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Eleito no final da década de 2010, foi Presidente durante quatro anos, mas falhou a reeleição para um candidato à sua esquerda. Alegou que tinha sido vítima de fraude eleitoral, os seus apoiantes invadiram a sede do poder legislativo e acabou acusado pela Justiça de ter tentado um golpe de Estado. A descrição pode aplicar-se a dois líderes do continente americano: Donald Trump e Jair Bolsonaro. Agora, Bolsonaro tenta repetir uma vez mais a fórmula de Trump: ver-se livre das acusações criminais que pairam sobre ele e conquistar um segundo mandato.
Nesse sentido, o antigo Presidente brasileiro iniciou junto do Presidente norte-americano uma campanha para conseguir o seu apoio na luta contra a justiça. Na segunda-feira, Bolsonaro viu os seus esforços recompensados, depois de Donald Trump ter recorrido às redes sociais para exigir o fim do julgamento, que considerou “uma caça às bruxas”. Dois dias depois, o chefe de Estado norte-americano repetiu a exigência, desta vez, numa carta dirigida ao atual Presidente. Porém, a carta enviada a Lula da Silva não continha apenas essa exigência: no mesmo texto, Trump anunciou a aplicação de taxas de 50% às importações brasileiras.
O líder dos Estados Unidos já tinha enviado cartas para negociar acordos comerciais mais favoráveis a Washington a outros chefes de Estado. Contudo, o texto dirigido a Brasília tinha um tom muito mais político que qualquer outro. No que toca ao Brasil, Trump não exige apenas novos termos nas relações comerciais entre os dois países, mas o fim do julgamento de Bolsonaro e ainda das regras impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a várias redes sociais norte-americanas.
As ameaças vindas da Casa Branca geraram duas reações muito distintas dentro do Brasil. Bolsonaro agradeceu ao “ilustre Presidente e amigo” por ser um “exemplo de fé e resiliência”, enquanto Lula da Silva firmou uma postura combativa e prometeu uma resposta “de acordo a Lei da Reciprocidade Económica do Brasil”. Segundo a CNN, a resposta de Lula foi a primeira vez que um país ameaçou responder na mesma moeda às tarifas impostas por Trump desde que este regressou à presidência. Pessoas próximas do Presidente brasileiro foram mais longe e mostraram-se confiantes de que um confronto com Trump pode acabar por ser positivo para Lula.
“Politicamente, isto foi um presente para o governo brasileiro, num momento em que a administração está na corda bamba. Isto pode ser um momento-chave, uma reviravolta na campanha no próximo ano”, avaliou um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros ao Washington Post. Vários analistas brasileiros partilham a opinião de que, se Lula jogar as suas cartas corretamente, poderá aproveitar as ameaças de Trump a seu favor nas urnas.
Mas outras leituras destacam as dificuldades que as tarifas irão, quase inevitavelmente, causar na economia brasileira, algo que o campo bolsonarista poderá utilizar a seu favor nas eleições de 2026. Em ambos os casos, a campanha eleitoral passa a depender de uma terceira pessoa, além dos dois candidatos. “Acho que foi Trump quem deu o pontapé inicial na campanha presidencial brasileira“, resume Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas, nas suas redes sociais.
Afinidades políticas e redes sociais: os interesses de Trump no Brasil
Em março de 2025, Eduardo Bolsonaro anunciou que tinha tirado uma licença do seu lugar no Congresso brasileiro e que estava a viver nos Estados Unidos, a partir de onde ia passar a trabalhar junto da administração norte-americana para que pedisse amnistia dos acusados pelo Ministério Público brasileiro de envolvimento na tentativa de golpe de Estado e aplicasse sanções a Alexandre de Moraes, juiz do STF e relator do processo. No mês seguinte, em entrevista ao Washington Post, Jair Bolsonaro admitiu que estava à espera de uma reação de Trump sobre o caso uma vez que ele é “muito mais poderoso”.
A tão desejada reação só chegou esta semana, mas o terceiro filho de Jair Bolsonaro não se escusou de colher os louros da sua persuasão junto da administração norte-americana. “A carta do Presidente dos Estados Unidos apenas confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade”, escreveu, num comunicado enviado aos media brasileiros.
▲ Bolsonaro e Trump têm uma "fórmula" política semelhante — e bem-sucedida
BRENDAN SMIALOWSKI/AFP via Getty Images
Nas mensagens deixadas esta quarta-feira nas respetivas redes sociais, Bolsonaro (pai) e Trump deixaram elogios mútuos e vincaram a “amizade” que os une e que remonta aos seus primeiros mandatos. Mas o interesse de ambos na sua relação atual parece ir muito além da amizade desinteressada.
O interesse de Bolsonaro é fácil de compreender. Tal como o próprio afirmou, Trump é “mais poderoso”, pelo que o seu pronunciamento sobre o julgamento tem mais peso. Ao mesmo tempo, Trump é a prova de que a “fórmula” que tem seguido é bem-sucedida. Foi por esse mesmo motivo que, em novembro do ano passado, antigos membros da administração bolsonarista celebraram a reeleição de Donald Trump: “Isso anima-nos no Brasil, quem acredita nestas políticas de ideário conservador, até porque mostra que há viabilidade eleitoral nela“, declarava à data Ernesto Araújo, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Bolsonaro.
Já o interesse de Donald Trump parece ter mais camadas. Lourival Sant’anna, jornalista e analista da CNN Brasil, considera que existe uma “afinidade muito grande” na esfera política e que o apoio a Bolsonaro permite ao chefe de Estado norte-americano apresentar-se como “um defensor da democracia” e dar “substância à sua causa”. Para além da questão ideológica, Sant’anna destaca ainda a importância das redes sociais. Isto porque a administração norte-americana as utiliza como palco para chegar aos eleitores.
Neste sentido, os bloqueios temporários no Brasil tanto do X de Elon Musk como da Truth Social de Donald Trump — ambos ordenados no passado por Alexandre de Moraes — não foram bem recebidos pelo Presidente, que classificou as medidas como “um ataque insidioso aos Direitos de Liberdade de Expressão Fundamentais dos Americanos” e ainda como “ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS”, na sua carta a Lula da Silva. Mas o interesse tem uma terceira camada, a mais visível na carta: os interesses económicos.
▲ Moraes é responsável pelo processo contra Bolsonaro e o bloqueio do X e da Truth Social no Brasil
AFP via Getty Images
O défice brasileiro que Trump quer “aproveitar” para “pressionar” Brasília
Uma principais traves-mestra da segunda administração Trump são as relações comerciais com a comunidade internacional, que procura moldar através da imposição de tarifas. Mas esta não é a primeira vez que o líder norte-americano recorre a esta ferramenta. No final de 2019, o então ainda Presidente anunciou um aumento das taxas de importação sobre o aço e alumínio brasileiros, para os 25%. À data, o Presidente brasileiro era o seu aliado Bolsonaro, mas a Casa Branca declarou que até “os parceiros têm de seguir as regras do jogo”.
Seis anos depois, a estratégia volta a ser mesma. Na carta a Lula, Trump declara que a relação comercial entre os dois países está “longe de ser recíproca”. A declaração é verdadeira, mas não na direção implicada por Donald Trump. Na verdade, o Brasil teve um défice de 6,8 mil milhões de dólares nas trocas comerciais com os Estados Unidos em 2024, segundo dados dos censos norte-americanos citados pela CNN. Na sua resposta, o chefe de Estado brasileiro acrescenta que as estatísticas dos EUA “mostram um excedente de 140 mil milhões de dólares no comércio de bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos”.
Este cenário leva alguns especialistas a declarar que Donald Trump se está meramente a aproveitar de uma questão económica favorável a Washington para pressionar o Brasil a ceder noutros aspetos — aliás, as ameaças ao Brasil tiveram como ponto de partida a mesma carta que foi enviada a outros Estados. “Trump não está fazendo tudo isso porque gosta de Bolsonaro, é uma questão geopolítica. Tem questões de fundo, económicas e está-se aproveitando disso: usar o caso Bolsonaro para pressionar o Brasil”, comentou o jornalista e cientista política Leonardo Sakamoto.
No entanto, é este mesmo cenário que leva alguns especialistas a recomendar uma “abordagem estratégica” para lidar com as ameaças de Trump. Neste campo, conta-se o antigo diretor do Banco Central do Brasil, Tony Volpon, que considerou que a situação é “injusta” para o Brasil, mas que a liderança brasileira não deve responder de “maneira emotiva”.
China a 34%, Brasil a 10%: tarifas de Trump não afetaram todos os países da mesma forma. Porquê?
“A melhor atitude seria não responder de maneira política às provocações feitas por Trump nessas questões e tentar procurar abrir uma conversa técnica, porque há nessa carta uma certa abertura à negociação se o Brasil quiser baixar algumas das tarifas aplicadas aos Estados Unidos”, argumentou, em declarações à CNN Brasil. A leitura parte do facto de que, antes de a administração Trump ter desencadeado uma guerra comercial, as tarifas impostas pelo Brasil às importações norte-americanas eram mais altas do que as tarifas de Washington aos produtos brasileiros. Porém, a primeira resposta de Lula parece indicar que Brasília irá fazer exatamente o contrário.
A resposta “nacionalista” a Trump que pode inverter a impopularidade de Lula
“Soberania, respeito e a defesa inabalável dos interesses do povo brasileiro são os valores que guiam a nossa relação com o mundo”. É assim que Lula da Silva termina a mensagem deixada esta quarta-feira nas redes sociais, em resposta à carta enviada por Donald Trump. A declaração faz eco de uma outra declaração, que o Presidente brasileiro fez na segunda-feira, quando afirmou que “o mundo mudou”. “Não queremos imperadores. Somos nações soberanas. Se ele pensa que pode impor tarifas, outros países também têm o direito de impor tarifas“, declarou no encerramento da cimeira dos BRICS, sem mencionar diretamente o homólogo norte-americano.
As declarações de Lula ao longo da semana parecem ditar o tom para a resistência brasileira à pressão económica de Trump. Porém, ainda que uma guerra comercial possa sair cara ao Brasil, o inverso pode acontecer à campanha de reeleição de Lula, apontam especialistas. No mês de junho, as sondagens mostravam uma queda da taxa de aprovação do Presidente para os 28%, ligeiramente do mínimo recorde que alcançou em fevereiro, de 24%. Já a taxa de brasileiros que desaprovam a presidência de Lula chegou aos 40%.
Apesar de ainda ser demasiado cedo para perceber o impacto da postura combativa de Lula nas sondagens, Stephen McFarland, antigo embaixador norte-americano em múltiplos países da América Latina, ressalva que, historicamente, intervenções e pressões estrangeiras, principalmente norte-americanas, estimulam um sentimento nacionalista na região. “Os brasileiros vão ficar extremamente ofendidos — será contraproducente para o que Trump está a tentar fazer comercialmente com o Brasil. Haverá uma reação nacionalista forte que, ironicamente, vai beneficiar Lula, porque será difícil para os oponentes de Lula aplaudirem alguém que está a tentar humilhar o Presidente brasileiro”, avaliou ao Politico.
▲ Lula já demonstrara a sua resistência a Trump na cimeira dos BRICS
ANDRE COELHO/EPA
A “ofensa” do povo brasileiro fez-se sentir em pouco tempo. Esta quinta-feira, o perfil de Donald Trump na rede social Instagram chegou a bloquear temporariamente os comentários às suas publicações depois de uma onda de comentários com emojis da bandeira do Brasil e críticas ao Presidente norte-americano. “Quem manda no Brasil somos nós!” e “Brasileiros têm uma regra, não lambemos botas dos americanos!”, pode ler-se entre as centenas de comentários em várias publicações.
Rafael Cortez, cientista político e consultor de risco político, também argumenta que fazer frente a Trump trará recompensas políticas, tomando como exemplo as eleições recentes na Austrália e no Canadá em que os partidos progressistas conseguiram recuperar de desvantagens nas sondagens através da construção de uma campanha anti-Trump. “Quem é adversário de Trump no plano local ganha quando Trump e os demais líderes conservadores se manifestam acerca de temas domésticos“, elabora, à BBC.
No entanto, Cortez reconhece que o efeito no Brasil poderá ser menos intenso, dada a polarização a que o país assiste, fruto da consolidação de um novo grupo de eleitores no campo bolsonarista. Ainda assim, acredita que os votos no centro se irão aproximar de Lula e que isso será suficiente para levar o atual Presidente a uma nova vitória nas urnas. “Ou seja, não é uma revolução, mas é um efeito que pode ser suficiente para reverter [as sondagens]”, vaticina.
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“A culpa é do Lula!”. A narrativa coesa do campo bolsonarista
Donald Trump até pode ter posto a bola a rolar na campanha presidencial brasileira de 2026. “Mas a questão é saber se o governo tem perna para chutar a bola dentro do golo”, declara Creomar de Souza à BBC. O cientista político brasileiro acredita que os ganhos políticos de Lula não são automáticos: o Presidente tem de os saber capitalizar, através de uma “resposta organizada, uníssona” algo que, argumenta, o Partido dos Trabalhadores (PT) não tem sido capaz de fazer com sucesso.
Por oposição, a narrativa do campo bolsonarista parece estar perfeitamente estudada, avançou uma fonte da próxima da família Bolsonaro à CNN Brasil. O primeiro passo foram os agradecimentos do apoio norte-americano a Trump. O segundo são pedidos de retirada das tarifas. Neste sentido, o papel de Eduardo Bolsonaro é visto, novamente, como essencial — e, em último recurso, a sua consolidação como herdeiro do pai fará dele o candidato ideal para a corrida do próximo ano, caso o julgamento do antigo Presidente decorra como previsto e este continue a estar impedido de se recandidatar ao cargo. Neste caso, os Bolsonaro passariam a apresentar-se como “responsáveis por evitar o pior cenário para a indústria”, elaborou a mesma fonte.
▲ O campo bolsonarista vê em Milei um exemplo a seguir para lidar com Washington
AFP via Getty Images
Mas ainda antes de Jair ou Eduardo se terem pronunciado, um outro Bolsonaro, Flavio, já disparava o primeiro tiro. “Parabéns Lula, você conseguiu ferrar o Brasil!”, escreveu o filho mais velho do antigo Presidente nas redes sociais, numa publicação em que acusou Lula de “anti-patriotismo sem limites” e de ter “raiva dos brasileiros”. Ao longo das horas seguintes, foram várias as publicações que transmitiram o mesmo sentimento: o Presidente, com a sua “bravata” contra Trump, é “culpado” pela aplicação das tarifas.
Já Eduardo Bolsonaro recorreu às redes sociais para não só agradecer a Trump, mas para para pedir ao “povo brasileiro” que também o faça, e Jair Bolsonaro declarou o seu “respeito e admiração pelo Governo dos Estados Unidos”. No entendimento da família, o Presidente norte-americano estar a lutar pela ilibação de Jair Bolsonaro é sinal de que está a lutar pela democracia no Brasil. “Essa caça às bruxas – termo usado pelo próprio presidente Trump – não é apenas contra mim. É contra milhões de brasileiros que lutam por liberdade e se recusam a viver sob a sombra do autoritarismo”, continuou o antigo Presidente numa publicação deixada já na quinta-feira.
A ideia repete-se nas publicações de vários antigos ministros e funcionários da administração Bolsonaro, que acusam Lula de ter posto “a ideologia acima da economia” e lamentam que agora os brasileiros sintam as “consequências” dessa postura combativa.
Para os bolsonaristas, a solução para lidar com as tarifas de Trump está mesmo ao lado, na Argentina, onde o ultraliberal Javier Milei negociou acordos de comércio com Washington. “Argentina, sim, tem um Presidente que luta por seu povo!“, escreveu Flavio Bolsonaro. Se a carta de Trump foi mesmo o pontapé de partida para as eleições brasileiras de 2026, o vencedor poderá estar no campo que conseguir provar como se pode ser “patriota” na relação com Washington: através da resistência desafiadora de Lula ou da colaboração obediente de Bolsonaro?
Notícia atualizada na sexta-feira às 11h30 com as declarações de Jair Bolsonaro e os comentários de brasileiros nas publicações de Donald Trump