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epa11040388 A branded water tower rises above Warner Bros. Studios in Burbank, California, USA, 21 December 2023. Warner Bros. Discovery Chief Executive David Zaslav met with Paramount Global CEO Bob Bakish on 19 December 2023 to discuss a merger of the companies, according to people familiar with the matter.  EPA/ALLISON DINNER
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▲Os estúdios da Warner Bros são um dos ativos na mira de ambas as empresas.

ALLISON DINNER/EPA

▲Os estúdios da Warner Bros são um dos ativos na mira de ambas as empresas.

ALLISON DINNER/EPA

O que é que a Warner Bros tem para abrir uma guerra de milhões entre a Paramount e a Netflix?

A Warner Bros pode ter escolhido a Netflix, mas a Paramount não se dá por vencida. Investe dinheiro para ficar com todos os ativos da Warners Bros — e tem uma lista de apoios para financiar o negócio.

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A Netflix pode até já estar a comunicar aos clientes por email que vai comprar a Warner Bros Discovery (WBD), explicando que a HBO Max vai passar a ser parte da ‘família’. Mas a novela empresarial está apenas no primeiro capítulo — e a temporada promete ser longa.

Quando parecia que a Netflix tinha saído vencedora de uma guerra de licitações para ficar com a WBD, ultrapassando a Paramount SkyDance e a Comcast, deu-se um novo plot twist. “Estamos aqui para terminar o que começámos”, declarou David Ellison, CEO da Paramount SkyDance, à CNBC, após formalizar esta segunda-feira uma oferta hostil para comprar a totalidade da Warner Bros. A Paramount, dona do streaming Paramount+, de negócios de estúdios de cinema e ainda de canais como a CBS, Nicklodean ou a MTV, dá 30 dólares em dinheiro por cada ação da WBD, refletindo um valor patrimonial de 77,9 mil milhões de dólares. Incluindo a dívida da WBD, a oferta implica um montante de 108 mil milhões de dólares para ficar com todos os negócios da Warner Bros.

O acordo multimilionário (e histórico) da Netflix com a Warner Bros que pode mudar o panorama do streaming

O valor supera o oferecido pela Netflix, anunciado na sexta-feira passada. Na comunicação ao mercado, o acordo ficou fechado por um montante combinado de 27,75 dólares por ação da WBD: 23,25 dólares em dinheiro e 4,50 dólares em títulos da Netflix. O que, juntando tudo, se traduz num valor de 72 mil milhões de dólares, com um valor empresarial total estimado de 82,7 mil milhões de dólares.

“Acreditamos que os acionistas têm o direito de avaliar a oferta e é por isso que estamos a fazer diretamente a oferta aos acionistas da WBD”, declarou David Ellison, em entrevista à CNBC. A oferta da Netflix — a que foi escolhida pela WBD — foi analisada e ponderada pelo conselho de administração. A oferta da Paramount é diferente: não passa pelo board, sendo comunicada diretamente aos acionistas para que a possam avaliar. “Por todas as métricas por onde se olhe, acreditamos que a nossa oferta é melhor para os acionistas”, disse David Ellison, filho de Larry Ellison, o patrão da Oracle e o segundo homem mais rico do mundo.

Paramount faz proposta para compra da Warner Bros., num desafio ao acordo assinado com Netflix

Quem acompanha a indústria considera que esta reação por parte da Paramount “não é inesperada”. Eric Fruits, professor de economia e especialista do International Center for Law & Economics (ICLE), explica ao Observador que “era muito claro que a Paramount queria mesmo comprar a Warner Bros. Discovery”, não sendo, por isso, “verdadeiramente surpreendente esta oferta hostil da Paramount”.

Na longa comunicação ao mercado, a Paramount detalhou ter feito “seis propostas ao conselho de administração da Warner Bros, ao longo de 12 semanas, tendo cada uma delas sido rejeitada”. Ainda antes do anúncio com a Netflix, Ellison queixou-se de que WBD não estaria a ser séria com o negócio. 

“Nós, a família Ellison, vamos ser o maior investidor neste negócio”, explicou o empresário à CNBC, revelando que a família Ellison e a RedBird, uma firma de investimento, canalizarão “41 mil milhões de dólares” para a oferta. “Estamos aqui porque estamos a lutar pelos nossos acionistas e também pelos acionistas da WBD”, reforçou. Ellison argumentou ainda que, ao “juntar as duas empresas, está a criar-se um verdadeiro player para concorrer com a Netflix, com a Amazon, com a Disney. Não é assim tão anticoncorrencial ou que levasse a que deixasse de haver concorrência em Hollywood como o acordo [com a Netflix] fará se avançar”, atirou.

Além dos Ellison, o negócio também contará com o apoio financeiro dos fundos soberanos do Qatar e da Arábia Saudita e também da Affinity Partners, a empresa de investimento gerida por Jared Kushner, genro de Donald Trump, Presidente dos EUA.

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▲ Jared Kushner, através da Affinity Partners, deverá prestar apoio financeiro ao negócio da Paramount

Getty Images

O que separa as duas ofertas em cima da mesa?

Em linhas gerais, o montante oferecido e o que se pretende adquirir. Feitas as contas, a Paramount Skydance faz uma oferta maior do que a Netflix, dando mais 2,25 dólares por ação — mas também quer mais ativos em troca. Ao todo, a Paramount oferece 30 dólares em dinheiro por cada ação da WBD.

Já a Netflix ofereceu 27,75 dólares, através de uma combinação de 23,25 dólares em cash e 4,50 dólares em ações da Netflix.

A Netflix quer ficar com o streaming, a propriedade intelectual, os estúdios de televisão e de cinema, deixando de fora o negócio de canais por cabo. Tudo para poder reforçar o seu catálogo com conteúdos clássicos, como o Casablanca, mas também fenómenos que retêm os espetadores, como a série Friends.

A Paramount quer a totalidade do negócio da WBD. Aliás, na documentação explica que “a oferta está condicionada à não separação da Warner Bros”. Em junho deste ano, a WBD anunciou que queria separar os seus negócios: ficar com os canais de cabo globais de um lado e, noutra empresa, o negócio de streaming e estúdios. A lista é extensa e inclui canais como o Discovery, a CNN, a TNT, o TLC, a Eurosport, o Cartoon Network e a Adult Swim. Na oferta da Netflix, parte-se do princípio de que o ‘casamento’ só aconteceria após haver uma nova empresa para o negócio por cabo da WBD, que não lhe interessa.

O negócio da televisão linear está em declínio, mas a oferta da Paramount estará a “desvalorizar” os canais da WBD, referiram analistas citados pela Bloomberg. “Parece que a Paramount está essencialmente a avaliar o negócio dos ativos por cabo, em cerca de um, dois dólares por ação — o que acho que é muito menos do que aquilo que a Warner Bros pensa que vale a rede de televisão linear”, reconhece ao Observador Eric Fruits, do ICLE.

O especialista considera que o mercado da televisão em declínio é uma alteração que já não é nova. “As pessoas estão a deixar de subscrever serviços de televisão por cabo. E um dos efeitos é a queda das audiências de televisão linear”, que, como consequência, também “gera uma quebra de receitas de publicidade”.

“Mesmo que sejam ativos em queda, ainda geram uma boa fonte de receita, pelo menos para a Warner”, refere o analista, o que poderá fazer com que a WBD não se queira desfazer deles por inteiro. A Warner Bros Discovery não é a única a querer separar o seu negócio da televisão por cabo — a própria Comcast já sinalizou a intenção de se desfazer de alguns destes ativos.

epa12451120 The Warner Bros logo during the annual MIPCOM television content market in Cannes, France, 13 October 2025. The media event runs from 13 to 16 October.  EPA/SEBASTIEN NOGIER

▲ A Warners Bros. está a ser disputada por Netflix e Paramount

SEBASTIEN NOGIER/EPA

“Velha” Hollywood vs “nova” Hollywood? Não é assim tão simples

“A nossa oferta vai criar uma Hollywood mais forte”, argumentou David Ellison, CEO da Paramount. A Netflix, criada em 1997 e que começou pelo aluguer de DVD por correio, está a competir com a Paramount, um nome sonante na indústria cinematográfica desde 1912, e de onde saíram filmes como O Padrinho ou Missão Impossível. Agora, a Paramount e a Netflix disputam um pilar da indústria cinematográfica norte-americana, a Warner Bros, criada em 1923.

Mas, para Eric Fruits, a questão não se resume a uma disputa entre Hollywood tradicional e a ‘novidade’ da Netflix. “Acho que a questão não é realmente o velho contra o novo… são dois tipos de novo”, contextualiza. “Ok, a Netflix é uma empresa tecnológica, do novo mundo do streaming“, reconhece. Mas nota que a Paramount Skydance resulta de uma fusão também ela fresca, concluída apenas em agosto deste ano. “O David Ellison tem planos para uma abordagem inteiramente nova à forma de gerir estúdios e streaming, vinda da sua experiência na Skydance antes de comprar a Paramount”, explica.

A histórica Paramount, que estava numa situação financeira agitada, aceitou fundir-se com o estúdio de filmes independentes Skydance em 2024, por 8 mil milhões de dólares. Porém, só este ano é que o negócio recebeu luz verde por parte do regulador das comunicações, a FCC.

Quais são os próximos passos desta disputa?

A WBD é “obrigada por lei a publicar, enviar ou a dar aos acionistas (e a apresentar informação à SEC) uma declaração sobre se recomenda aceitar ou rejeitar a oferta”, no prazo de “dez dias úteis”, lembrou a Paramount na sua oferta ao mercado. Até agora, a Warner Bros Discovery ainda não se pronunciou sobre o tema.

E a Netflix em que pé fica nesta disputa? Eric Fruits, economista e académico do ICLE, refere que ainda há hipóteses para a empresa liderada por Ted Sarandos. “Bem, o caso mais óbvio é que ainda poderia aumentar o valor da oferta”. Fruits admite que há “uma pequena hipótese” de se reinstalar uma “guerra de licitações, em que a Netflix aumenta a sua oferta e, ao mesmo tempo, a Paramount também”. Nos bastidores, isso já aconteceu ao longo das últimas semanas: a Paramount revelou que apresentou seis propostas em 12 semanas, mas que a WBD “nunca se envolveu de forma significativa”. “Mas isso não tem nada a ver com temas de concorrência, é apenas o jogo das fusões e aquisições”, resume Eric Fruits.

Segundo a Reuters, que cita fontes com conhecimento do processo da Paramount, a oferta de David Ellison poderá não ficar por aqui. Terá sido dito a David Zaslav, CEO da Warner Bros Discovery, que a oferta de 30 dólares por ação “não era a melhor” oferta nem “a final” — sinalizando que poderiam ir ainda mais longe.

Independentemente de valores, o caminho mais provável será mesmo o de escrutínio por parte dos reguladores, dentro e fora dos EUA, refere o especialista Eric Fruits. No mercado doméstico, considera que, “tecnicamente, tanto a Comissão Federal de Comércio [FTC] como o Departamento de Justiça [DOJ] podem analisar o negócio”. “Mas a forma como isto costuma ser analisado tem em conta a especialização da agência e, tradicionalmente, o Departamento de Justiça lida mais com fusões na área dos media. Há um elevado grau de certeza de que seria o DOJ a analisar esta fusão”, realça.

epa12572107 ​The Netflix logo is displayed outside of the Netflix corporate office buildings in Los Angeles, California, USA, 24 January 2024 (issued 05 December 2026). Netflix and Warner Bros. announced on 05 December 2025  a definitive agreement under which Netflix will acquire Warner Bros., including its film and television studios, HBO Max, and HBO.  EPA/CAROLINE BREHMAN

▲ A Netflix revelou o acordo com a Warner Bros. Discovery na semana passada

CAROLINE BREHMAN/EPA

O especialista vê pontos que podem ser levantados pelo regulador em cada um dos negócios. “Olhando para a Netflix, parece ser um caminho mais linear”, referindo-se ao domínio no streaming “ao fazer a fusão entre a Netflix e a HBO Max”. “Isso tornaria a nova Netflix num fornecedor dominante nos serviços de streaming, certamente nos EUA mas também na Europa e noutras localizações”, exemplifica. “Já na parte da distribuição em sala, isso não seria uma questão, porque a Netflix não opera um estúdio de cinema”, refere.

Já para a Paramount, o desafio pode residir justamente na área dos estúdios. “Embora houvesse alguma fusão do streaming, nem a Warner Bros nem a Paramount têm uma enorme fatia do mercado. Seria menos problemático, e acho que o foco se viraria para os lançamentos em cinema e os estúdios — porque aí haveria uma clara fusão entre duas das principais distribuidoras dos EUA e, provavelmente, do mundo.” Eric Fruits refere que, dessa forma, isto seria encarado como “uma fusão horizontal entre dois estúdios tradicionais”.

Tanto a oferta da Netflix como a oferta hostil da Paramount têm valores subjacentes caso o final da história não seja feliz. A Netflix comprometeu-se a pagar 5,8 mil milhões de dólares à WBD se, “entre outras coisas, falhar na aprovação regulatória”. O compromisso do lado da WBD a pagar à Netflix será de 2,8 mil milhões de dólares.

Já a Paramount compromete-se com menos do que a Netflix, com um valor de 5 mil milhões de dólares a pagar à WBD se o negócio não chegar a bom porto. Mas a WBD teria de pagar ligeiramente mais à Paramount, na ordem de 2,9 mil milhões de dólares.

A proximidade dos Ellison a Trump é “um trunfo” neste negócio. Mas há mais em jogo

Questionado sobre este interesse pela WBD e sobre as ofertas, Trump optou por não favorecer nenhum dos lados. “Conheço muito bem as empresas. Sei o que estão a fazer. Mas tenho de ver que percentagem do mercado é que têm. Temos de ver a percentagem de mercado da Netflix”, disse Donald Trump à imprensa esta segunda-feira. Nas declarações, afirmou que a dimensão poderá “ser um problema”.

Logo a seguir, atirou um, “quer dizer, nenhuma delas é particularmente uma grande amiga minha”. O comentário foi feito depois de, nesta segunda-feira, Trump atacar os proprietários da Paramount na Truth Social por ter sido transmitida uma entrevista no 60 Minutes a Marjorie Taylor Greene, antiga aliada com quem cortou relações nas últimas semanas.

Porém, segundo a imprensa especializada, muito se falou em Washington sobre a possibilidade de a proximidade da família Ellison a Donald Trump funcionar como uma vantagem na análise regulatória. À CNBC, David Ellison deixou no ar que a Paramount teria uma “certeza regulatória mais rápida”, argumentando que o negócio “é mais favorável para o consumidor”.

“Não há dúvida de que o trunfo Trump é o argumento mais forte da Paramount”, diz o analista Blair Levin, da New Street Research, numa nota enviada ao Observador. Mas o analista alerta que esta cartada pode “fazer ricochete em várias direções”, notando os vários cenários que Trump poderá explorar. “Dada a posição de Trump em relação à União Europeia, o que quer que seja que faça pode resultar numa contra reação por parte dos reguladores da concorrência na União Europeia e noutros pontos do mundo”, exemplifica. Ou, noutro dos cenários mencionados, equaciona que o Presidente norte-americano possa “ter interesse em adiar a análise [ao negócio] o mais possível, o que é problemático para uma oferta hostil”. “Como se diz em Hollywood, stay tuned.”

Eric Fruits, especialista em questões regulatórias do ICLE, olha para as dificuldades. “Retirando as personalidades” da equação, “se olharmos só para o papel, enquanto economista ou regulador antitrust, seria de pensar que a Netflix teria provavelmente o caminho mais fácil para a aprovação”. “Mesmo a Netflix sendo uma parte grande do mercado de video on demand, o mercado de vídeo é, na verdade, muito maior”. Fala na competição por atenção, referindo que, se trata de um mercado em que se compete por atenção — num plano mais amplo, “há uma quantidade de horas limitadas por dia” em que é possível assistir a conteúdos em streaming. E, desse ponto de vista, a Netflix também compete com outras ‘distrações’, incluindo o YouTube ou até o TikTok.

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▲ David Ellison, CEO da Paramount Skydance, diz que a empresa quer "terminar" o que começou

AFP via Getty Images

Comcast fora de jogo. CEO diz que não está “interessado em pesar o balanço” da empresa

Além da Netflix e da Paramount, ainda havia uma terceira interessada na Warner Bros Discovery: a Comcast. O conglomerado de media norte-americano tem um negócio com vários pontos comuns ao da WBD. Tem canais de televisão (a NBC, Telemundo, NBC Sports, Sky Sports), presença no streaming, através do Peacock, e está também na produção e distribuição de filmes e séries. A Comcast é dona da Universal Pictures, responsável por sucessos como E.T. ou Jurassic World, da empresa de produção de filmes Focus Features e também da DreamWorks Animation, de onde saíram sucessos como Shrek ou Madagáscar. A empresa opera ainda no segmento dos parques temáticos, usando muita da propriedade intelectual que faz parte do portefólio da Universal.

Na sexta-feira, quando foi anunciado o acordo com a Netflix, não houve reação por parte da Comcast. Já esta segunda-feira, depois de a Paramount apresentar a oferta hostil à WBD, Mike Cavanagh, CEO da Comcast, sinalizou que a empresa estava fora da corrida.

Durante uma conferência da UBS, que é citada pela Business Insider, admitiu que a Comcast não tinha muita esperança neste negócio. “Não esperávamos ter grandes hipóteses de conseguir um acordo que fizesse sentido para nós”, cita a Business Insider. Cavanagh admitiu também que, a comparar com as outras ofertas, a Comcast era mais “ligeira” em termos monetários. “Não estamos interessados em forçar o balanço da Comcast.”

Segundo o executivo, a empresa decidiu “analisar” os ativos da Warner Bros Discovery que estavam à venda, “fazer o trabalho e ver até onde levava”. Cavanagh declarou que a Comcast “respeita e compreende a decisão do conselho de administração da Warner Bros de, obviamente, optarem pela certeza de elevados níveis de dinheiro”.

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