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A primeira vez que João (nome fictício) se cruzou com o professor de formação musical foi no 5.º ano. Queria trilhar caminho na música, por isso juntou-se ao Conservatório da Física de Torres Vedras. Anos depois, decidiu integrar o coro que este professor dirigia: o Vetera Vox, um grupo masculino composto por jovens com idades entre os 14 e os 30 anos. Foi a partir daí que a relação de João com o professor mudou: as formalidades caíram por terra, começaram a surgir mensagens “desconfortáveis” e, eventualmente, chegou um convite a pedir “companhia” para passar a noite. Segundo apurou o Observador, o Ministério Público abriu um inquérito, estando a decorrer uma investigação, e o maestro já foi constituído arguido.
No início deste ano letivo, por volta de setembro de 2024, João recebeu uma chamada da mãe. Estava a ligar-lhe porque a diretora pedagógica do Conservatório — onde, entretanto, tinha terminado os estudos — tinha uma informação para lhe dar. “Disse-me que a professora Susana Duarte a tinha informado de que uma pessoa queria falar comigo. Era uma inspetora da Polícia Judiciária. Combinei falar com ela e encontrámo-nos no posto da GNR de Torres Vedras, onde falámos sobre o caso e viram as minhas conversas com ele [o maestro]”, conta ao Observador.
O jovem está atualmente a frequentar o Ensino Superior, mas o seu caso remonta a um momento em que estava no 11.º ano (7.º grau do ensino da Música). De acordo com o Ministério Público, foi aberto um inquérito-crime, “o qual se encontra em investigação”. O Observador sabe ainda que a investigação teve início em 2024 e que o maestro em causa foi constituído arguido, sendo suspeito de importunação sexual. Além de João, o músico terá assediado pelo menos outros dois alunos, com idades compreendidas entre os 14 e 15 anos, sempre recorrendo à internet.
▲ João (nome fictício) tinha 15 anos quando entrou no coro Vetera Vox
Gamma-Rapho via Getty Images
“Terminava a conversa a dizer que gostava muito de mim e punha um coração vermelho”
João ingressou no coro em 2018, quando entrou no 8.º ano, e cerca de três anos depois foi pela primeira vez convidado para cantar na Sé de Évora com o Vetera Vox (que à época tinha como nome coro Luís António Maldonado Rodrigues). “Tinha 15 anos, quase a fazer os 16. E fui convidado para ir a Évora no final do ano, porque são as celebrações de São Pedro e São João, em junho, e nós vamos cantar à Sé”, lembra o jovem.
Até aí, “se calhar, até já tinha sido simpático demais fora das aulas, mas depois do convite, dizia-me para o tratar por ‘tu’, dizia que éramos amigos. E a partir do momento em que ele disse esse ‘somos amigos’, houve logo uma quebra na barreira.”
Depois de caírem as informalidades entre professor e aluno, seguiram-se as viagens entre o Conservatório de Torres Vedras e Évora, em virtude de ensaios e outras atuações que surgiam.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
“Fazíamos a viagem de comboio e, nessas viagens, eu ia ao lado dele. E comecei a perceber que ele estava sempre em cima de mim, que invadia o meu espaço. Eu estava no meu lugar e ele tocava-me na perna, e falava muito em cima de mim”, conta João. E logo ressalva que, nesse momento ainda com 15 anos, “não fez muita diferença”. “Na minha cabeça, na altura, isto era só o professor a ser simpático e a querer integrar-me no grupo.”
Sempre que o coro viajava até Évora para atuar na Sé, ficava alojado no Seminário Maior de Évora. “Num dos dias fiquei no mesmo quarto que ele, mas ele nunca fez nada. Cheguei a ajudá-lo num trabalho e tal, mas nunca fez nada, ele estava sempre a puxar pela amizade”, diz, apontando que, à época, este episódio contribuiu para que não estranhasse qualquer atitude do docente. O Observador questionou o Seminário de Évora sobre que protocolos são seguidos quando recebem grupos de crianças para dormir nas suas instalações, mas não obteve resposta.
A partir daqui, o maestro fez questão de não se afastar totalmente da vida de João: “Depois disto, começou a mandar-me mensagens todos os dias, a perguntar como estava e como tinha sido o meu dia. E terminava sempre a conversa a dizer que gostava muito de mim e punha um coração vermelho.” Nessa altura, lembra João, o maestro tinha 33 anos.
Já depois da celebração de São Pedro e São João, em Évora, o estudante do conservatório de Torres Vedras continuava a pertencer ao coro do seu professor. “Tínhamos ensaios e ele fazia questão de me dar boleias para casa, e não era algo que ficasse de caminho até à casa dele. Era sempre muito amigável”, lembra.
Nesse verão de 2022, João viajou até à Suíça com os escuteiros. “Punha fotografias e coisas no Instagram e ele fazia questão de responder a quase tudo e de dizer que eu era o mais bonito”, recorda. Pouco depois chegou o dia em que o estudante de música percebeu que o maestro tinha passado o limite.
“Preciso de companhia” e “podes sempre tirar a roupa”. As mensagens que ditaram um afastamento
“A 19 de junho aconteceu a situação que mais me impactou”, relata. Lembra-se bem do dia, tal como das mensagens trocadas — e às quais o Observador teve acesso. “Estávamos a falar por mensagem sobre o facto de as camas do seminário serem pequenas”, contextualiza.
A conversa segue: “Preferia dormir numa cama do seminário” do que estudar inglês, escrevia o maestro. Em resposta, João salientava o facto de serem “um forno”. “Podes sempre tirar roupa”, retorquia o professor, acrescentando emojis a piscar o olho com a língua de fora.
Eventualmente, o professor escreve que precisa de juntar “duas camas” sempre que dorme no seminário. “Portanto se partilhares quarto comigo uma semana, vais levar com umas pernas em cima”, acrescenta. Isto leva João a tentar terminar com o cenário: “Se calhar ou ia para o chão ou dormia na cadeira.”
A conversa decorre e poucos minutos depois o maestro informa que o trabalho que tinha pendente já estava terminado e escreve que ia dormir numa cama adequada ao seu tamanho. A acompanhar envia uma imagem de uma cama de casal com uma colcha branca e três almofadas.
“Se calhar ainda precisas de pôr aí outra cama igual atravessada”, tenta desconversar João. O maestro descarta a ideia salientando que tem as medidas necessárias e acrescenta: “Preciso é de companhia, João.” E seis minutos depois — ao não obter resposta — insiste: “Estou à tua espera.” “Fiquei sem saber o que dizer, fiquei boquiaberto”, recorda João.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Diretora do Conservatório de Torres Vedras recebeu queixa
A conversa ficou por aqui e o estudante de música percebeu que precisava de voltar a estabelecer limites: “Fui deixando de responder [às mensagens], voltei a tratá-lo por você e fui pondo fim a esta fachada de sermos amigos.”
O problema surgiu quando recomeçou o ano letivo, em setembro de 2022, e a postura do professor de coro e formação musical mudou. “Voltámos à escola e eu tinha ainda o 12.º ano (8.º grau do ensino da Música) para acabar. E no início foi ok, ainda estava tudo estável, até que o professor começou a implicar comigo. Percebi que era porque o tinha ‘mandado para trás’. E até ao final do ano foi sempre assim. Havia aulas em que não queria estar ali, não me sentia bem”, explica João.
Nesse ano, como consequência, o jovem acabou por baixar a nota: “Não foi ele que ma baixou, mas havia algumas coisas que eu não conseguia fazer bem porque ficava nervoso.” João baixou de cerca de 17 valores para 15 (conseguindo depois corrigir a queda com a prova final).
Quando esse ano terminou, por volta de junho de 2023, decidiu contar o que se estava a passar. “Achei por bem falar com a minha professora de piano, que era com quem me dava melhor, e ela disse-me para falar com a diretora pedagógica”, lembra João, referindo-se a Susana Duarte. “Expliquei-lhe a situação que vivi e disse-lhe o teor das mensagens. Eles [a direção] ficaram chocados.”
Questionada pelo Observador sobre quantas queixas tinha recebido (e em que altura) contra o maestro em causa, a ainda diretora pedagógica do Conservatório da Física de Torres Vedras avançou apenas algumas informações da relação contratual que a instituição manteve com o maestro: “O docente em causa lecionou neste estabelecimento de ensino, tendo saído no final do ano letivo de 2022/2023”, após 15 anos naquela instituição. Sem querer apresentar justificações para a saída do músico, o conservatório manifestou a sua “preocupação” e disse estar “em colaboração com as autoridades”.
A denúncia de João, no entanto, ficou por aqui: depois de falar com os pais e expor a situação à direção pedagógica, não apresentou queixa nas autoridades.
▲ O maestro recorria às redes sociais para falar com frequência com os menores
SOPA Images/LightRocket via Gett
João não foi o único caso
No dia em que deu o passo de falar com a direção do conservatório de Torres Vedras, João disse a Susana Duarte que sabia que “não era o único, que já tinha acontecido com mais pessoas”. “O professor pegava nos alunos do conservatório para os levar para o coro e era quase como se usasse o coro para depois abordar os alunos”, diz. A primeira vez que ficou a saber que não tinha sido o primeiro a passar por tal situação com este professor foi em 2022, numa das viagens que fez até Évora.
Nesse dia — não se recorda da data exata —, acabou por falar da situação com um dos colegas do coro. “Falei com o meu colega e ficámos aqui pela noite fora. Ele disse-me que lhe tinha acontecido o mesmo.” O colega em causa é Rafael (nome fictício). Conheceu o maestro quando tinha cerca de 13 anos (no 9.º ano): “Ele era professor de coro/maestro. E, na altura, comparado com os outros professores, era mais novo, parecia uma pessoa que podia ser amiga. Falava da mesma maneira que nós [alunos], era capaz de dizer alguns palavrões na aula, era acessível e parecia fácil criar ligação.”
Essa ligação, lembra Rafael, aumentou com a criação do coro. “Foi criado em 2016 e começou como uma coisa simples. O maestro tinha escrito uma peça, pediu a um grupo de oito rapazes para testar como soava, nós gostámos da experiência e o coro continuou.”
Eventualmente, chegou a primeira mensagem através do Messenger (no Facebook), sobre música e novas partituras. Daí, a conversa transitou para o Instagram e, de repente, era algo cada vez mais frequente. “Tinha 14 anos, na altura até achava que era bom este contacto porque ele estava próximo de nós”, diz. E recorda o dia em que o teor da conversa se alterou: “Era Carnaval em Torres Vedras e é comum nesses dias ir para a festa à noite. E não me lembro bem como a conversa nesse dia começou, mas ele começou a mandar-me mensagens impróprias.”
Rafael não se lembra do conteúdo (e é difícil esclarecer todas as dúvidas porque, entretanto, perdeu o acesso à sua conta de Instagram), mas de uma coisa tem a certeza: “As mensagens deste teor continuavam. Uma dessas vezes, por exemplo, sugeriu que lhe fizesse companhia enquanto estava sozinho. A mensagem não era um convite direto, mas sim algo do género: ‘Estou aqui tão sozinho na cama, quem me dera que viesses cá‘. Não respondi e fui continuando a fazer isso.”
Questionado sobre se pensou, em algum momento, fazer queixa, o jovem nega: “Só falei disto com o João. Ainda pensei nisso, mas até ao momento em que o João falou comigo pensei sempre que o que me tinha acontecido, apesar de ser desconfortável, não era crime.” Optou, no entanto, por desconversar sempre que as mensagens tomavam um caminho “inapropriado”. Mas não se afastou por completo: “Na altura, no 9.º ano, ele era a única pessoa que eu conhecia que era gay. E nessa fase da minha vida eu tinha muitas perguntas e aproveitava e fazia muitas perguntas sobre isso. E isto contribuiu para eu não parar de falar com ele.”
“Vi o mesmo padrão” com outro colega
Tal como aconteceu com João, foi uma questão de tempo até o maestro passar a agir de outra forma com Rafael: “Passou de ser meu amigo para ser uma pessoa que me rebaixava.” O jovem não consegue dizer se foi o facto de “lentamente ter deixado de responder” que potenciou essa atitude, mas afirma que a relação mudou completamente.
“Passámos a ter uma relação cada vez mais adversarial. Rebaixava-me e gozava comigo. Uma vez, um tenor foi dar uma master class [no coro] e lembro-me de ficar humilhado porque não consegui fazer algo”, começa por contar. “Sentir-me-ia humilhado só pelo facto de não conseguir fazer o que me era pedido, mas o pior foi ter o maestro a agravar a situação por cima. Senti-me humilhado. Lembro-me de ele estar a tentar minimizar o meu trabalho e de gozar por eu estar a stressar com o que estava a fazer. Foi até eu rebentar. Saí da master class e já não voltei”, lembra.
A ligação de Rafael com o coro (e o maestro) foi esfriando cada vez mais, até que eventualmente o jovem teve a oportunidade de sair do país por motivos profissionais e desde aí nunca mais se cruzou com o professor de música, diz.
Mas há mais, além de Rafael. Ainda em 2022, João diz que ficou “surpreendido” com o maestro porque, mesmo depois de se ter afastado do professor, foi “convidado novamente” para ir cantar na Semana Santa. “Éramos 5 ou 6 e, desta vez, já não fiquei sentado ao lado do professor no comboio por causa da atitude que ele tinha contra mim. Mas um outro colega meu foi sentado ao lado dele e foi aí que me apercebi: o maestro ia muito em cima dele, mexia muito as mãos e tocava-lhe na perna. Vi o mesmo padrão”, recorda.
Nessa noite, já no seminário, “quando estávamos a vir para os quartos, ficaram para trás três pessoas”: João, o maestro e o novo colega. O maestro perguntou se um deles queria ficar no quarto com ele e João aproveitou para agir: “Disse ao meu colega que ficávamos juntos, para jogar pelo seguro. Nessa noite falámos e contei-lhe o que tinha acontecido.” João não sabe o que aconteceu a partir daí com esse colega, tendo saído do coro poucos meses depois. Alegou que queria focar-se no estudo para os exames para poder concorrer ao Ensino Superior.
Na Academia de Óbidos, o maestro teve “sempre um comportamento irrepreensível”
Mesmo depois de o maestro natural de Torres Vedras ter deixado o Conservatório da Física, não deixou de trabalhar com menores de idade. O professor continuou a lecionar as disciplinas de Formação Musical e Classe de Conjunto no Coro na Academia de Música de Óbidos. Questionada pelo Observador, esta academia esclareceu que “o professor apresentou a sua rescisão contratual através de email a 12 de setembro de 2024, invocando motivos pessoais”.
E acrescentou que a direção “nunca teve conhecimento, informações ou denúncias relativas ao professor que pudessem comprometer a confiança depositada nele enquanto profissional”. “O professor demonstrou sempre um comportamento irrepreensível, caracterizando-se pelo profissionalismo, rigor e excelência no desempenho das suas funções”, remata a instituição.
É nesse mês que João é inesperadamente interrogado pela Polícia Judiciária e, pouco tempo depois, o maestro deixa de aparecer publicamente. João, por exemplo, admitiu estranhar a ausência de publicações na altura do Carnaval, tradição à qual o professor “sempre foi muito ligado”. E pessoas próximas ao maestro disseram ao Observador que julgavam que o mesmo estivesse fora do país. Nas redes sociais, o músico deixou também de fazer publicações em janeiro de 2025, contrariando o seu hábito de o fazer regularmente.
No que toca ao coro Vetera Vox, desde o aparente desaparecimento do maestro, o grupo atuou em maio, mas desta vez dirigido por António Geraldo, um maestro próximo do antecessor.
O Observador questionou o professor de música sobre este caso, quer por telefone quer por mensagem (sendo que o seu número habitual dava indicação de não estar atribuído). Também procurou chegar ao contacto através das contas do maestro nas redes sociais, mas a resposta acabou por surgir por email. O professor encaminhou o pedido de esclarecimentos para o seu advogado.
O Observador enviou, então, um conjunto de 10 questões sobre este caso ao advogado João Maia de Oliveira. Também por email, o representante legal do professor referiu que, “nesta fase, o processo encontra-se em segredo de justiça”, acrescentando uma nota: “Se desconhecia tal facto, fica desde já notificada para todos os efeitos legais.” O advogado acrescentava ainda que “é proibida a divulgação de informações sobre processos que se encontrem em segredo de justiça” e que “os meios de comunicação social não se encontram excecionados ao cumprimento da obrigação do respeito pelo segredo de justiça. Cfr. Art.º 86.º e 88.º do Código de Processo Penal.” João Maia de Oliveira não avançou qualquer esclarecimento sobre o caso que envolve o seu cliente.
*Todos os nomes usados neste artigo para fazer referência às alegadas vítimas são fictícios