Dia 0

Já todo o pessoal chegou a Barcelona. O ambiente é de festa rija, que às vezes interrompemos para gravar uns vídeos comoventes sobre o genocídio e partilhá-los nas “redes”. Uma camarada activista, que é deputada em Portugal, disse que “o mundo e a humanidade estão a ser salvos pelo povo palestiniano”, que por sorte é aquele que nós vamos salvar. Parece confuso mas faz sentido, sobretudo após uns cogumelos que consumimos.

Hoje aprendi uma palavra nova: “sumud”, que pelos vistos significa persistência em árabe ou lá qual é a língua que os camaradas do Hamas falam. A camarada portuguesa acrescentou o seguinte: “Porque quando as pessoas se unem, camaradas, somos uma superpotência, somos mais poderosos do que qualquer governo, do que qualquer exército, do que qualquer regime! Somos uma superpotência de solidariedade! Em português dizemos ‘navegar é preciso’, vamos navegar!” Até me arrepiei, ainda que fosse do frio e dos cogumelos.

Na esplanada da marina, um vendedor com sotaque esquisito perguntou-me se queria um café. “Com adoçante de stevia”, respondi. Afinal a oferta era um “keffiyeh”, o lenço dos resistentes palestinianos que estão a salvar a humanidade. Aceitei comovida e estendi o lenço nas costas. Paguei apenas 65 euros. Como somos vegetarianos, jantámos sushi e gritámos “From the river to the sea, Palestine will be free” durante hora e meia, momento em que o dono do restaurante, que era um querido, correu connosco.

Dia 1

“Vamos navegar!” Depois de carregar os doze quilos de Cerelac que vão furar o desumano bloqueio sionista, partimos do porto de Barcelona, decididos a salvar os salvadores do mundo. Com o “sumud” com que estamos, nada nem ninguém conseguirá parar esta “superpotência de solidariedade”, mais poderosa que exércitos e regimes. Entretanto informaram-nos que por causa de eventuais chuviscos teríamos de regressar ao cais. Foi aborrecido. Não foi catastrófico: o genocídio pode esperar um dia extra. Como somos vegetarianos, jantámos ovos rotos com um bocadinho pequenino de presunto e, entre copos de sangria de mirtilo, gritámos “From the river to the sea, Palestine will be free”. Mas baixinho.

Dia 2

Agora sim! Embora com algumas baixas na flotilha humanitária, causadas por razões não divulgadas e ressaca, partimos do porto de Barcelona pela segunda vez e com o “sumud” da primeira. Logo a seguir, novo boletim meteorológico e novo regresso às origens para a maioria das embarcações. Isto está complicado, mas inspirou-me uma frase gira: “Hamas e más, há ir e voltar para trás”. @s camaradas não apreciaram.

Aproveitei para fazer compras aos colegas de activismo, praticantes do comércio justo. Comprei umas peúgas giríssimas com padrão palestiniano, uma caneta com a bandeira da Palestina e, para presentear a família, meia-dúzia de ímanes de frigorífico com o logotipo do Ministério da Saúde de Gaza. No cais cruzei-me com a enorme Greta Thumberg e pedi-lhe um autógrafo. Ela não entendeu e ficou-me com a caneta. Tentei, em vão, descobrir onde se jantava. Adormeci com fome e “sumud”, a contar crimes de guerra cometidos pelo governo nazi-sionista de Bibi.

Dia 3

Deixem-me ver se consigo fazer o ponto da situação da maior missão humanitária da História. Há embarcações que partiram, há embarcações que não partiram, há embarcações que desistiram e há notícias, decerto postas a circular por lacaios do sionismo, que dão conta de algumas embarcações a cirandar defronte ao porto de Barcelona e de outras estacionadas em Maiorca. Eu, francamente, não sei onde estou. Sei que estou no mar alto e que ali ao fundo há uma praia com banhistas que nos segue há horas. Tenho muito medo da crueldade israelita e de que chova, mas agarro-me ao “sumud” e a uma picanha vegan que se derrete na boca. Vou murmurar “From the river…” por um bocado e quero meditar antes de adormecer. Ando a meditar pouco.

Dia 4

Alerta geral! Alerta geral! Um camarada de viagem, que dá “workshops” em interseccionalidade e é especialista em comunicações, partilhou na internet um vídeo a explicar que ficámos sem internet. O consenso imediato é que se trata de sabotagem sionista. Ao que consta, estamos limitados à navegação à vista, e é por isso que no vídeo aparece outro camarada a contemplar o horizonte através de um par de binóculos, decerto à procura de wi-fi. Por sorte, o TikTok continua a funcionar. Troquei o jantar, que era tofu, por dois pacotes de “nachos” sustentáveis com sabor a entrecosto, e deitei-me a ouvir discursos do eng. Guterres e do mártir São Sinwar. Lá fora, no convés, havia camaradas a tocar bongo e camaradas que dançavam para desafiar um estado genocida. Tresandava a erva e a tofu refogado, e o sono chegou. Afaguei o “keffiyeh” e sonhei com a “jihad” para reforçar o “sumud”.

Dia 5

Outro alerta geral! Outro alerta geral! Esta noite havia drones a sobrevoar-nos, evidentemente sionistas que nos vigiam a fim de recolher dados. Por mim, desliguei logo o “bluethooth” do iPhone. Um camarada berrou para desligarmos a luz. Às escuras, os drones deixaram de nos ver. Não sei as implicações disto na navegação à vista, mas o facto é que não sei a quantas andamos. Que o “sumud” nos guie, já que com os camaradas da tripulação não temos ido longe.

Dia 6

O que sobra da flotilha, imparável na luta, está de luto: a incansável Greta perdeu o chapéu do sapinho, levado pelo vento. Era um chapéu verde, com olhinhos de batráquio a espreitar no topo, de imenso valor afectivo e que a acompanhava desde a primeira infância, leia-se anteontem. Ganhei coragem para lhe apresentar as condolências e voltar a pedir-lhe um autógrafo, e ela voltou a ficar-me com uma caneta. É um exemplo para todos.

Sobre a epopeia, não posso adiantar muito. Diz-se que há embarcações retidas em praias das Baleares e embarcações retidas em Barcelona. Eu estou dentro de um barco e o barco está pousado no mar, isso é certo. Acho. O resto é uma incógnita. Se calhar, faz tudo parte de um plano para confundir as forças sionistas, que não contam que gastemos as duas semanas de viagem a chapinhar em águas espanholas ou lá que sítio é este. Também é verdade que assim não chegaremos a Gaza, mas chegar a Gaza nunca nos passou pela cabeça. Aliás, nas nossas cabeças não se passa grande coisa. Só “sumud”.