do povo e a nossa própria glorificação herdada através de um imaginário que não foi criado por nós e que nem sempre soubemos entender. Cinco séculos depois de Camões, é preciso deixá-lo falar como falou, escutá-lo no seu tempo e compreender o seu alcance. Celebrá-lo a ele e ao seu humanismo. Sem rodeios e sem preconceitos. Como diz Isabel Almeida, camonista de excelência, “ler Camões é um exercício cívico”.

“Este tempo de comemorações deve ser acima de tudo um tempo de procura de conhecimento da obra. Muitas vezes o que acontece é que as pessoas falam de Os Lusíadas sem nunca os terem lido, citam, porque apanharam aqui ou acolá, ou porque alguém disse ‘repita lá o último verso do Canto tal’, e faz-se uma apropriação do texto que é completamente cega em relação àquilo que ele é no seu conjunto, na sua inteireza. É certo que no poema épico há uma valorização nítida daquilo que foi a ação de descoberta, a viagem, a possibilidade de novos contactos, o reconhecimento de novas estrelas, como Pedro Nunes dizia. A par de tudo isso, há uma consciência, há um projeto imperial de que Camões se faz porta-voz que o leva, por exemplo, a justificar uma série de, diríamos nós hoje, formas de violência sobre outros. Mas convém não esquecer que, ao mesmo tempo que isso acontece, Camões tem, quer n’Os Lusíadas, quer na sua lírica, textos que o mostram como uma figura muito atenta àquilo que são as implicações, as consequências dessas ações, aquilo que é um certo reverso da medalha”, explica ao Observador Isabel Almeida (uma das escolhidas pela ministra da Cultura para integrar a equipa que organiza as comemorações em tornos destes 500 anos).

"Não creio que Camões seja um poeta que possamos arrumar, que possamos classificar, ou que possamos julgar indiferente", diz Isabel Almeida

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

A camonista dá exemplos: “N’Os Lusíadas, logo no Canto I, encontramos um episódio em que se começa por dizer que na Ilha de Moçambique, o Gama é visitado a bordo por um mouro, o mouro pede para ver as armas que a frota transporta e diz-se no texto muito claramente que o Gama mostra as armas, mas não autoriza que deem fogo às bombardas porque ‘entre ovelhas é fraqueza ser leão’. Isto diz-se como um provérbio e é um eco de outros textos, nomeadamente de Ariosto, que é um autor de que Camões gostava. Umas estrofes adiante já vamos encontrar aquela máxima desfeita, porque os portugueses se envolvem num conflito com ‘as ovelhas’. O modo como o texto está organizado, o cuidado que Camões tem em lembrar o que é o ódio certo que existe na alma do mouro, os pormenores que dá sobre as iniciativas de Baco, que é ali um promotor da discórdia, a maneira de contar o texto é reveladora de como que um desconforto que o poeta não esconde no modo como revela que se quebra uma máxima, no fundo aquilo que se dá como um padrão de conduta ideal, ‘entre ovelhas é fraqueza ser leão’, e que é desfeito rapidamente. E Camões mostra isso.”

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A máxima para nós hoje tem que ser, insiste a professora, ler. “Basta ler o texto. É ler, reparando. É ler, olhando. Não pode é saltar-se estrofes, é batota. Se lermos o texto inteiro, vemos que o poeta promove essa relação, convida o leitor a reparar no que aconteceu depois e no que se estava a dizer antes”, continua.

E dá mais exemplos. “Camões parece ter a necessidade de compor a narrativa de maneira a justificar e a encontrar razões para aquilo que é afinal feito. Também o mostra quando lembra um mito narrado por Ovídio. Os europeus, e Camões tinha consciência de que o mundo era um mundo muito incerto, compara-os aos ‘dentes de Cadmo desparzidos’. Se formos ver quem é Cadmo, de quem são os dentes, percebemos que são uma alusão às Metamorfoses, de Ovídio. Cadmo era o irmão de Europa, que matou uma serpente monstruosa, com os dentes da serpente, a conselho de Palas, deusa da guerra, lançou esses dentes à terra. E aconteceu uma coisa extraordinária. A terra começou a mover-se e começaram a surgir figurinhas que se levantam da terra e são guerreiros. O que se vê é o aparecer de um lança, de um escudo. Há uma seara de guerreiros e desses guerreiros são muito poucos os que vão ficar, porque tão depressa nascem, tão depressa se envolvem numa luta que não tem razão. A irracionalidade da guerra é uma coisa que para Camões é muito evidente. É muito fácil desencadear uma guerra. E, se se perguntar qual é a razão, vamos sempre ter à mesma simples e terrível evidência que é o desejo de ter e o desejo de poder. Não é mais do que isso, mas é o suficiente para que o ímpeto de destruição, e de autodestruição muitas vezes, se observe. Camões é de facto um poeta muito atento a isso.”

“Bastar-nos-ia olhar para os finais de canto d''Os Lusíadas' a partir do Canto V, e são sistemáticos, para vermos o que é de facto a ousadia e a audácia de um poeta que inclui rasgos lírico no poema heroico para dizer o que considera estar errado à sua volta."

Outro exemplo ainda. Numa das muitas elegias de Camões, a elegia que começa com “O poeta Simónides, falando”, os pontos de contacto com Os Lusíadas são imensos. Camões relata uma expedição na Índia e diz que “foi uma expedição contra a gente no curvo arco exercitada”. Isabel Almeida comenta: “A leitura desse texto mostra um Camões desconfortável com aquilo que é a desproporção de forças, com aquilo que é crucial aos próprios olhos de Camões, que de facto, tem uma mundividência muito cavalheiresca e defende a figura do cavaleiro com os seus deveres, os seus valores, a sua ética. Camões mostra-nos quase um arrepio perante aquela forma de agir que é de uma força imensa comparada com a que a gente ‘na curva exercitada’ tinha. É um texto muito engraçado. Há um texto de Horácio muito conhecido em que se diz ‘bem-aventurados os lavradores pela vida sossegada que têm, pela paz de que gozam’… É um texto relativamente pequeno, mas é uma longa cantilena sobre a beleza da vida no campo e, Horácio, que era muito irónico, muito cáustico às vezes, termina o texto dizendo: ‘assim pensava o usurário tal, tal, enquanto ia imaginando onde ia investir os juros que tinha cobrado’. Apontando assim o desencontro da palavra e da ação que se torna flagrante. Camões parece, de uma maneira discreta mas muito eficaz, transportá-lo para o seu texto quando cita a exclamação famosíssima de Horácio e quando põe naquela elegia um problema semelhante ao de Horácio, que é precisamente o do desencontro das palavras e das ações: quem faz a exaltação daquela vida sossegada é o mesmo que participa na expedição contra a gente na curva exercitada. Portanto, não creio que Camões seja um poeta que possamos arrumar, que possamos classificar, ou que possamos julgar indiferente.”

“Precisamos de interpretar, respeitando”

Isabel Almeida remata, perentória: “Ele era demasiado inteligente para ver o mundo só de uma cor”. Por isso também, cuidado com as interpretações apressadas de Camões. “A minha convicção é que precisamos de interpretar respeitando Camões. Não devemos querer fazer dele um nosso contemporâneo, que ele não é. É um autor do século XVI, como nós somos figuras do século XXI. Se hoje, no século XXI, nos puséssemos a dizer que a escravatura estava muito certa, ou que os outros são menos do que nós, toda a gente ia pensar que éramos loucos. Para Camões, dizer o que disse no seu tempo, teve que ter coragem e ousadia. Tal como o Padre António Vieira, que às vezes também é mal tratado. Vieira escreveu textos belíssimos sobre a escravatura, dizendo ‘não é a cor que nos distingue, nós somos homens, somos humanos e isso é que importa’. Vieira escreveu três, quatro sermões extraordinários sobre a escravatura, de uma coragem imensa, que as pessoas não leem. E porque é um padre, um padre jesuíta, atiram-lhe tinta vermelha.”

"Há uma ideia sobre o que está n’Os Lusíadas e as pessoas acabam por não ler exatamente os versos." Na foto: a primeira edição d'"Os Lusíadas", no Ateneu Comercial do Porto

Ricardo Castelo/Observador

Mas será tão complicado assim afastar Camões de uma visão simplista, nacionalista e redutora sobre um povo, um reino, uma época? Isabel Almeida diz-nos claramente que não. “Bastar-nos-ia olhar para os finais de canto d’Os Lusíadas a partir do Canto V, e são sistemáticos, para vermos o que é de facto a ousadia e a audácia de um poeta que inclui rasgos lírico no poema heroico para dizer o que considera estar errado à sua volta. Os finais de canto de Os Lusíadas são um discurso sobre o tempo presente, não sobre um longínquo passado. É Camões a intervir sobre o tempo presente e a dizer coisas que não seriam muito fáceis de dizer na época, nomeadamente que a gente da estirpe do Gama não era muito amiga da poesia. Há aquele verso em que Camões quase rosna, tão viva é a aliteração: ‘são tão rudes, de engenho tão remisso…’/ porque quem não sabe arte não na estima’. E esse é um verso que continuamos a ver no Museu Nacional de Arte Antiga, está lá inscrito nos primeiros degraus, a lembrar-nos um triste diagnóstico que Camões faz no seu tempo.”

E não, não podemos deixar de pensar no poeta sem admirar o seu humanismo. “Camões era alguém que pensava sobre aquilo que o rodeava e que não se coibia, nem prescindia de dizer o que pensava. E de exprimir, de facto, um ponto de vista que pode ser muito critico à época.” A professora, membro do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, destaca agora como exemplo o final do Canto I da obra máxima de Luís Vaz de Camões. “É impressionante. O final do Canto I é uma denúncia de formas de condutas e de comportamentos que para Camões não são aceitáveis. Não é possível viver explorando os outros, não é possível viver na injustiça. No fundo, Camões está nisso a ser filho do seu tempo. E com ele percebemos que, de facto, há valores que com toda a tecnologia, e com todas as mudanças ocorridas, são intemporais. A justiça era no século XVI, nas artes teóricas de reinar, um valor crucial. Quando se falava num regime monárquico e quando se dizia o que o rei devia ser, estava lá tudo, a justiça, a prudência, a temperança, a fortaleza, as virtudes cardeais. A justiça era crucial. Um reino sem justiça é um reino que não funciona, isso Camões sabia perfeitamente e lembra-o ao rei e di-lo com todas as letras n’Os Lusíadas. Se quisermos ler Os Lusíadas, claro. Se não fizermos apenas uma leitura atomizada, fragmentada, que esquece o que não convém, e que só olha para o que àquele leitor seduz…”

Há na obra de Camões “uma força imensa que é a força da beleza, a força que o tempo não consome, a força de uma sabedoria que continua a unir gerações, e que continua a ser válida para nós".

O problema é que ao longo do tempo o poema foi sendo usado em leituras fechadas, aproveitado em discursos políticos de vária ordem e de acordo com tendências, interesses, movimentos, inclinações. Depois, a definição de ideias preconcebidas sobre um texto levou a que, leigos e pouco cativados, muitos aceitassem conhecer Os Lusíadas sem sequer os terem lido. Há de facto uma ideia sobre o que está n’Os Lusíadas e as pessoas acabam por não ler exatamente os versos. Há sinopses, resumos que explicam e isso acaba por chegar. “Esse é que é o mal”, diz isabel Almeida. “Esse é o princípio de todos os desentendimentos. O que precisamos de fazer é olhar para Camões, não para querer que ele seja igual a nós, porque dessa forma estaremos a forçar alguma coisa, mas a tentar compreender o que ele foi. E desse ponto de vista, a leitura pode ser uma excelente lição. Porque vamos perceber que há coisas que continuam a maravilhar-nos.”

A poesia, diz a professora, será sempre uma maravilha. “Quando entro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa agradeço sempre a Almada Negreiros, porque ele foi escolher, para assinalar o que foi a passagem para o edifício, um passo que para mim é um dos mais bonitos de Os Lusíadas. É um passo do Canto X em que a deusa Tétis fala a Vasco da Gama, a quem depois de fazer a viagem à Índia, a deusa Vénus oferece, e aos portugueses também, uma magnífica recompensa que é a possibilidade de acederem à Ilha Namorada. Na Ilha Namorada há tempo para tudo, que é também uma coisa extraordinária em Camões. Há tempo para o corpo, há tempo para o sexo, e há tempo para a inteligência e o espírito, com a revelação da máquina do mundo. E quando a deusa Tétis começa a explicar os segredos da máquina do mundo, diz-se que o Gama fica ‘comovido de espanto e de desejo’. Eu acho que isso é aquilo que deve unir quem está aqui na faculdade, porque todos estamos, perante um poema como o de Camões, comovidos de espanto e de desejo. Tudo aquilo que, no fundo, é a busca de conhecimento é essa experiência de espanto e de desejo.”

Isabel Almeida continua: “E a mesma deusa explica ao Gama, quando lhe revela aquela miniatura da máquina do mundo, que é para que ‘vejas por onde vás, onde vás e o que desejas’. Nada mais nada menos do que aquilo que nós procuramos na vida.”

O “boémio” viajado e experiente

Camões, no entanto, não é só o poeta de Os Lusíadas, mesmo que bastasse sê-lo. Há na sua obra, nessa em particular, mas também na lírica, nas cartas, e também no teatro, “uma força imensa que é a força da beleza, a força que o tempo não consome, a força de uma sabedoria que continua a unir gerações, e que continua a ser válida para nós. Se alguém nos ensina uma coisa é para que vejamos por onde vamos e o que queremos. O exercício de leitura de Os Lusíadas, bem como de toda a obra do poeta, pode ser, e a meu ver seria isso mesmo desejavelmente, uma oportunidade de escolha. Ou seja, há coisas com as quais eu me identifico e há outras das quais eu me distancio. Isso é que é natural. Não pode, pois, é haver uma condenação sumária. Se o fizermos, estamos a retirar a nós próprios a possibilidade de conhecer e a perder uma memória, que também é importante. E sabemos o que o Alzheimer faz às pessoas quando lhes tira a memória, tira-lhes um sentido de identidade, já não sabemos quem somos. A nossa relação com o passado tem que ser saudável, temos que o olhar, temos que o compreender, e aceitar na sua diferença. No fundo, falamos tanto do outro, o passado também é um outro. Aceitemo-lo na sua diferença e maravilhemo-nos com aquilo que é a sua vitalidade”.

"Camões Lendo 'Os Lusíadas' aos Frades de São Domingos" (1927), por António Carneiro (1872-1930)

E porque não pensar no poeta enquanto homem, também ele sui generis, também ele autêntico, também ele com tantas diferenças e semelhanças connosco e com os seus concidadãos. Camões na sua época também era um homem raro, curioso. Saiu de Portugal em 1553, embarcado na Nau São Bento, rumou à Índia e por lá foi vivendo, tendo regressado 17 anos depois, em 1570, carregando experiências, vivências, observações, constatações. Era um homem do mundo, talvez mais até do que europeu. Foram longos anos de experiência. Índia, China, Oriente, Macau, Moçambique, Ceuta… Desse ponto de vista, Isabel Almeida não tem dúvidas que Camões é uma figura muito interessante a relacionar com os seus contemporâneos. A professora fala especificamente de Fernão Mendes Pinto, com cujo texto, a obra de Camões se aproxima. “Há lugares em que eles estão a ver as coisas por um prisma muito semelhante, o da consciência do que havia de errado em algumas práticas, são as mesmas formas de ação que podemos ver reprovadas no texto de Mendes Pinto, como podemos ver reprovadas no texto de Camões”, sublinha a camonista.

Mas aí, se falamos dos autores enquanto homens, só podemos fazê-lo “especulando muito”. “Teremos que perceber que Camões era daquelas figuras muito diversas, seria uma figura capaz de ser aquilo a que hoje chamaríamos um boémio e ao mesmo tempo cultivar interesses que já estavam a prepará-lo para um dia ser o autor de Os Lusíadas. Situá-lo-íamos entre a noite e o dia e se calhar nem era preciso estabelecer essa fronteira. Camões tocaria múltiplos registos. Mas sobre a sua vida sabemos muito pouco.”

De qualquer forma, é um homem que viaja, que viaja muito, um homem que é capaz de escrever, que é poeta, mas que também é navegador, que também é militar, e que, por tudo isso, alcança uma amplitude, uma experiência e uma riqueza de vida que não é comum. “E de que ele se orgulha n’Os Lusíadas com toda aquela fachada de relativa modéstia. Camões termina o poema, quando se volta a dirigir a D. Sebastião, lembrando que há do seu lado ‘honesto estudo, uma experiência vastíssima, coisas que’, diz, ‘juntas se acham raramente’. Ele tem plena consciência do que era possivelmente a lucidez do seu próprio olhar e a experiência de vida que lhe permitia conhecer, de ter ‘claramente vistos os segredos da natura’ e o comportamento humano, a experiência da guerra… E tanto mais.”

"Se a leitura de Camões puder ser parte de um exercício de desenvolvimento das capacidades de leitura, já seria um bem magnífico que poderíamos associar aos cinco séculos do seu nascimento.”

Falar de Camões e não evocar a sua espiritualidade e emoção não será sério. O amor camoniano, aquele que todos sabemos de cor, que “é fogo que arde sem se ver”, faz também parte da nossa identidade, coletiva, individual. A sua, nossa, paixão. Isabel Almeida recorda a propósito desta evidência um anúncio publicitário a um perfume de O Boticário, uma marca de produtos de beleza brasileira. “Há uns anos largos, havia um anúncio do Boticário que lembrava esse Camões do amor e do nosso encantamento. Os brasileiros fizeram um anúncio a partir precisamente desse soneto “Amor é fogo que arde sem se ver” e tinha como protagonista um menino muito pequenino que andava a aprender e a decorar o poema. Tarefa difícil. Vamos percebendo que ir relendo o poema, que o ia memorizando, repetindo-o de manhã até à noite. Aquela alma andava, desde que se levantava até que se deitava, com os versos de Camões na cabeça e, de vez em quando, o filme publicitário mostra grandes planos do pequeno a dizer ‘um contentamento descontente’ com um ar confuso, tipo que história é esta? O menino está apaixonado por uma menina e vai-lhe oferecer um perfume e quer dizer qualquer coisa de bonito, mas ela é muito tonta e não entende. O publicitário que foi buscar aquele texto e que o usou daquele modo percebe, e percebe de uma maneira muito fina, que aqueles versos hão de dizer qualquer coisa a toda a gente, mesmo quando a pessoa não percebe, mesmo quando estranha, mesmo que não saiba o que é ‘um contentamento descontente’, o que é um paradoxo, não interessa, não temos que saber dar os nomes às coisas para sentir a poesia ou estarmos apaixonados. Há ali qualquer coisa de mágico, qualquer coisa de maravilhoso que nos toca, que nos comove, que nos faz pensar.”

A “útil inutilidade da poesia”

Camões é um erudito que chega rapidamente a toda a gente. “E quanto mais nos aproximamos, mais isso acontece. Aproximarmo-nos de Camões nos quinhentos anos do seu nascimento será um ganho geral”, afiança Isabel Almeida. E aponta a leitura do poeta como um desígnio para estas celebrações. “A leitura faz parte daquilo que se pensa como educação cívica. Seria absolutamente decisivo garantir que dessa educação cívica faz parte a capacidade de dizer e de compreender, sabermos dizer, sabermos compreender, sabermos escrever uma carta de agradecimento ou uma carta de protesto, podermos ouvir o outro e compreendê-lo. Nem sempre isso é possível. Às vezes as pessoas não se dão conta de que os erros de português são cada vez mais, não se dão conta de que estão a usar palavras que não significam aquilo que querem dizer, ou que constroem frases de uma maneira que as torna ininteligíveis, ou de uma ambiguidade tremenda. Acho que faria parte de uma educação cívica promover essa capacidade de lidar com a língua materna, no fundo, garantir que competências essenciais da cidadania estavam asseguradas. Se a leitura de Camões puder ser parte de um exercício de desenvolvimento das capacidades de leitura, já seria um bem magnífico que poderíamos associar aos cinco séculos do seu nascimento.”

"O que há de extraordinário em Camões é ter escrito o que escreveu." Na foto: busto no liceu de Lisboa com o nome do poeta

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Seria uma homenagem a alguém que, primeiro do que todos, fez saber que a nossa língua, essa pátria, ou património comum que nos une a todos, é uma língua capaz, uma língua suficientemente grande e forte para dizer tudo, tudo o que as línguas clássicas já tinham provado ser possível de dizer.

Explica a professora de Estudos Clássicos: “Camões publicou Os Lusíadas em 1572. Em 1569, três anos antes, já havia um outro poema épico, de Jerónimo Corte-Real, Sucesso do segundo cerco de Diu, que estava pronto. Há dele uma cópia luxuosa no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que terá sido provavelmente oferecida na corte ao rei ou a alguém muito próximo do rei. O poema de Corte-Real foi impresso dois anos depois de Os Lusíadas e já estaria concluído e perfeito por volta de 1569, disso não há dúvida. Jerónimo Corte-Real escreveu em português. Em Espanha, em 1569 também tinha saído um poema épico de Alonso de Ercilla, La Araucana, em língua vulgar. O século XVI é um tempo de valorização da língua vulgar e desse ponto de vista Camões está em plena sintonia com António Ferreira (1528-1569) que exortava à construção de um discurso épico e se autodefinia como ‘Ferreira da língua amigo’. Aí não há nada de extraordinário em Camões. O que há de extraordinário em Camões é, mais do que a invenção ou a assimilação de palavras que lhe vinham do latim através do castelhano ou através do italiano, num processo de criação de neologismos, e que se constitui como o grande contributo de Camões para a língua portuguesa, é o ter escrito o que escreveu. Não é tanto a quantidade ou a qualidade do léxico, mas é a possibilidade de se construir um edifício como Os Lusíadas em língua portuguesa, aqueles versos todos em oitavas, com a métrica e os assentos no sítio certo a permitirem compor um poema daquela envergadura. Foi isso que fixou um modelo, fixou quase uma consciência de que a língua portuguesa era capaz daquilo, era capaz de fazer uma obra que podia ser comparada com a dos antigos, e uma obra que podia ser comparada com algumas experiências mais modernas como os romanzi, como era o caso de Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto.”

Isabel Almeida deixa bem vincada essa autoridade camoniana, esse feito, essa glória, esse edifício que ainda hoje nos serve de casa. “Camões deixa uma prova de que o português, com pouca corrupção, parece o latim no sentido em que serve para edificar um poema tão ambicioso e tão solene quanto A Eneida ou A Odisseia, ou A Ilíada”.

É assim que “Camões pode ser a razão pela qual ainda temos mais motivos para querer perceber um património que existe, um valor que só espera que nós o descubramos”. O interesse pela sua obra e por tudo o que escreveu “é tudo o que precisamos” desenvolver. “Precisamos disso para a nossa vida. É a útil inutilidade da poesia, é essa possibilidade de encontramos a palavra certa, de vermos o brilho de uma ideia que deixa de nos escapar e que continua a encantarmos.”

 
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