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Quando há uns anos andava a estudar e a escrever sobre a Revolução Cultural Chinesa, e as violentas e apocalípticas perseguições que se faziam a pobres diabos em cima de quem calhavam cair um rol de acusações falsas, era costume encontrar a acusação deste supremo pecado capital contra o comunismo chinês: ser-se espião de Chiang Kai-shek e do seu partido, o Kuomintang, ambos acantonados na ilha de Taiwan. Claro que eram efabulações, durante a Revolução Cultural não eram excessivamente picuinhas com a verdade das acusações que levavam os ditos pobres diabos às humilhações públicas, à prisão ou à morte.

Foi por isso com alguma diversão que percebi – quando estive em setembro em Taiwan a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros para um programa sobre igualdade de género e os esforços do governo nesta área – que afinal a paranoia maoista tinha alguma razão de ser. Não porque os pobres diabos fossem efetivamente espiões de Chiang Kai-shek, mas na verdade o Kuomintang (KMT), apesar de refugiado numa ilha do mar da China com menos de metade do tamanho de Portugal, durante décadas acalentou planos de voltar a conquistar a China continental e expulsar os usurpadores comunistas.

Uma boa descrição para a atual relação entre China e Taiwan é aquele estado de relação que tantos têm no Facebook: “É complicado”. Se desde os anos 50 do século XX que a economia de Taiwan, primeiro na agricultura e depois nos restantes setores, se liberalizou, cresceu e tornou a ilha num dos tigres asiáticos e uma campeã do crescimento económico mundial, enquanto a China permanecia no seu pesadelo maoista, paupérrima em comparação com a ilha-esconderijo do KMT, temendo uma reedição da história de David e Golias, em 2018 a situação é um tudo-nada diferente. David continua a prosperar, é 18º país exportador, mas Golias teve a reforma económica com Deng Xiaoping, é a maior economia mundial se contada em paridades do poder de compra e já não se sente assombrado pelo seu irmão insular.

Não só já ninguém na China teme uma invasão de Taiwan – e na ilha também já perderam a esperança de concretizar estes devaneios – como usa o seu poder de grande player mundial para pressionar os restantes países para isolarem os irredutíveis taiwanren (literalmente, pessoas de Taiwan). Em 2018 Beijing exigiu a todas as companhias aéreas que voam para a China que cessassem de se referir a Taiwan como a um país independente, passando em vez disso a apresentar as cidades da ilha como qualquer outra cidade chinesa. A presidência americana barafustou com esta exigência, mas todas as transportadoras aéreas cederam aos chineses. Os grandes clientes têm sempre razão, não é?

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