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Na Sala Oval, numa reunião em maio de 2017, o Presidente norte-americano, Donald Trump, cometeu uma inconfidência que gerou muita apreensão nos serviços secretos dos Estados Unidos da América (EUA). Num encontro com dirigentes russos, um dos quais o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, o líder norte-americano revelou informações confidenciais sobre o autoproclamado Estado Islâmico. O assunto partilhado com o chefe de diplomacia russa e um dos principais braços direitos de Vladimir Putin era tão sensível que nem sequer tinha sido partilhado com os aliados de Washington.
A Casa Branca negou que Donald Trump tivesse partilhado informações confidenciais com os russos. Em 2019, teve, no entanto, mais dificuldades em dar explicações sobre uma fotografia confidencial que foi tirada por um satélite espião no local do lançamento de mísseis no Irão — e que acabou por ser publicada pelo Presidente norte-americano nas redes sociais. Os serviços secretos dos EUA demonstraram novamente a sua inquietude com a forma como o Presidente lidava com tópicos sensíveis.
The United States of America was not involved in the catastrophic accident during final launch preparations for the Safir SLV Launch at Semnan Launch Site One in Iran. I wish Iran best wishes and good luck in determining what happened at Site One. pic.twitter.com/z0iDj2L0Y3
— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) August 30, 2019
No seu regresso à presidência, esse estado de desconforto toma agora conta dos aliados dos EUA. Vários países estão a repensar de que forma como vão continuar a partilhar informações confidenciais com os norte-americanos. Não só por causa do historial de Donald Trump (que levou, após terminar o primeiro mandato, caixas de documentos confidenciais para a sua mansão na Florida, o que motivou buscas do FBI), mas também pela sua aproximação recente à Rússia.
Há ainda outra agravante pelo meio. Poucos países europeus confiam na diretora dos serviços secretos do Presidente, Tulsi Gabbard. Ainda que o seu cargo seja mais de supervisão das 18 diferentes agências de informações dos Estados Unidos e não tanto operacional, a ex-democrata convertida numa das republicanas mais fiéis a Donald Trump demonstrou por várias vezes simpatia pelo regime russo — e faz declarações públicas que parecem inspiradas nas ideias da propaganda russa.
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Nas bastidores, os aliados dos EUA estão já a agir e a estudar como vão lidar com uma segunda administração Trump. Os outros quatro membros dos Five Eyes (uma aliança que serve para a troca de informações confidenciais que junta Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido além dos Estados Unidos) estão em alerta, tal como os 32 países que pertencem à NATO, uma aliança militar que também tem uma forte componente de recolha e troca de informações confidenciais.
▲ Aliados da NATO temem partilhar informações com os EUA
TOMS KALNINS/EPA
Em declarações ao Observador, um ex-analista dos serviços secretos norte-americanos preconiza que serão “tempos turbulentos” nas relações dos serviços de informações norte-americanos com os aliados, dando um exemplo: Donald Trump “já deixou de partilhar informações com a Ucrânia”. “Pode haver outras ordens que ainda não foram publicamente anunciadas. Entendo que os amigos dos norte-americanos e aliados se estejam a perguntar se poderá haver outras surpresas.”
“Imprevisibilidade” e “potencial de uso indevido de informação”: o que temem os aliados dos EUA
A notícia começou por sair nos meios de comunicação social. O governo da Noruega, país que faz parte da NATO, estaria com receio de que Donald Trump pudesse divulgar informações confidenciais do país aos russos, um adversário direto de Oslo na região do Ártico. Até ao momento, segundo referiram os jornais noruegueses, até havia a suspeita de que — intencionalmente ou não — os EUA já tivessem revelado pormenores comprometedores à Rússia.
Os Serviços de Informações Noruegueses vieram a público rejeitar esta tese. O líder das secretas, Nils Andreas Stensønes, não confirmou o teor das “alegações” que saíram nos jornais. “Não têm qualquer base na realidade. A Noruega tem uma cooperação boa e sólida com os Estados Unidos”, garantiu. Mesmo que a história até tenha sido extrapolada, certo é que vários especialistas acreditam que tem havido uma certa contenção entre os aliados na troca de dados entre si.
Em declarações ao Observador, Chris J. Dolan, professor em Segurança Nacional e Políticas Públicas na Universidade Estadual da Pensilvânia, realça que “haverá um maior grau de seletividade e de desconfiança” na troca de informações confidenciais com os Estados Unidos nos próximos anos. E explica os motivos: “Isso deve-se a uma maior imprevisibilidade nas políticas e ao potencial de uso indevido de informação”.
Também ao Observador, o ex-analista dos serviços de informações norte-americanos lembra que as relações entre os EUA, os Five Eyes e “alguns serviços europeus” sempre “foram bastante próximas”. “Obviamente que nem tudo era partilhado, mas muito era. Tensões circunstanciais entre líderes políticos afetavam pouco a relação entre quem trabalhava nas secretas — esses laços tinham uma influência que trazia uma certa tranquilidade às relações”, prossegue.
Contudo, o ex-analista questiona se é “razoável” questionar se “esse padrão não se alterou”, tendo em conta “as mudanças drásticas nas políticas norte-americanas que Trump já anunciou em áreas significativas”. Os nomes escolhidos para certos cargos, a aproximação à Rússia e alguns despedimentos em agências como a CIA são alguns fatores que podem indiciar uma mudança de paradigma profunda em apenas um mês e meio.
▲ Medidas que Donald Trump tomou podem prever uma mudança nas relações das secretas norte-americanas com as internacionais
CHRIS KLEPONIS / POOL/EPA
Menos informações e conversas bilaterais. Como as secretas aliadas dos EUA se estão a preparar para a administração Trump
Perante essa alteração, um antigo responsável da NATO disse ao jornal Politico que a troca de informações confidenciais está a ganhar novos contornos — em vez de ocorrer em reuniões de 32 Estados-membros na Aliança Atlântica, há mais conversas bilaterais entre os países. Este último formato já acontecia antes de Donald Trump regressar à Casa Branca — muito por conta da desconfiança face à Hungria e as suas ligações ao Kremlin —, mas é cada vez mais comum.
Para além disso, segundo a NBC, as secretas europeias e os outros quatro membros dos Five Eyes estão a ponderar limitar as informações que concedem aos Estados Unidos. Por causa da aproximação de Donald Trump a Moscovo, tanto Israel como a Arábia Saudita (rivais do Irão, que é aliado da Rússia) também estão a repensar a sua abordagem. Uma fonte ocidental revelou à estação de televisão que está a haver “uma discussão séria sobre que informação pode ser partilhada com os Estados Unidos”.
A revista Atlantic também apurou que existe essa intenção de diminuir as informações concedidas aos norte-americanos. Porém, realça que não seria um corte total, uma vez que, como escreve a revista, “os países estrangeiros dependem demasiado dos detalhes que os Estados Unidos lhes providenciam”. Mas, além desta restrição, há outras formas de assegurar que os dados não caem nas mãos erradas.
▲ Reuniões conjuntas da NATO são cada vez menos uma forma de divulgar informações confidenciais
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Neste sentido, a Atlantic assinala também que os agentes estrangeiros estão a pensar apenas comunicar verbalmente o que descobriram em embaixadas, de modo a que a administração Trump não tenha acesso aos documentos confidenciais. E podem pedir aos agentes norte-americanos para não comunicar pormenores comprometedores a líderes políticos — e deixarem apenas as informações a circular nas secretas.
Independentemente deste clima de suspeição, Michael J. Ard, docente na Universidade Johns Hopkins na área dos serviços secretos, defende ao Observador que os aliados dos Estados Unidos “vão continuar a cooperar” na troca de informações confidenciais com os EUA. “Eles beneficiam demasiado dessa relação”, aponta o especialista, acrescentando que é “especialmente verdade entre os países dos Five Eyes, uma aliança que [para os norte-americanos] precede a NATO”.
Numa resposta enviada ao Politico, a porta-voz da CIA, Liz Lyons, rejeita que exista “credibilidade” nas alegações de que os parceiros estrangeiros estão a evitar partilhar informações com os EUA. “O diretor [John] Ratcliffe está ativamente a aprofundar [as parcerias internacionais de partilha de informações] para aumentar a segurança nacional dos EUA, combater os adversários em todo o mundo e promover a estabilidade internacional.”
▲ Secretário da Defesa norte-americano Pete Hegseth
OLIVIER HOSLET/EPA
Foco vai estar mais na relação entre agentes — e não tanto na confiança em governos estrangeiros
Embora este início de segundo mandato esteja a ser mais intenso e o Presidente estar rodeado de aliados bastante leiais que raramente o contestam, há uma figura que tranquiliza os aliados: a do atual diretor da CIA, John Ratcliffe, que foi diretor dos serviços secretos na primeira administração Trump. Tanto assim que vinte senadores democratas votaram a favor da sua nomeação para o cargo.
Os aliados dos EUA deverão, por isso, favorecer a relação com John Ratcliffe e evitar lidar com Tulsi Gabbard, a diretora dos serviços secretos, cuja nomeação do Senado foi rejeitada por todos os democratas e até por um republicano — o antigo líder dos republicanos no Senado Mitch McConell. Simultaneamente, existe sempre a relação entre os membros das secretas e a forma como estes trabalham. Dito doutro modo, mesmo que politicamente tenha havido uma alteração profunda, há agentes que tentam manter a sua missão fora do âmbito político.
Chris J. Dolan explica que, apesar da retórica política, a “nível operacional dos profissionais das secretas, a procura por informações confidenciais em tempo real para apoiar a preparação e prontidão provavelmente não sofrerá alterações”. “Imagino que vá haver uma dinâmica entre os líderes políticos e as suas agendas políticas; e haverá outra dinâmica em que a partilha de informações vai continuar com menos interrupções”, destaca.
▲ John Ratcliffe, atual diretor da CIA
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Ao Observador, o ex-analista dos serviços de informações que pediu para não ser identificado concorda com este ponto: “Os profissionais de velha guarda vão querer continuar as relações tradicionais”, afirma, ressalvando, contudo, que mesmo os agentes secretos menos suscetíveis a pressões políticas “trabalham para líderes políticos, que lhes podem dar ordens novas e diferentes” do que acontecia no passado.
Expulsar Canadá dos Five Eyes e cortar relações. Que repercussões pode haver da falta de confiança?
Atualmente, em termos geopolíticos, verifica-se uma alta tensão política entre o Canadá e os Estados Unidos. Donald Trump já fez várias publicações nas redes sociais em que designa o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, como o “51.º governador” e já sugeriu que poderia “anexar” o país vizinho, planeando impor sanções económicas para levar ao que acredita ser a “rendição” do governo canadiano — que, nesta lógica, não tinha outra alternativa a não ser pedir para integrar os EUA.
Neste contexto conturbado marcado pela troca de farpas entre Otava e Washington, o Financial Times noticiou, no final de fevereiro, que o conselheiro da presidência norte-americana, Peter Navarro, terá sugerido a Donald Trump expulsar o Canadá da aliança Five Eyes, não se sabendo se o Presidente norte-americano terá acolhido ou não a ideia. A concretizar-se, seria mais uma forma de pressionar o Canadá a aceitar a integração nos Estados Unidos, ficando o país sem acesso a uma das suas principais fontes de informações confidenciais.
▲ Relação entre Trudeau e Trump está cada vez tensa
OLIVIER HOSLET/EPA
Peter Navarro desmentiu ter sugerido esse cenário ao Presidente. “É uma loucura. Nós nunca colocaríamos em risco a nossa segurança nacional com aliados como o Canadá”, assegurou o conselheiro. Os riscos de expulsar os canadianos da Five Eyes seriam demasiado elevados, mesmo que Otava seja um dos que menos contribui a par da Nova Zelândia. Um membro da aliança referiu ao Financial Times que os EUA “precisam de todos os parceiros” perante o “nível de ameaças que enfrenta o país”.
Mesmo diante de ameaças para os EUA, o Presidente norte-americano pode alterar profundamente o funcionamento dos serviços secretos. O primeiro mandato ficou, aliás, marcado por uma permanente tensão pela alegada interferência russa nas eleições presidenciais de 2016. No cenário mais extremo, para Michael J. Ard, o “elemento mais disruptivo” que a administração Trump pode levar a cabo é “corte ou fim” de todas as relações privilegiadas na troca de informações confidenciais.
“Isso parece ser inverosímil”, enfatiza Michael J. Ard, acreditando que Donald Trump continua a considerar estas alianças de troca de informações — principalmente entre os Five Eyes — benéficas, devido “à rivalidade com a China” neste âmbito. Por exemplo, a Austrália desempenha um papel fundamental para os EUA obterem dados sobre o que se passa em território chinês.
Mesmo num cenário menos catastrofista, em que se mantém alguma desconfiança nos próximos quatro anos, “um relacionamento mais turbulento significa a diminuição da eficácia da cooperação” entre os EUA e os aliados, assinala Chris J. Dolan, que aponta para as possíveis repercussões.
“Menos partilha de informação que gera problemas durante as avaliações de risco; esforços duplicados, uma vez que os aliados se tornam menos dependentes das informações dos EUA; um enfraquecimento da rede multilateral de serviços de informações, tornando mais difícil combater ameaças transnacionais; uma perda da confiança, que é difícil de voltar a ganhar mesmo depois de uma mudança da administração; a possibilidade de certos países procurarem informações em outras fontes, como em nações rivais”, enumera Chris J. Dolan.
Todas estas consequências podem afetar os Estados Unidos e a sua posição de dianteira na comunidade internacional, beneficiando, por sua vez, rivais como a China ou a Rússia. Por agora, os cenários mais extremos ainda estão muito longe de se concretizar, mas os aliados norte-americanos já se estão a preparar para a possibilidade de Donald Trump desejar alterar profundamente as relações das secretas norte-americanas, que se mantinham mais ou menos inalteradas desde o final da Segunda Guerra Mundial.