Muito embora os prognósticos sejam só para o fim do jogo, como o avisado futebolista gostava de dizer, pode-se aventurar que, em 2015, a família vai dominar a temática eclesial. Com efeito, em Outubro deste ano, terá lugar um novo sínodo que, tendo em conta o já efectuado, bem como o inquérito realizado à escala mundial e, mais especificamente, às conferências episcopais de todo o mundo, deverá relançar a pastoral familiar católica.

O clima de alguma tensão entre as várias tendências teológicas e pastorais no sínodo passado ainda não está superada e é de crer que se venha a agudizar com a iminente realização da última e definitiva assembleia sinodal. Até à data, todas as afirmações não tiverem outro mérito que não fosse o de relançar a discussão, mas sem quaisquer resultados práticos. Mas, o próximo sínodo não poderá ficar-se pelas meras declarações de intenções ou de princípios. Espera-se e muito vivamente se deseja que conclua com algumas reformas de carácter pastoral, sob pena de que a enorme expectativa já criada se malogre. O que, de verificar-se, afectaria negativamente o pontificado de Francisco.

As divergências, entre as duas principais alas sinodais, são de carácter teórico e prático. Ambas comungam o mesmo entendimento sobre a essência da família e sobre a sacralidade do matrimónio cristão. O cardeal Walter Kasper teve o mérito de recordar a dolorosa situação dos cristãos divorciados que voltaram a casar civilmente e que aguardam, da autoridade eclesial, uma atitude de solicitude pastoral. Por sua vez, o cardeal Raymond Leo Burke, privilegiando um entendimento mais doutrinal da questão, considerou que uma eventual facilitação das declarações de nulidade dos casamentos canónicos poder-se-ia traduzir, como recentemente disse ao Le Figaro Magazine, numa espécie de ‘divórcio católico’.

Do ponto de vista prático, a questão é especialmente delicada porque, em certas comunidades católicas centro-europeias, ainda que à revelia de Roma, já se admitem divorciados à comunhão ou, pelo menos, tem-se por seguro que, muito em breve, receberão a desejada autorização para uma vida sacramental plena. Se porventura a exortação pós-sinodal não legitimar esta prática, os fiéis que se encontram nessa difícil situação podem não acatar a manutenção da actual disciplina, em cujo caso poderiam abandonar formalmente a Igreja católica.

Não deixa de ser paradoxal que sejam as forças ditas progressistas as que mais parecem pugnar por um exercício autoritário do poder papal, enquanto o episcopado tido por mais conservador entende que Francisco é o seu principal trunfo, como guardião que é da ortodoxia e da tradição eclesial. A bem dizer, o Papa tem conseguido manter-se independente das diversas opiniões, que vão muito além da imprópria, por demasiado política e simplista, oposição entre progressistas e conservadores. Privilegiando um estilo mais pastoralista do que teológico, é provável que queira introduzir algumas novidades na actuação pastoral da Igreja, nomeadamente em relação aos três pontos que não obtiveram os dois terços dos votos sinodais, mas que foram incluídos na relação final: os nº 52 e 53, sobre a admissibilidade à comunhão eucarística e espiritual, respectivamente, dos divorciados recasados civilmente; e o nº 55, em que se faz uma referência às famílias em que haja alguma pessoa com tendência homossexual.

Diz-se, na gíria eclesial, que há algumas coisas que nem o Espírito Santo sabe: quantas congregações femininas existem na Igreja, quanto dinheiro têm os franciscanos, ou o que pensa um jesuíta… Por muitos que sejam os tão meritórios institutos de vida consagrada, não são decerto infinitos e os fundos dos virtuosos seguidores do pobrezinho de Assis, sendo mendicantes, serão sempre escassos. É muita, certamente, a sabedoria humana e sobrenatural dos religiosos da venerável Companhia de Jesus, insignes na evangelização pela cultura e pela ciência, mas não tanta que se equipare à omnisciência divina. Mas, o que pensa o Papa Francisco… só Deus sabe!

Provavelmente, nem os que entendem que nada deve mudar, nem os que, pelo contrário, tudo querem alterar, têm razão. É salutar que a Igreja seja conservadora na sua fé em Cristo, mas progressista na sua acção pastoral, que há-de ser cada vez mais autêntica e audaz no anúncio do mistério da salvação universal. O superior geral da Companhia de Jesus, o Padre Adolfo Nicolás, disse que Francisco não lidera apenas uma reforma, mas uma autêntica «revolução». Com efeito, a tradição eclesial, de que o papa é o máximo garante, não pode ser entendida como obsoleto imobilismo, mas como dinâmica fidelidade ao Espírito Santo.

Sacerdote católico