A oposição nunca foi fácil para líderes do PS ou do PSD. São  partidos de governo, feitos para distribuir lugares e definir políticas. Líder que não possa ou não pareça capaz de uma coisa ou outra não está destinado a ter descanso. Tudo isso é verdade. Mas é no entanto uma ilusão pensar que as aflições de Rui Rio se devem simplesmente à compilação das listas de deputados. Mesmo que a motivação de alguns dos protagonistas, dos vários lados, não suba muito acima desse rés-do-chão, está em causa muito mais do que isso.

Rui Rio não se distingue dos seus rivais no PSD por quaisquer ideias, mas por uma estratégia – ou melhor, por uma manha. Esta é clara: hostilização àquilo que ele trata como “direita”, e aproximação ao Partido Socialista. Nada disto é muito novo: apresentar o PSD como um “partido de centro-esquerda” ou “social democrata” teve sempre, desde os anos 70, uma única razão: facilitar um entendimento com o PS. É por isso que, como confessou Manuela Ferreira Leite, é preferível que o PSD seja “pequeno” do que seja de “direita”. De facto, o tamanho aqui não conta mesmo: bastará ter os deputados suficientes para serem úteis ao governo socialista.

Admitamos que Rio tem as suas razões para esta opção. A incapacidade do PSD para formar uma maioria parlamentar com o CDS em 2015 e a retracção autárquica de 2017 tê-lo-ão persuadido de que o PSD, para voltar ao poder, precisava de colar-se ao PS, passar de rival a cooperante da governação socialista. Para o PS, tudo isto é lisonjeiro, na medida em que parece reconhecer a sua velha aspiração de definir o sistema à volta de um partido dominante — o PS, claro — rodeado de partidos pequenos à direita e à esquerda. Mas mais do que a relação entre os partidos, esta estratégia define a relação do regime com o país: é a da gestão dos interesses e clientelas instaladas, através do controle de todos os poderes e da partilha de recursos entre os partidos. As grandes obsessões de Rio com o submissão do Ministério Público e a regionalização do Estado vão nesse sentido.

O PSD, porém, já foi outra coisa: um partido capaz de mobilizar as aspirações do país contra os situacionismos aquartelados no Estado. É por isso que as comparações de Rio com Sá Carneiro estão erradas. A liderança de Sá Carneiro, quando finalmente se afirmou no PSD – e isso só aconteceu em 1979 — não foi uma questão de temperamento,  mas de estratégia: fazer do PSD a base para agregar a área não-socialista e gerar um mandato eleitoral reformista. Sem esse PSD, não teria havido as revisões constitucionais de 1982 e de 1989, que configuraram o actual regime, nem as mudanças que permitiram aos portugueses, na passagem dos anos 80 para 90, tirar partido da entrada na CEE.

Hoje, a questão não é diferente: sem um grande partido capaz de liderar os debates e os compromissos necessários para fazer reformas, é improvável que a sociedade consiga, por si própria, mudar o Estado clientelar cujos custos a têm impedido de explorar a globalização no século XXI. É isso que a estratégia de Rio pode negar ao país, ao reduzir o PSD a um partido menor. À direita, porém, há quem veja aí a oportunidade para fazer corresponder a pluralidade da direita a muitos partidos, todos minúsculos, todos iguais. O poder seria, depois, apenas questão de outra geringonça. Fácil? Não. Se uma coligação entre um partido grande e um mais pequeno, como as do PSD e do CDS desde 1979, já não foram tranquilas, imagine-se uma babel de exiguidades, todas a fazerem-se valer. Talvez a sobrevivência do regime se possa medir, neste momento, pela sobrevivência do PSD.