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Alexandre Santos e Miguel Aguiar são os novos rostos da liderança da Startup Portugal, a entidade, de utilidade pública, que tem como objetivo fazer crescer o empreendedorismo em Portugal e trabalhar na projeção internacional do setor.
A cúpula de liderança foi mudada em setembro, após a saída de António Dias Martins, até então diretor executivo da associação. Alexandre Santos assumiu as funções de presidente, enquanto Miguel Aguiar as de diretor executivo da entidade. A estes responsáveis ainda se juntam Filipe Alves, head of equity do Banco Português de Fomento, e José Antão, responsável de políticas de inovação da Agência Nacional de Inovação (ANI).
O presidente e o diretor executivo têm uma ligação já longa ao mundo das startups. Alexandre Santos é business angel — um investidor individual que dá apoio financeiro a empresas que estão a dar os primeiros passos — e liderou a área de investimentos da então Sonae IM, agora Bright Pixel Capital. Desde maio de 2021, é fundador e general partner da Chamaeleon, uma capital de risco focada em investimentos nos EUA e Europa, que participa em rondas seed ou série A. Já Miguel Aguiar conta com uma experiência de mais de duas décadas no setor privado, tendo liderado projetos de transformação digital e inovação na consultora PwC, na Portugal Telecom, na Nos e na CUF. Entre abril de 2024 e agosto de 2025, foi adjunto do secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira.
Em entrevista ao Observador, nos escritórios da Startup Portugal instalados à beira do rio Tejo, no Parque das Nações, os dois responsáveis descrevem o mundo do empreendedorismo português como “vibrante”, mas ainda com margem para crescimento. “Um dos objetivos [da direção] é ajudar na internacionalização das nossas startups, ajudar a que as startups que estão cá consigam crescer e a tornarem-se os próximos unicórnios”, diz Miguel Aguiar.
Nos escritórios, há uma sala repleta de informação sobre os trabalhos ligados à execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com acesso vedado e longe de olhares indiscretos. A Startup Portugal revela que já estão definidas “cerca de 70% das verbas” dos apoios financeiros que vão para startups. A Startup Portugal está envolvida nos trabalhos de dois apoios financeiros do PRR: os vouchers para startups, com apoios de 30 mil euros por beneficiário, e os vales para incubadoras, com apoios que podem variar entre 30 mil e 150 mil euros.
E, em relação às queixas dos fundadores de startups sobre a demora na chegada dos apoios, admitem que gostariam de “conseguir ser muito mais céleres”, mas explicam-se os atrasos pela necessidade de “cumprir uma série de burocracia e de critérios”, nomeadamente validações e certificações que adicionam alguma demora ao processo. “A relação com entidades públicas, infelizmente, nunca é assim tão rápida quanto desejaríamos, mas estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para que esse processo seja o mais acelerado possível”, assume Miguel Aguiar.
Os dois responsáveis acreditam que há margem para o setor crescer a nível internacional, em particular se houver uma abordagem diferente por parte do velho continente. “A Europa tem um problema, tem ficado para trás quando comparada com os EUA ou a própria China, no fomentar do empreendedorismo, no apostar na inovação, no desenvolvimento de novas tecnologias”, considera Alexandre Santos, presidente da Startup Portugal. Nesse sentido, a Europa tem de ser “muito mais agressiva, muito mais ativa e dar condições às startups”.
Startup Portugal tem “excelente relação com ecossistema”. “O nosso papel agora é conseguir que isso se multiplique”
Assumiram funções há cerca de um mês, já estão ambientados? O que é que encontraram quando chegaram a estes cargos?
Miguel Aguiar (MA): Já estamos ambientados porque o ritmo é muito intenso, se não estivéssemos é que seria estranho. Encontrámos uma equipa muito empenhada, dedicada, com capacidade de entrega, com muitas ideias e com uma excelente relação com o ecossistema. O nosso papel agora é conseguir que isso se multiplique ainda mais, que a Startup Portugal seja cada vez mais um polo agregador de todo o ecossistema. Quando falo de ecossistema não estou a falar só de startups — estou a falar também de VC [venture capital, capital de risco], investidores, academia, corporate [empresas], business angels, tudo aquilo que pode contribuir para a inovação, com tecnologia e com o desenvolvimento das startups a nível nacional. Mas também na projeção de Portugal a nível internacional de todo este ecossistema.
Já vamos mais em detalhe à projeção internacional, mas, em linhas gerais, como é que o ecossistema de empreendedorismo português é visto lá fora?
Alexandre Santos (AS): Recentemente tivemos um evento a nível europeu [Fórum S9+, a reunião dos países líderes de transformação digital na Europa] que organizámos e que juntou várias associações de startups de vários países europeus, que são muito similares à Startup Portugal, com associações mais ligadas ao mundo empresarial e também com [a participação] de vários governos europeus. Foi interessante ver o impacto que nós, Startup Portugal, já temos a nível europeu. Veem a Startup Portugal como um exemplo, a nível europeu, de uma organização que está a fazer o seu trabalho de casa, a cumprir a sua missão de levar as startups portuguesas para o mundo e também a representar os interesses das startups neste contexto europeu, em que há muita política económica, muita regulação e muitos temas que têm de ser discutidos de forma aberta para ver se aumentamos as condições de sucesso de uma startup no contexto europeu.
Durante muito tempo Portugal era “vendido” como tendo sol, bom tempo… Já nos conseguimos descolar desta imagem, ir mais além?
AS: Acho que sim, acho que já não precisamos falar mais do Sol, sinceramente.
MA: É um bom add-on…
AS: Sim, estamos em outubro e há sol, mas acho que já nos veem além destes temas que, ao início, eram muito usados como cartão de visita. Temos unicórnios que saíram de Portugal para o mundo, temos vários casos de sucesso, temos um número crescente de fundadores a chegar a fases mais avançadas no processo de crescimento, a levantarem rondas cada vez maiores, a estarem em vários países do mundo. Acho que já não é preciso falar tanto de que Portugal é a Califórnia da Europa e que tem boas condições, bom sol, boa qualidade de vida… Já vai muito para além disso. Aliás, nos últimos anos vemos muitas startups e empresas maiores a vir cá contratar muito talento. Há muita gente que está a trabalhar aqui, remotamente, para muitas empresas espalhadas pelo mundo. Isso também ajuda a elevar a imagem de Portugal.
MA: E que estão a criar polos de desenvolvimento cá em Portugal. Mesmo os unicórnios têm cá polos de desenvolvimento grandes, acho que isso é um reconhecimento da capacidade que temos de entregar resultados. A quantidade de engenheiros que Portugal tem, em comparação com muitos outros países do mundo, faz diferença. A nossa academia tem feito um trabalho espetacular a conseguir gerar talento. Temos de conseguir reter esse talento, chamar talento português que está lá fora e também talento estrangeiro. Fiz a nota de que o sol é um bom add-on, porque realmente ajuda bastante. É mais fácil chamar pessoas para cá com este sol e com este tempo do que para o norte da Europa, onde metade do ano é noite. Mas conseguindo conciliar isso com todas as qualidades que temos a nível académico, com as leis… O facto de Portugal ter uma lei para startups vem mudar muito o panorama, fomos pioneiros nesse aspeto. Traz vantagens para as empresas, para as startups e para os fundadores. Tem sido visto lá fora como ‘as startups em Portugal não são só a Web Summit’. Temos um ecossistema vibrante, que está a atrair talento e está a conseguir criar empresas.
Lei das Startups tem margem para melhoria, mas não é uma prioridade a curto prazo
Relativamente à lei das startups [promulgada em 2023, reconhecendo legalmente os critérios das startups]… ambos têm um contexto ligado ao setor antes de virem para a Startup Portugal. Como é que viam esta lei das startups antes destas funções? Qual era a vossa opinião?
AS: Foi uma pedrada no charco. Permitiu pela primeira vez distinguir claramente uma pequena e média empresa (PME) e uma microempresa de uma startup. Isso permite depois orientar um conjunto de medidas.
Foi um regime que pecou por chegar demasiado tarde? Ou chegou na altura certa?
AS: Se tivesse ocorrido mais cedo, tanto melhor. Mas, mesmo tendo ocorrido na altura em que ocorreu, deixou-nos um pouco como pioneiros a nível europeu. Já se consegue ter benefícios distintivos para as startups que não se conseguia ter antes, porque nem era formalmente reconhecida como tal. Permite agora também trabalharmos num caminho de acrescentar ao que já foi construído com o nascer desta lei. Porque agora podemos fazer muito mais iniciativas e tentar ter muito mais benefícios no futuro para as startups que estão registadas como tal — e que são diferentes de uma PME. A lei tem ‘n’ coisas que podem ser ainda melhoradas numa segunda versão.
Quando foi promulgada, o próprio Presidente da República já dizia que haveria necessidade de uma revisão. Acham que é a altura de uma revisão? Que medidas é que faria sentido incluir para as startups?
AS: Não vejo isso como urgente no curto prazo, mas acho a médio prazo faz sentido revermos.
Quão a médio prazo?
AS: Penso sempre nos próximos dois ou três meses como curto prazo. Se calhar daqui a um ano, ano e meio, fará sentido tentarmos rever, numa lógica de médio prazo. Mas acho que já se pode fazer muito com a lei que temos, já se pode dar muito valor às startups. Obviamente se conseguirmos melhorar algumas questões ligadas à fiscalidade.
Às stock options, por exemplo? [Instrumentos que permitem atribuir ações aos trabalhadores para complementar a remuneração.]
AS: Também. Já foi dado um grande passo, mas há coisas que podem ser melhoradas. Foi dado muito feedback, na altura em que a lei saiu, sobre algumas coisas que poderiam ter ficado um bocadinho melhores. Mas o que há permite fazer muita coisa e que antes era totalmente impossível. O benefício que já se dá às startups de poder atribuir stock options aos seus colaboradores-chave e não terem de pagar os impostos — que se calhar teriam em condições normais por terem uma quota-parte da empresa — já é materialmente um salto quântico. Obviamente ainda há coisas que dá para limar e melhorar, sem dúvida.
Que benefícios fiscais há nas stock options?
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A lei das startups determina que, desde que uma empresa cumpra as regras para ser legalmente reconhecida como uma startup, há um benefício fiscal para os trabalhadores com stock options.
Ficou definido que 50% do valor obtido pela venda de opções fica isento. É aplicada uma taxa de IRS de 28% ao restante, o que resulta numa taxa efetiva de 14%.
Foi apresentada recentemente a proposta do Orçamento do Estado (OE) para 2026, que não tem grandes medidas para as startups, há até poucas menções a startups. Como é que olham para esta proposta?
MA: Se me pergunta se gostava de ter mais [medidas], sim, mas ao mesmo tempo também dá alguma liberdade para fazer mais ao longo do ano. Porquê? Porque nem tudo tem que estar escrito no orçamento. Acho que o próprio Governo fez um esforço este ano por simplificar o orçamento e retirar as coisas que lá estavam antigamente e que não precisavam de estar. Acaba por dar alguma margem de manobra para sugestões novas, para novas ideias que vão surgindo ao longo do ano.
O (pouco) que traz a proposta de Orçamento de 2026 para as empresas
Já sugeriram algumas medidas ou propostas ao Governo?
MA: Há uma conversa constante entre o gabinete do senhor secretário de Estado da Economia e a Startup Portugal.
Como está essa relação?
MA: Acho que está como sempre esteve — com uma cordialidade e uma confiança mútua muito grande e que acho que se vai manter sempre, como qualquer outra organização que tem uma tutela. Neste caso, existe a definição de que a Startup Portugal é o braço direito do Governo para temas mais relacionados com empreendedorismo e com startups. E é esse o papel que fazemos e é esse o papel em que penso que o Governo nos vê. Parece-me que é muito positiva a relação.
Não há no OE medidas concretas para startups, mas há uma alteração do SIFIDE [sistema de incentivos fiscais à investigação e desenvolvimento empresarial] na componente indireta, mais concretamente. Como é que a Startup Portugal olha para esta proposta? Que impacto é que pode ter no ecossistema nacional?
AS: O SIFIDE indireto teve um papel importante nos últimos anos para pôr capital no terreno, para haver uma capacidade que nunca existiu de capital de risco para investir em empresas que estivessem a fazer desenvolvimento de I&D [investigação e desenvolvimento]. A forma como foi montado tem alguns aspetos que têm de ser melhorados e revistos — se calhar é isso que o Governo está a ponderar fazer.
O que é possível melhorar e rever?
AS: Posso entrar um pouco mais no detalhe do que pode ser melhorado, mas basicamente houve uma grande injeção de capital no mercado, num conjunto relativamente alargado de fundos, em que a forma como estavam definidas as regras de aplicação do capital no terreno limita um bocadinho a aplicação desse capital nas empresas. Tem que obedecer a um conjunto de regras que limitam o número de empresas-alvo. Há muito dinheiro que não está a chegar ao destino final, precisamente pela forma como foram delineados os primeiros SIFIDE indiretos. Tem que se rever um pouco a forma como isso pode ser aplicado no terreno para o capital chegar de uma forma mais eficaz às startups. Em termos gerais, é a grande questão que tem que ser resolvida. Mas que ajudou a criar uma capacidade muito acima da média de se poder investir em startups. Ajudou a investir em muitas startups que tinham muito mais dificuldade em atrair esse tipo de capital.
PRR. “Adoraríamos conseguir ser muito mais céleres do que somos”
Uma das prioridades que ficou definida quando foi anunciada esta nova direção é a execução do PRR, com fundos que têm de ser executados até junho de 2026. Como está o nível de execução dos programas do PRR que têm?
MA: Já estão definidas cerca de 70% das verbas e as startups que as irão receber. É feito por tranches, à medida que as startups cumpram com o que está determinado recebem parte das verbas. As startups já foram selecionadas e 70% do dinheiro está alocado. Quando falo de startups falo também das incubadoras. Boa parte do trabalho agora é conseguir garantir e ajudar as startups a que consigam implementar a ideia com as verbas que lhes foram alocadas. É esse trabalho que estamos a fazer agora, de conseguir que todas as verbas disponíveis sejam alocadas ao máximo de empresas e criar o máximo de impacto na economia.
Há dados sobre o montante que já chegou às empresas em cada um dos programas?
MA: Sim, já existe. [Já depois a entrevista a Startup Portugal indicou ao Observador que tem alocado e “em execução cerca de 59 milhões de euros”. Deste montante, “cerca de 42 milhões são relativamente ao programa do vouchers para startups e 17 milhões quanto ao programa dos vales para incubadoras.”] Nos vales para incubadoras o processo já está fechado. Nos vouchers para startups, ainda existe um montante e está a ser analisado o último aviso. Esperamos, nas próximas semanas, fechar tudo para conseguir ter o máximo de valor atribuído até ao fim de junho do ano que vem.
Vários fundadores de startups queixam-se da demora na chegada destes apoios. O que leva a esta demora: são os critérios, é uma questão de burocracia, da vossa própria estrutura?
MA: É um bocadinho de tudo. Adoraríamos conseguir ser muito mais céleres e conseguir fazer chegar às startups as verbas que lhes são alocadas o mais rápido possível. A questão é que temos de cumprir uma série de burocracia e de critérios que estão definidos, nomeadamente pela Comissão Europeia, e que necessitam de uma série de validações, de certificações que, depois de serem entregues pelas startups, têm que ser validadas e certificadas deste lado e que acabam por atrasar um bocadinho o processo. A relação com entidades públicas, infelizmente, nunca é tão rápida quanto desejaríamos, mas estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para que esse processo seja o mais acelerado possível. A equipa está muito empenhada, está a trabalhar a um ritmo bastante acelerado e contamos nas próximas semanas dar os resultados do último aviso.
Quando diz nas próximas semanas, será ainda a tempo da Web Summit, por exemplo? [A Web Summit Lisboa realiza-se de 10 a 13 de novembro.]
MA: Adoraria dizer que sim, o que lhe posso dizer é que estamos a fazer tudo para que isso aconteça, mas não posso garantir.
Já há resultados práticos deste financiamento? Há uma comissão para acompanhar como é que são investidos os fundos do PRR, mas do vosso lado também há um cuidado de ir analisando o que está a ser feito?
MA: Isso tem de ser feito, porque isso é um dos requisitos que temos e que também, obviamente, ocupa parte da equipa. Para atribuir as distintas tranches de cada um dos vouchers temos de assegurar que aquilo que foi inicialmente previsto está a ser cumprido. Nesse aspeto, estamos a conseguir ter uma noção de que — obviamente não é a 100%, nunca será — a grandíssima maioria dos vouchers que foram atribuídos estão a ser cumpridos dentro daquilo que foi inicialmente previsto. Acho que estamos a criar impacto na economia, estamos a injetar dinheiro na economia com valor e com diferenciação.
AS: E, para ser claro, isso é visto projeto a projeto. Cada projeto é avaliado individualmente, para saber se cumpriu todos os objetivos ou não.
▲ Alexandre Santos assume o cargo de presidente, enquanto Miguel Aguiar ocupa as funções de diretor executivo da associação de promoção do empreendedorismo português
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Fraudes com fundos do PRR são “número muito reduzido” entre “milhares de candidaturas”
Em março, o IAPMEI enviou para o Ministério Público suspeitas de fraudes ligadas a este programa. Como está esta situação?
MA: Essa situação foi identificada por nós, foi reportada ao IAPMEI e está agora, não sei se está no DCIAP [Departamento Central de Investigação e Ação Penal] ou na Polícia Judiciária. Está a ser investigada pelas autoridades competentes para averiguar. O que nós tivemos foram suspeitas e comunicámos essas suspeitas. O IAPMEI também achou que eram suspeitas e comunicou isso às autoridades competentes, que estão a avaliar o tema.
Há alguma ideia sobre de quantas startups estamos a falar?
MA: Não consigo dizer, até porque isso está a ser investigado e prefiro não entrar por esse caminho.
AS: Acho que é natural, quando há milhares de candidaturas, há sempre algumas que têm estas questões de fraude. E, portanto, foram essas que tiveram que ser reportadas. Estamos a falar sempre de um número muito reduzido em milhares de candidaturas.
Foi recentemente anunciado pelo Governo o programa Deep Tech, com um voucher de 750 mil euros. A seleção será feita pelo Banco de Fomento. Como é que veem este tipo de apoio? Esta área de deep tech é relevante para o ecossistema em Portugal?
AS: Esta iniciativa arrancou, precisamente, porque foi identificada uma falha de mercado, que é a de haver comparativamente menos capital disponível para projetos que têm um carácter mais deep tech, com mais desenvolvimento científico.
Que também são mais dispendiosos.
AS: Sim, mais intensivos a nível de capital. Portanto, a “bondade” desta iniciativa é precisamente essa: a de tentar identificar menos empresas, mas empresas que precisam de mais capital para singrar e terem sucesso. Daí também o cheque ser substancialmente superior [750 mil] — os outros tinham 30 mil euros por startup, no qual havia uma lógica mais de tentar disseminar, por milhares de startups, apoios que pudessem ajudar no projeto de cada uma. Aqui [no Deep Tech] estamos a falar em investir em muito menos, se calhar 20 startups, que podem ser campeãs nacionais no desenvolvimento de algo considerado deep tech e que poderá ter um impacto muito material — e também, esperemos nós, na identificação de futuros unicórnios portugueses.
Portugal está a tentar candidatar-se a uma gigafactory de inteligência artificial (IA). Portugal tem oportunidade?
MA: Diria que sim. O tema da gigafactory está a ser endereçado pelo Banco Português de Fomento. Aparentemente está com muito boa recetividade no mercado. Acho que é uma oportunidade para as empresas portuguesas, quando estiver operacional — se vier, esperamos que sim —, para pôr a funcionar ou testar modelos de inteligência artificial de uma forma, acredito eu, mais acessível e de uma forma muito rápida. Espera-se que a gigafactory venha a ter uma capacidade impressionante. Acredito que seja uma boa candidatura e espero que seja vencedora.
“Esperamos ter em breve mais unicórnios”. E a Farfetch? “É normal os unicórnios morrerem também”
É uma questão inevitável quando se fala de empreendedorismo. Quais são as vossas expectativas em relação a unicórnios em Portugal? Há alguma empresa que possa estar nessa rota?
AS: Tivemos um recentemente [a Tekever], que finalmente chegou ao estatuto de unicórnio [avaliação acima de mil milhões de dólares] e já era algo que estava escrito nas estrelas. Esperamos ter em breve mais unicórnios, algumas [empresas] que estão quase lá, que levantaram rondas relativamente relevantes nos últimos meses e que, se calhar, nos próximos tempos ainda vão anunciar rondas maiores. E que nos vão permitir dizer que temos não oito mas se calhar dez, onze, doze [unicórnios] num futuro próximo.
Também já tivemos casos de unicórnios que deixaram de o ser, a Farfetch, por exemplo. Que imagem é que deixou este caso da Farfetch a nível internacional? O que é que projetou do empreendedorismo português?
AS: Acontece. É normal unicórnios morrerem também.
Mas é uma questão de que não se fala tanto.
AS: Não, mas lá por ser unicórnio não quer dizer que…
É a máxima “uma vez unicórnio, unicórnio para sempre”?
AS: Exatamente. Aliás, há imensos estudos que dizem que as empresas no mundo duram muito menos anos.
MA: Crescem mais rápido.
AS: Sim, crescem mais rápido mas também duram menos anos. No caso da Farfetch, ela não morreu, foi depois comprada por outra empresa e foi integrada nessa empresa [a sul-coreana Coupang, uma empresa de comércio eletrónico]. Os Estados Unidos têm centenas de unicórnios, empresas cotadas na bolsa, que, de um dia para o outro, enfrentam dificuldades, ou morrem ou são compradas por outras.
Consideram que há algum paralelismo entre o que aconteceu no caso da Farfetch e o que aconteceu com a Unbabel? Que também foi comprada, depois de relatos de um investidor ter desistido de a financiar e de estar a enfrentar uma situação pouco animadora no mercado.
MA: O falhar faz parte do universo das startups. Se formos falar com os fundadores das maiores empresas americanas, poucos conseguiram vencer à primeira. Uma das maiores lições, quando se está a criar empresas, é mesmo o falhar — que faz parte. Falhar pode ser a muitos níveis, pode ser a nível de um investidor que não chegou, de uma ideia que veio cedo demais, do excesso de confiança que se teve. Acho que não há que ter medo de falar sobre falhar. Nos dois casos que referiu, foram razões diferentes e que são muito naturais. Tanto uma como outra acabaram por ser compradas, também lhes foi reconhecido o valor. Não foi propriamente uma empresa que desapareceu, como já aconteceu nos Estados Unidos.
No caso da Farfetch há a indicação de que terá sido desvalorizada com o valor a que foi comprada?
AS: Claro, mas sem querer entrar na análise de cada uma, ambas sofreram mudanças muito relevantes nos mercados em que operavam. Não quero dizer que não tenha havido razões internas que tenham levado ao facto de a empresa não ter conseguido dar a volta por cima com as mudanças nos mercados em que estavam. Mas o contexto foi esse. No caso da Unbabel, todos sabemos que a emergência da inteligência artificial (IA) generativa mudou materialmente o mercado em que operavam. Não conseguiram adaptar-se a uma grande mudança de mercado e tiveram de encontrar outro caminho. Cresceram até onde cresceram mas depois, por grandes alterações no mercado em que estavam, tiveram de encontrar uma outra solução para o futuro da empresa — que foi vender a terceiros por um valor muito inferior em termos de avaliação. Mas isso é o mercado a funcionar, não podemos achar que foi tudo mau. A Unbabel conseguiu fazer muita coisa bem até ao ponto a que chegou, tal como a Farfetch. O mais importante relevar é que muita gente que trabalhou na Unbabel e na Farfetch está agora a lançar startups. Porque aprenderam muita coisa relevante de como é trabalhar numa startup, de fazer uma startup crescer e evoluir.
A Unbabel tem “os dias contados”? O que se passa com a empresa que há muito ambiciona ser unicórnio
O próprio Vasco Pedro [co-fundador e CEO da Unbabel] vai continuar no setor.
AS: O Vasco Pedro [fundador da Unbabel] já está a lançar uma nova startup, o outro cofundador também, esperamos que tenham sucesso nessas novas startups. Há vários fundadores de novas startups que saíram da Farfetch. A economia tem muito do que se chama destruição criativa. Há empresas que morrem e nascem todos os dias. Faz parte da lei dura dos mercados. Mas no meio disso, se calhar, nasce mais inovação, mais oportunidades, mais negócios e mais startups. Termos tido a Farfetch a chegar até onde chegou tem de ser celebrado. Infelizmente, não durou muito tempo depois de estar em bolsa. Temos é de celebrar as próximas empresas que vão nascer com o que as pessoas que aprenderam na Farfetch.
MA: E não esquecer a Fundação José Neves, que fez muito bem ao país e fez muito boas ações paralelamente àquilo que foi a própria Farfetch. Esse sentido de dar de volta à sociedade é algo que também vamos querer promover e esperar que seja multiplicado por mais — unicórnios ou não. Que haja outros investidores e fundadores que também considerem fazer bem à sociedade.
▲ Os novos responsáveis da Startup Portugal defendem a necessidade de mais iniciativa da Europa para fazer crescer as startups europeias
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Europa tem de ser muito mais agressiva e muito mais ativa e dar condições às startups”
A direção anterior falou da necessidade de Portugal ter uma estratégia nacional de empreendedorismo. A União Europeia também tem estado empenhada numa estratégia própria. Faz sentido começarmos a estruturar este trabalho e tentar acompanhar o que está a ser feito na União Europeia?
AS: Isso já está a ser feito. Acabámos de ser proponentes a nível europeu de uma declaração com mais nove instituições — que têm um cariz muito similar ao da Startup Portugal — com um conjunto de medidas que devem ser tomadas para simplificar a vida de todos. A Europa tem um problema, tem ficado para trás quando comparada com os Estados Unidos e a própria China, no fomentar do empreendedorismo, na aposta na inovação, no desenvolvimento de novas tecnologias. A Europa tem de ser muito mais agressiva e muito mais ativa e dar condições às startups para trabalharem, num contexto europeu, num mercado único. Uma empresa que nasce em Portugal tem mais dificuldade em evoluir para Espanha ou França do que ir para os Estados Unidos, que é um mercado muito maior. Isso não faz sentido. Temos de dar condições a uma startup que nasce em qualquer parte da Europa de conseguir trabalhar o mercado europeu, um mercado de mais de 400 milhões de habitantes, de uma forma tão fácil como ir para os Estados Unidos. Não faz sentido termos tantas startups a procurar o mercado americano tão cedo e voltar à Europa só quando têm uma dimensão maior, altura em consegue cumprir o custo de compliance [conformidade] extra que a Europa exige.
Entra em jogo a crítica de que na Europa há demasiada regulação, muita burocracia? Isso ainda se justifica?
AS: Infelizmente, sim, é uma grande questão a nível europeu. Desde a crise de 2008, que regulamos, regulamos, regulamos. Ficámos tão assustados com a crise financeira que o número de normas, de regulamentos que uma empresa tem de seguir se multiplicou de uma forma incrível. Estamos a atrasar-nos, estamos a atar-nos. A regulação é importante para que toda a gente perceba com que regras é que todos trabalham, mas não pode atrasar o desenvolvimento do negócio e a inovação. Tem de facilitar, tem de ajudar. Há agora um grande esforço de simplificação que tem que ser feito a nível europeu, porque temos regulações em cima de regulações. Não faz sentido.
MA: É aquele velho tema de que os Estados Unidos criam, a China copia e a Europa regula. Voltando à pergunta anterior, Portugal, através da Startup Portugal, faz também parte da ESNA, a European Startup Nations Alliance, que tenta alinhar os países da União Europeia para estabelecer determinados parâmetros que nos permita estar à altura da concorrência internacional dos Estados Unidos, de Israel, da China, das grandes potências. Essa associação está baseada em Portugal. Obviamente Portugal está muito empenhado no sucesso da ESNA para que consiga trazer ainda mais valor para o ecossistema europeu.
Uma das associadas da Startup Portugal é a Agência Nacional de Inovação (ANI), que está a passar por mudanças. Está a ser feita também uma reorganização de organismos públicos. Chegar à Startup Portugal nesta altura, com tantas mudanças, gera-vos alguma preocupação?
MA: Faz parte. Se não forem desafios de fusões, são desafios de mercado, se não forem desafios de mercado, são regulatórios. Há sempre desafios. Temos de encarar isso com normalidade, com tranquilidade e conseguir ultrapassar. Relativamente ao desafio de que fala, não é propriamente um desafio. A relação tanto com a FCT [Fundação para a Ciência e Tecnologia, que vai ser extinta, surgindo uma nova entidade, a Agência de Investigação e Inovação] como com a própria ANI é excelente.
AS: Somos parceiros da ANI em várias coisas. O Tech Foundry [apoio de 750 mil euros para deep tech] é com a ANI e com o Banco de Fomento. Se tivéssemos medo de mudanças não trabalhávamos com startups. Mudanças e startups estão lado a lado, faz parte do dia a dia. Isso não nos assusta nada e estamos a trabalhar em rede com ‘n’ instituições. Não é só com a ANI, nem com a FCT, é com ‘n’ instituições. As instituições evoluem todos os dias e temos de nos adaptar a isso.
Já há perspetivas sobre o orçamento que a Startup Portugal vai ter no próximo ano? Alguma perspetiva de revisão em baixa?
AS: Ainda estamos a trabalhar no orçamento e enquanto não for aprovado na assembleia-geral que vamos ter no fim do ano não vamos divulgar. Estamos confiantes de que vamos ter um orçamento muito parecido com o que tivemos nos anos anteriores. Obviamente temos parte do orçamento que vem do PRR. Depois de 2026 isso vai ser revisto, porque o PRR acaba. Mas 2026 deve ser muito em linha com 2025.
Que foi de quanto?
AS: Isso agora teríamos que dividir o elefante às postas (risos). Mas temos vários componentes do orçamento. Temos o orçamento que vem do PRR propriamente dito, para financiar várias iniciativas que estão sob a nossa gestão. Depois temos o contrato de programa com o IAPMEI e depois temos outras fontes de receita também.
MA: Não vamos descrever qual é o valor, porque acho que nem traz grande mais-valia e, a ser revelado, deveria ser pelo gabinete.
Uma das atividades para as quais precisam de financiamento é para levar startups portuguesas a eventos internacionais. Há uns meses, o anterior responsável da Startup Portugal dizia ao Observador que havia uma lacuna e que havia vontade de ter presença em mercados como os Estados Unidos e a Ásia, onde não conseguem chegar e que precisam de preparação. Há algum esforço nesse sentido?
MA: Esse é um dos objetivos desta nova direção. Não só ajudar as empresas nacionais a irem lá para fora e a receber investimentos lá de fora, como também trazer para cá mentores e pessoas do ecossistema, fisicamente ou não. Um dos objetivos é ajudar na internacionalização das nossas startups, ajudar a que estas startups que cá estão consigam crescer e que se tornem nos próximos unicórnios. Para isso, estamos a planear reforçar as Business Abroad para os países-chave. Colocámos questões ao nosso ecossistema e foi dito que os EUA eram um país muito apetecível. Estamos a trabalhar para isso, mas também chegámos há pouco tempo. Ainda estamos a organizar a casa e a definir como vamos fazer tudo aquilo que queremos fazer.
Fala-se muito de incerteza geopolítica, isso alterou alguma das prioridades? Notam, mesmo por parte de mercados internacionais, alguma alteração?
AS: Não. Mais de metade do capital de risco que é investido em startups vem dos EUA; a Europa representa cerca de 22%; a Ásia-Pacífico 20 e pouco por cento e depois é o resto do mundo. Numa perspetiva de capital, levar as startups portuguesas para os EUA para atrair investimento internacional faz todo sentido, porque 50% do capital está lá. Numa perspetiva de desenvolvimento de negócio, os EUA são um dos maiores mercados do mundo. Depois, a Ásia é uma oportunidade que tem que ser mais trabalhada. A Ásia tem várias realidades, mas há mercados naturais muito grandes que ainda estão pouco explorados. Temos vindo a reforçar cada vez mais as ligações ao Médio Oriente — das áreas em maior crescimento e expansão no mundo das startups. Entre a Arábia Saudita, Dubai, Abu Dhabi há uma atividade crescente que vale a pena ser explorada pelas nossas próprias startups quer no desenvolvimento comercial quer na atração de algum capital.
Já há participação da Startup Portugal em eventos nessa região?
AS: Sim.
▲ "Temos tido relações muito boas com a Web Summit, já falámos com eles sobre a SIM e vêem o evento também com muito bons olhos. Se fosse uma concorrente direta não fariam isso", diz Miguel Aguiar
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Conferência SIM, no Porto, “não é concorrente da Web Summit”. “Antes pelo contrário”
A Web Summit ainda tem a mesma relevância que tinha no início? A Startup Portugal impulsiona a SIM (Startups & Investment Matching) no Porto: corre o risco de haver concorrência entre os eventos?
MA: Não, não, de todo, são eventos até complementares. A SIM no Porto está a crescer muito bem, com uma boa recetividade por parte de todos os intervenientes, mas são universos um bocadinho diferentes e foi isso que pretendemos fazer desde o início. O que estamos a fazer no Porto é uma relação de venture capital e pessoal, de um para um. A ideia da SIM não é crescer a tal ponto que as pessoas não se conhecem. É para ser relativamente contida no tamanho.
Mas isso também era a propósito da Web Summit quando surgiu na Irlanda, não era?
MA: Não sei se será. A ideia foi continuar a crescer. O que pretendemos [no Porto] é que haja uma relação de confiança entre VC. Vamos trazer mais empresas, porque há um potencial de ajuda das nossas startups para os desafios que as empresas têm e que podem ser ultrapassados com soluções criadas pelas startups. Vamos também promover uma maior troca de experiências por parte de VC e pôr VC a fazer reverse pitches [apresentações breves] para dizer o que é que gostavam de ver [no mercado], em que é que estão interessados. Acho que a SIM não é uma concorrente da Web Summit, antes pelo contrário. Temos tido relações muito boas com a Web Summit, já falámos com eles sobre a SIM e veem o evento com muito bons olhos. São dois momentos complementares e o facto de ser no Porto também tem uma importância para não ficar tudo centralizado em Lisboa. O empreendedorismo no Porto é muito forte e queremos também relevar isso. E pretendemos começar este ano a trazer uma camada de empresas que não são as típicas vinte maiores que já conhecem como é que funciona o mercado das startups, o ecossistema, que já têm as próprias capitais de risco ou têm áreas dedicadas para o empreendedorismo. Queremos trazer uma camada de empresas que habitualmente não estão nestes eventos.
Este ano o CEO da Cloudflare fez declarações inflamadas sobre a questão dos vistos, até com a ameaça de sair de Portugal. Vemos notícias sobre filas e demora no acesso a vistos. Como é que isso afeta?
MA: O tema dos vistos deve ser endereçado pela AIMA e pelo próprio Governo. O tema da Cloudflare foi um bocadinho um fait-diver. Foi uma situação que ocorreu porque a pessoa tem uma grande visibilidade e tem uma grande importância também pelas funções que exerce. Correu mal, manifestou, teve o seu momento de frustração — que também se percebe. Mas o negócio continua, a relação com a empresa continua e estamos a manter e a conseguir continuar a atrair empresas, talento e startups. Portanto não me parece que seja um tema o tweet da Cloudflare.