Ingénuo, visionário, traidor, pacifista. Issam Sartawi não era um homem consensual. Entre as décadas de 1970 e 1980, foi um dos principais dirigentes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e uma das pessoas da confiança de Yasser Arafat, líder histórico da organização. Ao mesmo tempo, participava em reuniões secretas com o lado israelita, para tentar encontrar soluções de consenso. Não é certo se o fazia com a autorização expressa de Arafat.
No dia 10 de abril de 1983, a mais de quatro mil quilómetros de distância de Acre, cidade onde nasceu em 1935, em pleno Mandato Britânico da Palestina, Issam Sartawi foi assassinado num lobby de hotel em Albufeira. Esse é um dos temas centrais do novo Podcast Plus do Observador, “1983: Portugal à queima-roupa“.
Nem sempre a paz norteou o raciocínio de Sartawi. Forçado a abandonar a terra natal em 1948, durante a Nakba, período em que centenas de milhares de palestinianos tiveram de deixar as suas casas depois da criação do Estado de Israel e da conquista de Acre, acabou por mudar-se com a família para os Estados Unidos. Na altura, tinha 18 anos. Especializou-se em cardiologia em Cleveland, mas cedo sentiu que a sua missão estava noutro sítio. Como explica Tessa Sziszkowitz, biógrafa de Sartawi, autora de “O lutador pela paz: Issam Sartawi, o enviado secreto de Arafat” (sem edição em Portugal), o dirigente “despertou para a necessidade de se juntar à luta palestiniana”. Deixou a vida civil, os projetos de uma vida estável nos Estados Unidos e regressou ao Médio Oriente.
Passou por vários países árabes, entre Líbia, Egito e Jordânia, mas foi no Iraque que se estabeleceu, e onde se juntou à luta da Fatah, uma das principais fações da OLP, já liderada por Yasser Arafat. Nessa altura, “ninguém queria falar de negociações e de coexistência pacífica”, explica a austríaca Sziszkowitz. E Sartawi também não se incluía neste lote: “Era o que hoje descreveríamos como um terrorista”.
Esteve na frente de batalha na Jordânia, mas rapidamente percebeu que esse não era o caminho. O Massacre de Munique, em 1972, onde 11 atletas israelitas foram assassinados por um grupo terrorista palestiniano, os Setembro Negro, foi o fator decisivo para que mudasse de ideias — e de funções. “Ele era muito eloquente, era um intelectual, era muito carismático”, diz a biógrafa. “Ficou claro que era melhor usá-lo como diplomata”.
A partir daí, ganhou um novo propósito: convencer a OLP e o próprio Arafat a reconhecer a importância da coexistência com Israel. “Não via outra opção para um futuro Estado palestiniano que não fosse um compromisso com o outro lado”. Tessa Sziszkowitz garante que nem sempre os dois dirigentes se entenderam, mas que, aos poucos, Arafat compreendeu a necessidade desta aproximação, desde que acontecesse em segredo.
▲ Issam Sartawi fotografado menos de um ano antes de ser assassinado, numa conferência em Paris
Gamma-Rapho via Getty Images
Sartawi foi viver para Paris e começou a trabalhar nos contactos com Israel. O líder da OLP nunca admitiu abertamente ter-lhe dado essa ordem. Por um lado, os próprios israelitas não tinham autorização para se encontrarem com representantes palestinianos. Por outro, no mundo árabe a ideia era altamente impopular. Ter Sartawi como “soldado secreto”, como lhe chama Sziszkowitz na biografia publicada em 2011, era ideal para o líder palestiniano. Se os planos falhassem (como falharam), podia distanciar-se. Se tivessem sucesso, colhia os louros.
Foi neste contexto que Sartawi chegou a Albufeira, em abril de 1983, para participar no encontro da Internacional Socialista. Mas ao contrário do que vinha acontecendo nos anos anteriores, o dirigente aterrou em Portugal completamente isolado da organização que representava.
Um ano antes, em entrevista ao New York Times, garantiu que a OLP estava pronta para reconhecer o Estado de Israel, “numa base de reciprocidade”. Fê-lo à revelia de várias das principais figuras da organização, numa altura em que os palestinianos acabavam de entrar na Guerra do Líbano – um conflito que iriam perder meses depois.
Yasser Arafat já não conseguia proteger Sartawi. “Sentia que se estava a pôr em perigo” se o fizesse, garante Tessa Sziszkowitz. E por isso, o dirigente viajou para Portugal com um passaporte falso e sem qualquer tipo de proteção ou segurança. Vinha para cumprir a missão de sempre: encontrar uma solução pacífica com dirigentes israelitas. Mas teria de o fazer por conta própria.
A Internacional Socialista que veio para Portugal como plano B
O XVI Congresso da Internacional Socialista devia ter sido realizado na Austrália. Isso só não aconteceu por uma razão: Issam Sartawi. Nos anos 1980, vários países do mundo ocidental ainda olhavam para a OLP com desconfiança, por causa do lado militarista do grupo e envolvimento em vários ataques terroristas. Nem todos viam a organização como interlocutor sério. E por isso, o líder do governo australiano, o trabalhista Bob Hawke, recusou receber representantes palestinianos.
Miguel Almeida Fernandes, estava a cobrir o evento pelo semanário Expresso, e explica que foi Mário Soares, na altura líder do Partido Socialista português, a chegar-se à frente para encontrar uma alternativa. “O primeiro-ministro da Austrália, trabalhista, opunha-se a que o Sartawi, ou qualquer membro da OLP, se sentasse neste congresso. Então, Mário Soares, que tinha feito meses antes um périplo, liderando uma comitiva da Internacional Socialista pelo Médio Oriente, achou por bem convidar o assessor do Arafat para estar presente em Portugal”.
Soares propôs o Hotel Montechoro, em Albufeira, como plano B. Sartawi só estaria como observador, não tinha qualquer intervenção marcada. Ramiro Santos, jornalista enviado pela Antena 1, lembra que mesmo nesta condição, o dirigente aproveitou o acontecimento para promover conversas de bastidores, não apenas com o lado israelita. Naquele congresso, estavam figuras como Olof Palme, então líder do governo sueco, Willy Brandt, antigo chanceler alemão e presidente da Internacional Socialista, e Felipe Gonzalez, primeiro-ministro espanhol, além do líder do Partido Trabalhista israelita, Shimon Peres.
“Era um grande palco”, lembra Ramiro, “e o que falaram não seria coisa de somenos importância”. Para o jornalista, a iniciativa de Mário Soares era natural. Naquela altura, já se tratava de um líder respeitado dentro da família socialista. António Campos, antigo braço direito do socialista, também não tem dúvidas: “Não era um líder nacional. Era conhecido internacionalmente e na Europa era uma grande figura da liberdade e da democracia. (…) A relação com Brandt, com Schmidt, com Palme… Todos admiravam o Mário Soares. Ele tinha influência em muitos países”.
Apesar da presença de várias figuras centrais da política europeia e mundial, as condições de segurança no Hotel Montechoro não acompanhavam a importância do evento. Ramiro Santos lembra um exemplo concreto dessa impreparação: “De tal maneira a segurança era permissiva que eu próprio subi e desci várias vezes com líderes como o Willy Brandt no elevador. Eles próprios cruzavam-se diariamente e frequentemente com turistas em fato de banho, que vinham da praia ou que iam para a praia, subiam no elevador com eles. Logo por aí se pode ver que não havia praticamente segurança nenhuma”, argumenta, considerando que “só não houve outros atentados com outros líderes de maior projeção mundial, porque não calhou”.
Ao todo, estavam 600 turistas alojados no hotel. A PSP, responsável por garantir a segurança do congresso, não tinha qualquer tipo de policiamento especial pensado para este tipo de eventos. Os agentes destacados para Albufeira não foram treinados para situações deste género. Ao todo, de acordo com as estimativas da imprensa da altura, estavam cerca de 120 polícias presentes, entre o interior e o exterior.
Quem tinha a pasta da Administração Interna era o social-democrata Ângelo Correia, que hoje assume que não foi dada a devida atenção ao risco que envolvia reunir ali personalidades tão importantes. “Não houve uma visão dinâmica”, explica, “não houve uma visão de onde vieram as pessoas que iam para essa reunião”. E se Issam Sartawi tinha entrado no país com um passaporte falso (com o nome “Ottoman K.”), muitos outros o poderiam ter feito – e fizeram – mas com outro tipo de intenções. “Era o puro e total amadorismo”, remata o antigo ministro.
Cabia à própria organização da Internacional Socialista indicar que nomes se iam dirigir ao Algarve e pedir acompanhamento para quem considerasse crucial. Issam Sartawi não foi incluído nessa lista. “Os observadores são sempre menos importantes do que os membros formais da organização. Não houve uma atenção especial sobre Sartawi. Houve uma atenção igual à que se deu aos outros, não específica. E se calhar nessa altura o que era requerido era uma atenção específica”, lamenta Ângelo Correia.
Os congressistas tinham ainda a opção de trazer segurança pessoal (foi o que aconteceu na maioria dos casos), mas nem isso o dirigente palestiniano quis. Nas várias viagens que fazia ao estrangeiro, dispensava praticamente sempre esse tipo de acompanhamento. Juntando esse aspeto à impreparação das autoridades e ao isolamento em relação à OLP, não havia dúvida: o conselheiro de Arafat era um alvo fácil em Albufeira.
Premonição ou ingenuidade? A morte e o legado de Sartawi
Era já o último dia do congresso da Internacional Socialista. A noite anterior tinha sido animada: várias das figuras principais jantaram e ficaram em convívio num conhecido restaurante na zona do Alvor. Passavam poucos minutos das nove da manhã quando Sartawi entrou no átrio principal do Hotel Montechoro, depois de tomar o pequeno-almoço ali bem perto, no Hotel Balaia, onde estava alojado durante o fim de semana.
Como sempre acontecia, vinha acompanhado do secretário Anwar Eisheh, um dos homens da sua confiança. Conversava com delegados da Tanzânia e do Chipre quando foi alvejado. Ouviram-se quatro tiros. Um deles atingiu-o na nuca. Caiu ao chão, já sem vida. O secretário foi também alvejado, mas numa perna, e agarrou-se ao corpo de Sartawi. Mais ninguém se aproximou durante pelo menos cinco minutos.
Ainda hoje, não é certo como estava vestido o atirador, de onde apareceu ou se teve cúmplices. Mas uma coisa é certa: teve tempo para estudar o local, esperar pela oportunidade certa e aproximar-se o suficiente para ter um tiro limpo. Estava a menos de cinco metros de Sartawi quando o assassinou.
▲ O homicídio de Issam Sartawi foi notícia no mundo inteiro
Apanhada de surpresa, a polícia no interior não teve tempo de deter o homicida. O homem misterioso saiu pela porta principal. A imprensa da altura escreve que o plano estava tão bem estudado que sabiam que o porteiro do hotel estava de baixa – se não estivesse, a porta estaria fechada e poderia impedir uma fuga tão eficiente.
De dentro do hotel, dois agentes vieram em perseguição e dispararam várias vezes, alertando o corpo de segurança estacionado na rampa exterior do edifício. O assassino, que até aí tinha tentado escapar calmamente e a passo, foi obrigado a correr.
Desceu a rampa, de arma em riste, enquanto a polícia o tentava abater e até chegou a escorregar aos pés de um agente. Mas nenhum esforço chegou. O homem desapareceu pelo meio das várias casas que rodeavam o hotel. No Algarve, no mínimo, não voltou a ser visto pelas autoridades. Só viria a ser apanhado a centenas de quilómetros de distância.
Para trás, deixou uma missão cumprida. O homem que procurou o diálogo com o inimigo e pagou por esse passo demasiado ousado. Hoje, muitos descrevem a atitude de Sartawi como premonitória. Ainda praticamente ninguém defendia a solução dos dois estados para o conflito israelo-palestiniano, muito menos do lado árabe. Fazê-lo significava reconhecer a existência e legitimidade de Israel.
Para Tessa Sziszkowitz, a postura do dirigente foi corajosa, mas também algo ingénua: “Acho que perdeu o temperamento. Era muito apaixonado pela ideia de que do lado israelita também estavam seres humanos. E do lado palestiniano, isso poderia fazer com que fosse eliminado. Mas Sartawi não ouviu ninguém dos que tentaram chamá-lo à razão”. A jornalista explica que Arafat foi um dos que tentou explicar ao conselheiro que estava a pedir demasiado a ambos os lados. “Sartawi não o compreendia”.
[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
“A história dele não nos dá muita esperança de que apelar à coexistência pacífica possa ser recompensado com algum prémio”, considera a biógrafa austríaca. E a verdade é que doze anos depois do atentado no Algarve, o primeiro-ministro israelita Rabin seria assassinado por assinar os acordos de paz de Oslo, com o próprio Arafat. Sziszkowitz sublinha também que Sartawi estava certo quando dizia que “a única maneira de encontrar a paz ao Médio Oriente, aos israelitas e palestinianos, era encontrar uma maneira de falar uns com os outros” e fazer cedências territoriais de parte a parte.
Muitas das histórias que são hoje conhecidas sobre Sartawi foram contadas pelos interlocutores que encontrou do lado israelita. No livro “My Friend, the Enemy” [“O meu amigo, o inimigo”], o israelita Uri Avnery relata a relação de amizade que construiu com o palestiniano ao longo de vários encontros, formais e informais.
São esses sinais e esses testemunhos que fazem Tessa Sziszkowitz acreditar que, no final de contas, a vida e morte do dirigente da OLP podem simbolizar algo mais: “Acho que a história dele também mostra que é possível estabelecer essas ligações entre os dois povos. Essa é a única esperança que sempre vi nesta história”.
Trailer “1983: Portugal à Queima-Roupa”. Estreia a 22 de julho