O dia 28 de Fevereiro de 2025 poderá ficar na história como o dia em que o Ocidente se dividiu, pelo efeito de uma eleição americana que votou para presidente um homem que trata a sede do governo dos Estados Unidos, a Casa Branca, como um estúdio de televisão em plena gravação de mais um episódio do “Apprentice”. Diga-se que foi um episódio bem pensado, destinado a reduzir a zero o representante eleito de um país europeu, no caso a Ucrânia, através da indecente transformação de uma reunião entre dois estados democráticos num Realty show. Ou seja, Volodymyr Zelensky foi a vítima de uma feia cilada sem aviso, para a qual não estava obviamente preparado.
Neste contexto, qualquer pessoa de bem e com dois dedos de testa compreende que o presidente ucraniano vive há três anos um inferno que não se deseja aos nossos piores inimigos, a menos que esse inimigo seja Putin. É, pois, compreensível que Zelensky tenha caído na armadilha que não conhecia, mas tenha tido a coragem de responder com compostura aos delírios verbais do presidente e do vice-presidente dos Estados-Unidos. Ao ver e a ouvir o surrealismo das cenas, passou-me pela cabeça o que faria Winston Churchill nas mesmas circunstâncias e conclui que ele faria o mesmo, provavelmente um pouco melhor do que Zelensky, mas não mais do que isso. Outra alternativa seria sair da sala, versão só possível por Churchill ter atrás de si um país com séculos de história democrática.
E agora? A versão optimista implica que o que resta do planeta democrático se una na defesa da histórica racionalidade cartesiana da Europa, que se supõe existir nas democracias ocidentais, com o objectivo de apoiar a Ucrânia a defender-se de Putin, o que representa a guarda avançada da defesa de todos os países europeus. Neste caso, trata-se da oportunidade de fazer o que já deveria ter sido feito há muito, reforçar a união entre todos os europeus e aproveitar a oportunidade para construir um verdadeiro bloco político pronto a aceitar, na pior hipótese, a formulação de Churchill, “sangue suor e lágrimas” e rearmar com urgência todos os países europeus. E, como não há tempo para muita ciência, o melhor é colocar as fábricas europeias a copiar o melhor armamento que todos têm e que foi comprado aos Estados Unidos.
Quanto ao desejo de paz na Ucrânia, se Donald Trump falhar como é previsível, talvez seja possível convencer o silencioso António Guterres a pedir oficialmente à China, India e Brasil, para assumirem a missão de negociar a paz entre a Ucrânia e a Rússia, com o objectivo de ceder o menos possível do território ocupado e obter a aceitação da China, Índia e Brasil de servirem de possível garantia perante o povo ucraniano. Ou, uma alternativa menos interessante, será ceder a Trump a solução temporária de uma paragem na guerra sob a condição da colocação na Ucrânia dos tais 30.000 soldados europeus. Talvez esteja a ser demasiado inocente, mas julgo que qualquer destas soluções é viável, porque a alternativa poderá ser perigosa: a continuação da guerra, com o risco dos Estados Unidos se manterem neutrais, abrindo o caminho para Putin – perdido por um, perdido por cem – usar armas nucleares.
Uma nota final: a minha admiração pela coragem do povo ucraniano e do seu Presidente Volodymyr Zelensky, por ter mostrado na Casa Branca ser um líder de dimensão global, o que, para alguém que começou como cómico, não é pouca coisa. Só desejo que o presidente ucraniano sobreviva a todos estes tágicos acontecimentos e anseio que, por uma vez, a União Europeia se saiba comportar em unidade e sem hesitações. Para isso basta compreender a seriedade da situação da Europa no próximo futuro com Donald Trump na Casa Branca. Dentro de quatro anos a situação poderá permitir uma revisão da matéria, mas sem demasiadas ilusões.
Notas: existe a probabilidade de nos próximos dias a comunicação social portuguesa, em vez de debater o futuro do País e da Europa, se consuma nas tristes cenas da cilada pública vivida por Zelensky na Casa Branca, como as anormalidades protocolares e diplomáticas ali criadas para todo o mundo ver, tudo bem misturado nas nossas televisões com as cenas igualmente surreais do caso Spinumviva. Espero que, pelo menos, os telespectadores mudem de canal quando no ecrã surgir o general Agostinho Costa.