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Alberto reforçou a dose de comprimidos para o coração, diz que já não tem idade para desilusões. António desfez-se das poupanças de uma vida. Rui está farto de passar o dia de braços cruzados, encostado ao balcão. Fernando teve de alterar as encomendas que tinha feito para o Natal. Madalena passou a trabalhar com as janelas fechadas por causa do ruído. José não sabe se vai conseguir pagar aos empregados no fim do mês. Sérgio tem uma dívida de quatro mil euros e quer regressar a Inglaterra.

Dezembro é o mês de ouro para o comércio tradicional, muitas casas costumam faturar o equivalente a quatro meses, mas este ano é diferente. O Mercado do Bolhão está a ser recuperado desde maio de 2018 e as ruas vizinhas, Formosa e Alexandre Braga, estão cortadas ao trânsito e a peões, desde agosto de 2019, para a construção de um novo túnel. Apesar de concordarem com as mudanças, os comerciantes criticam a falta de diálogo da Câmara Municipal do Porto (CMP) e acusam a autarquia de “desprezo” e “desrespeito”.

Nas ruas, agora mais estreitas, onde um carrinho de bebé e uma pessoa não se conseguem cruzar, há mais lixo, ruído e insegurança. As pessoas já não passam ali, o negócio caiu a pique e há quem pondere mesmo fechar a porta. Sérgio Dias é um deles. Trabalhou oito anos em Inglaterra, em 2015 decidiu regressar à sua cidade, o Porto, para se dedicar à restauração.

Veio com a mulher e o filho, que não se adaptaram e acabaram por voltar. Sérgio ficou, então, sozinho à frente do Junio’s Café, na rua Alexandre Braga, onde os snacks e as francesinhas são a especialidade. “Comprei uma casa estragada e estava a começar a conseguir pô-la de pé, servia entre 60 a 70 almoços, pequenos almoços e lanches. Vivia das pessoas que trabalhavam no mercado”, recorda em entrevista ao Observador.

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