As paredes podem ser muita coisa. Num sentido mais literal, podemos entendê-las como muros que nos retêm, ou como uma barreira que nos protege do mundo exterior. Mas na nova Unidade de Internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar, que vem reforçar e completar a resposta da rede Hospital da Luz nesta área, as paredes são muito mais do que isso. As paredes são uma prova viva de que quem aqui está internado tem sempre os olhos postos num regresso à vida lá fora. As paredes enchem-se de atividades e memórias dos doentes que por aqui passam, renovando a esperança na alta para quem ainda aqui está. Um dos cartões que está em exposição nestas paredes, dirigido “a todo o pessoal do Hospital”, evoca a obra “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry, adaptando uma das suas frases para dizer que “aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”, rematando com “tu permaneces no meu coração”.
A nova Unidade de Internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar abriu portas em fevereiro de 2024 com o objetivo de dar uma resposta diferenciada e personalizada numa área onde persistiam carências para as situações agudas, em que a melhor resposta é o internamento. Perturbação depressiva ou perturbação de ansiedade grave, esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, doença bipolar ou adições – das mais clássicas, como o álcool, às mais recentes, como os videojogos – são muitos os exemplos das situações que podem beneficiar deste internamento de 14 camas.
Este internamento insere-se num conjunto de respostas de psiquiatria e saúde mental muito mais alargado. Existe uma articulação, a nível do ambulatório, com outras unidades, o que significa que qualquer doente que esteja a ser acompanhado no âmbito de outra especialidade, se necessitar de cuidados agudos ao nível psiquiátrico, pode ser encaminhado para esta unidade. Mas esta é apenas uma das portas de entrada para o internamento psiquiátrico no Hospital do Mar. Um doente pode também ser referenciado após uma urgência hospitalar, pelo psiquiátrico ou outro médico que o acompanha (seja ou não da rede Hospital da Luz), pelo serviço Luz 24 (217 104 424) ou, ainda, por iniciativa própria.
Como diria Saint-Exupéry, muitas vezes o essencial é invisível aos olhos e no Hospital do Mar existe uma equipa multidisciplinar a trabalhar sempre em conjunto para garantir que todos os pormenores são tidos em consideração no plano individual de cuidados dos doentes e que cada doente encontra nesta jornada a sua “rosa” e um novo caminho mais seguro.
2250000
Pessoas em Portugal sofrem de uma perturbação de saúde mental, o que representa 23% da população, um valor superior à média de 16,7% da EU (1)
Impacto no PIB
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Os custos totais associados aos problemas de saúde mental em Portugal foram estimados em cerca de 3,7 % do PIB, sendo mais de 40 % desses custos atribuídos à redução da participação e da produtividade no mercado de trabalho, segundo a OCDE. (1)
A decisão do grupo Luz Saúde de instalar no Hospital do Mar este novo internamento dedicado à saúde mental teve precisamente como base o facto de esta unidade hospitalar somar quase duas décadas de atividade em múltiplas áreas, como geriatria, cuidados paliativos, demências e reabilitação, com uma unidade dedicada ao Acidente Vascular Cerebral (AVC) e outra à reabilitação ortopédica traumatológica. A equipa de psiquiatria tem, assim, acesso a uma estrutura já oleada e com resposta complementar em áreas como a psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala, estimulação cognitiva, entre outras possibilidades que permitem que o doente tenha uma experiência mais completa e que pode contribuir para uma alta mais rápida e mais segura.
A medicina geral e familiar e a medicina interna são também uma presença constante no Hospital, o que se torna num grande benefício adicional para os doentes da nova unidade de psiquiatria, onde as comorbilidades podem ser frequentes, explica Helena Bárrios. Desta forma, sempre que um doente internado tem outras doenças associadas é possível manter o acompanhamento com o apoio da medicina geral e familiar e da medicina interna. Se, durante o internamento, surgir também uma situação física, esta equipa apoia na estabilização, evitando deslocações desnecessárias dos doentes para outras unidades hospitalares.
Helena Bárrios considera que o papel da medicina geral e familiar e da medicina interna começa antes do internamento, quando o médico assistente identifica alguma alteração psiquiátrica no doente que acompanha, podendo referenciá-lo para um colega da psiquiatria. “O internamento pode ser um momento difícil tanto para o doente como para a família. O médico de família, que acompanha o doente nos vários ciclos de vida, pode ter um papel muito importante nesta ligação, quando a continuação dos cuidados já não passa pelo ambulatório.”, explica a diretora clínica adjunta.
A internista adianta que tanto a medicina interna como a medicina geral e familiar trabalham em equipa com a psiquiatria, procurando encontrar a melhor solução para cada pessoa. Na área da saúde mental é muito frequente os doentes terem outras doenças crónicas, pelo que a gestão combinada da medicação é central. “Os doentes psiquiátricos podem ter medicação que tem muita interferência entre si e com outros medicamentos. Nós podemos ajudar nessa revisão dos medicamentos e perceber o que pode interferir e apoiar nas melhores escolhas”, frisa Joana Goulão.
11,8%
Carga global das doenças em Portugal que é atribuída às perturbações mentais e do comportamento, um valor que supera as doenças oncológicas (10,4%) e que apenas é ultrapassado pelas doenças cérebro-cardiovasculares (13,7%) (2)
Consumo de psicofármacos
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O consumo de psicofármacos em Portugal é mais elevado do que na maioria dos outros países da UE. Este crescimento acelerou nos últimos anos, resultando num aumento de 45 % entre 2017 e 2022, indica a OCDE.1
“Internar um doente numa unidade de doentes psiquiátricos é importante para resolvermos aquele problema específico, mas podem existir outros problemas e comorbilidades que precisam de continuar a ser acompanhados. Com o apoio que temos da medicina interna e da medicina geral e familiar é possível gerir as várias coisas em simultâneo e isso dá muita tranquilidade aos doentes e famílias”, corrobora Helena Bárrios. Ou, como diria o Principezinho, é esta dedicação de todos que cativa quem passa pelo Hospital do Mar, desde profissionais, a doentes ou familiares.
Rodrigo Cabrita
“Não é possível tipificar o doente com sintomas psiquiátricos agudos. Há pessoas jovens, assim como há pessoas mais velhas. Hoje, a medicina dá-nos a capacidade de tratar várias doenças e isso felizmente aqui também é possível”, reforça. “Sempre que os colegas da psiquiatria sentem necessidade chamam-nos, seja logo no início ou ao longo do internamento. Trabalhamos em complementaridade”, diz a diretora clínica adjunta, que está muito satisfeita com a evolução que o Hospital do Mar tem tido, reinventando-se e apoiando cada vez mais patologias. “Fomos acolhendo vários desafios e crescendo enquanto equipa”, destaca, salientando que, no caso particular da saúde mental, o gestor do caso é o psiquiatra e não o médico de medicina geral e familiar ou de medicina interna, “o que é também um posicionamento diferente em relação aos outros serviços que já tínhamos no Hospital do Mar”.
Quanto ao balanço do funcionamento do novo serviço, Joana Goulão assegura que tudo tem decorrido com grande tranquilidade, até porque outras patologias presentes no Hospital do Mar também estavam associadas a alguma sintomatologia semelhante aos casos da psiquiatria, pelo que a equipa estava já preparada para responder da melhor forma. A internista destaca ainda as excelentes condições que o Hospital do Mar reúne em termos de infraestrutura, num local perto da cidade, mas longe da confusão, rodeado de jardins que também foram cuidadosamente pensados para cumprir uma missão terapêutica. “Este espaço é uma grande mais-valia para um doente com patologia psiquiátrica. Aqui não se encontra aquela imagem do pijama em todo o hospital”, reforça.
Rodrigo Cabrita
“No Hospital do Mar não se sente o estigma. O doente é um doente que partilha muitas outras áreas do hospital e não fica restrito à área da psiquiatria. Partilha outras terapias, sai e frequenta a cafetaria e outros espaços comuns. Na interação connosco é um doente do hospital e não um doente de uma unidade ou de outra. É um doente de todo o hospital, não há estigma”, concorda Helena Bárrios.
Joana Goulão reforça a importância de se lutar contra o estigma. Em contexto de urgência foi chamada para ver uma doente psiquiátrica com uma descompensação respiratória grave – uma situação em que por vezes é difícil distinguir uma causa orgânica ou se é a patologia psiquiátrica que está a gerar o quadro. Não desvalorizou a situação e a doente teve o acompanhamento adequado. Também já detetaram situações em que um tumor cerebral estava, afinal, na origem da situação psiquiátrica.
Desafiadas a definirem a sua profissão e a nova unidade, Helena Bárrios considera que o médico de família é “presença, apoio e continuidade”. Já Joana Goulão considera que o internista representa “gestão, multidisciplinaridade” e brinca escolhendo “Dr. House” para completar as três palavras, em referência à especialidade e posicionamento transversal do protagonista da série televisiva com o mesmo nome. Já a nova Unidade de Internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar é “desafio, motivação e integração” para Helena Bárrios, com Joana Goulão a fechar este exercício com “desafio, hospitalidade e responsabilidade”. Bem-vindos ao Hospital do Mar, pronto para continuar a cativar e a criar laços, agora na saúde mental.
Fontes utilizadas
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1 – OECD/European Observatory on Health Systems and Policies (2023). Portugal:
Perfil de saúde do país 2023, State of Health in the EU. OECD Publishing,
Paris/European Observatory on Health Systems and Policies, Brussels. ISBN
9789264362321
2 – Direção-Geral da Saúde/Direção de Serviços de Informação e Análise (2014).
Portugal: Saúde Mental em números – 2014. Portugal. ISSN: 2183-0665
Este texto faz parte do conjunto de reportagens “Por detrás dos cuidados”, no âmbito do projeto “Redes Mentais”.