A Ucrânia classificou-o como o ataque “mais maciço” contra instalações militares e industriais russas desde o início da guerra. Na madrugada de terça-feira, uma investida com drones e mísseis, num raio de até 1.100 quilómetros em solo da Rússia, atingiu infraestruturas estratégicas de várias regiões. Os alvos eram claros e muitos foram atingidos e danificados: fábricas de produtos químicos, refinarias e depósitos de munições.
O objetivo final também se tornou claro: afetar os meios de produção de armamento russos e enfraquecer o inimigo na base. Como destacou o New York Times, as dezenas de ataques simultâneos que atingiram o sudoeste da Rússia foram também uma demonstração da capacidade da Ucrânia: a de que consegue atacar não apenas as regiões fronteiriças, mas pode chegar até ao seu interior, ainda que ao mesmo tempo enfrente reveses no seu próprio território.
Para realizar o ataque, as forças ucranianas “utilizaram drones para sobrecarregar os sistemas de defesa aérea russos” permitindo depois que os mísseis atingissem os seus alvos e que mais drones atingissem mais tarde “subestações e outras infraestruturas após o ataque com mísseis”, segundo informa o Instituto para o Estudo da Guerra.
No rescaldo dos ataques, Moscovo afirmou que Kiev disparou seis mísseis balísticos ATACMS, fornecidos pelos EUA, seis mísseis de cruzeiro Storm Shadow, fornecidos pelo Reino Unido e, pelo menos, 146 drones, num ataque que, como avançou de imediato a administração de Putin, não ficaria sem resposta. A promessa foi cumprida na madrugada e manhã desta quarta-feira.
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Ucrânia “confundiu” sistema de defesa aéreo russo com recurso a drones para chegar à raiz da produção de armamento russo
Os drones ucranianos chegaram a várias regiões, inlcuindo Saratov, Voronezh e Orel, bem como à República do Tartaristão, todas localizadas no sudoeste da Rússia. A informação foi divulgada pelas próprias Forças Armadas da Ucrânia, que revelaram que tinham como alvo instalações militares russas a uma distância entre 200 e 1.110 quilómetros da retaguarda russa.
O governador da região de Saratov, a cerca de 720 quilómetros de Moscovo, avançou que as cidades de Saratov e Engels, situadas em margens opostas do rio Volga, tinham sido alvo de um grande ataque de drones e que duas instalações industriais tinham sofrido danos.
O ataque de maior dimensão atingiu a instalação estatal russa de armazenamento de petróleo Kombinat Kristal, em Engels. A empresa fornece combustível aos bombardeiros estratégicos — frequentemente utilizados para lançar mísseis contra cidades ucranianas — que partem da Base Aérea da mesma cidade, cujas instalações também sofreram ataques com mísseis e drones na madrugada de 14 de janeiro.
Na cidade de Aleksino, na região de Tula, um outro ataque com drones provocou um incêndio numa fábrica de produtos químicos. No complexo industrial, produz-se pólvora e munições para as forças armadas russas, como divulgou o The Kyiv Independent. Segundo Dmitry Milyaev, o governador de Tula, as forças russas tinham abatido 16 drones lançados contra a região no domingo e conseguiram ainda travar mais um aparelho na madrugada de segunda-feira. A defesa aérea não foi, no entanto, suficiente para travar o ataque aéreo ucraniano que causou danos na indústria estratégica para o setor militar russo.
Ainda segundo o canal de Telegram da oposição russa Astra, foram registadas explosões na cidade de Seltso, perto de Bryansk, onde uma fábrica de produtos químicos terá sido atingida. As Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, que gerem o lançamento de drones, confirmaram o ataque, notando que a fábrica produz pólvora, explosivos e componentes de combustível para mísseis, incluindo munições para artilharia de canhão, sistemas de foguetes de lançamento múltiplo (MLRS), aeronaves e mísseis de cruzeiro Kh-59.
Na capital do Tartaristão, na cidade de Kazan, uma instalação de combustível foi atingida na madrugada de 14 de janeiro, incendiando um tanque de gás. O incêndio ocorreu a mais de mil quilómetros da fronteira com a Ucrânia, o alvo a maior distância do território ucraniano. O chefe da República do Tartaristão, Rustam Minnikhanov, citado pelo The Kyiv Independent confirmou que houve um incêndio na cidade em consequência do ataque, mas ressalvou que não foram registados danos significativos.
“Fui ao local de um incêndio que ocorreu na sequência do ataque de um drone. Os serviços de emergência chegaram rapidamente ao local para extinguir o fogo. Ouvi relatos de que não houve vítimas ou danos graves”, escreveu Minnikhanov no seu canal do Telegram.
Tal como sucedeu em Kazan, não se registaram, ou pelo menos não há informação pública, sobre vítimas dos ataques com drones e mísseis na Rússia, sendo que as investidas militares decorreram durante a noite.
Em algumas cidades, na região de Saratov, as escolas foram fechadas na terça-feira por precaução, com as aulas a acontecerem online, com os alunos em casa. Vários aeroportos foram igualmente encerrados ou a sua atividade condicionada, tendo em conta a necessidade de manter os sistemas de defesa anti-aérea russos a funcionar.
O timing do ataque “mais maciço” de sempre à Rússia pela Ucrânia, nas vésperas de Trump tomar posse
“Cada depósito de munições, refinaria de petróleo, depósito de petróleo ou fábrica de produtos químicos danificados é um golpe doloroso para a capacidade da Rússia de fazer guerra na Ucrânia”, disse fonte dos Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) à AFP.
Estes ataques a vários pontos estratégicos, que tiveram sucesso através da utilização de drones para “ocupar” os sistemas de defesa aérea russos, enquanto mísseis atingiam os alvos definidos pela Ucrânia, surgem no momento em que Moscovo diz ter reconquistado duas aldeias ucranianas na região oriental de Donetsk — Neskuchne e Terny —, que Kiev tinha recuperado do controlo russo no início do conflito.
Há outros sinais da posição mais fragilizada da Ucrânia na frente de batalha. Relatórios citados pela imprensa ucraniana registam, desde 2024, a transferência de milhares de soldados da Força Aérea ucraniana para as Forças Terrestres. A última diretiva foi emitida a 11 de janeiro, quando o Comandante-Chefe, Oleksandr Syrskyi, emitiu uma ordem para transferir mais de cinco mil efetivos de uma para outra força.
Na terça-feira, Volodymyr Zelensky abordou a controvérsia em torno da transferência de pessoal. “Hoje tem havido muita preocupação e discussão relativamente a estas reafetações. Dei instruções para que tudo seja explicado ao público e para que não se reduzam os efetivos de especialistas essenciais para a Força Aérea – aviação, defesa aérea e unidades móveis de combate a incêndios”, afirmou o presidente ucraniano no seu discurso diário, citado pelo The Kyiv Independent.
Um oficial superior da Força Aérea, a prestar declarações sob anonimato, disse que as transferências atingiram agora um “nível crítico”, com os efetivos das unidades a descerem para 50%, o que parece indicar um aumento das baixas no campo de batalha.
O aumento de intensidade dos combates entre a Rússia e a Ucrânia antecede a tomada de posse de Donald Trump, marcada para a próxima segunda-feira, a 20 de janeiro. O republicano afirmou repetidamente durante a campanha e já após a eleição que pretende pôr termo ao conflito “24 horas”, que agora já são “seis meses” após a sua chegada oficial à Casa Branca.
A Ucrânia fica, assim, na iminência de ser forçada a fazer grandes concessões territoriais em troca da paz que Trump não só quer, mas que exige, colocando em causa a continuidade do abastecimento de armas e fundos norte-americanos de que a Ucrânia depende. Zelensky já concedeu ficar apenas com os territórios que atualmente estão sob ocupação ucraniana, mas em troca da entrada do país para a NATO, daí que travar avanços russos seja essencial — assim se pode aliás, enquadrar, a última contraofensiva em Kursk.
Como esperado, Rússia contra-atacou. Sondagem mostra que ucranianos não têm visão clara do que pode ser a paz
“Estas ações do regime de Kiev, apoiadas por curadores ocidentais, não ficarão sem resposta”, afirmou o Ministério da Defesa russo num comunicado divulgado na terça-feira. A resposta não se fez mesmo esperar. Na madrugada e manhã desta quarta-feira a Rússia lançou um ataque de larga escala contra o território ucraniano, de acordo com a Força Aérea da Ucrânia. Terão sido usados mísseis de cruzeiro Kh-101, Kh-22 e Kalibr.
Segundo o The Kyiv Independent, há relatos de explosões nas regiões de Kharkiv , Khmelnytsky e Ivano-Frankivsk. Já em Lviv, o governador, Andriy Sadovyi, informou que foi atacada uma “infraestrutura de energia”.
Numa publicação no Telegram, Volodymyr Zelensky reagiu ao contra-ataque, e afirmou que o objetivo do mesmo era o de atingir “infraestruturas de gás e instalações de energia que asseguram a vida normal das pessoas”. Ainda assim, garante que o sistema energético do país “está a funcionar”.
Antes da tomada de posse de Trump, Moscovo quer igualmente demonstrar a força de combate de que dispõe, especialmente a aérea, depois do ataque do mesmo tipo lançado pela Ucrânia. Além das provas para o exterior respondeu também em força ao ataque que a Ucrânia classificou enquanto a maior que já lançou contra cidades russas desde o início da guerra, em fevereiro de 2022.
Na mesma mensagem, Zelensky sublinhou também a necessidade de “reforçar as atuais capacidades da defesa aérea ucraniana” e apontou às “promessas” dos aliados de Kiev que “ainda não foram totalmente cumpridas”.
É ainda pouco claro e longe de ser consensual qual deve ser o aspeto de um potencial acordo de paz entre a Ucrânia e a Rússia. Uma sondagem, conduzida pelo Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR) e publicada esta quarta-feira, concluiu que os ucranianos não têm posições vincadas (a favor ou contra) em relação à adesão à NATO/UE, às garantias de segurança e à cedência/recuperação de territórios ocupados.
“Tais desacordos podem alimentar a turbulência política se e quando as negociações começarem”, lê-se no relatório.