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Os nomes das guerras costumam remeter para o sítio onde se combate, e aqueles que participam na guerra costumavam ser aqueles que estão no terreno e lutam nos campos de batalha. No entanto, tem havido guerras com outros tipos de nomes. Em 1945 George Orwell cunhou o nome “guerra fria” para descrever o tipo de relação que os EUA teriam com os países vizinhos por serem o único país com a bomba atómica. Como sabemos, a URSS e outros Estados rapidamente ganharam a sua capacidade nuclear e o mundo evoluiu para uma situação de tensão entre dois blocos concorrentes que recebeu precisamente esse nome – Guerra Fria – até à queda do Muro de Berlim e consequente esboroar do bloco soviético. Também o Presidente Lyndon Johnson chamou em 1964 às suas políticas públicas de “Guerra contra a Pobreza” (War on Poverty), George W. Bush declarou a “Guerra contra o Terrorismo” (Global War on Terrorism) em 2001 e, mais recentemente, temos ouvido vários líderes políticos a falar duma “Guerra contra a Pandemia”.

O problema destas denominações é que o inimigo se torna invisível, difuso, desfocado, múltiplo. Não se sabe bem quem é, ou sequer se é. Não é um inimigo palpável e com rosto. A alternativa não é arranjar um inimigo qualquer para dar sentido à nossa guerra, nem devemos atirar ao lado como alguém que diz que é preciso matar o homem branco, ou outros ainda para quem o grande problema são os ciganos. Esses bodes expiatórios servem para guerras que não são as nossas e, uma vez derrotados, o nosso problema persiste. Foi com simples distracções que nos entretivemos e, entretanto, não só perdemos tempo como eventualmente sacrificámos a paz de inocentes.

Muitas vezes, o politicamente correcto é simplesmente o correcto. Outras vezes, o politicamente correcto limita-nos a capacidade de identificar certeiramente aquilo e aqueles que combatemos. Voltemos a um problema nacional. A guerra no Afeganistão, também nossa porque envolveu 4500 militares portugueses — dois mortos em serviço — no âmbito da NATO, fez parte da Guerra contra o Terrorismo declarada pelos EUA cinco dias depois de sofrer os ataques de 11 de Setembro de 2001. Os atentados de 2001 e dos anos próximos tiveram um autor, a Al-Qaeda, e uma ideologia: o radicalismo islamista.

É claro que seria injusto culpar todo o Islão por causa duma franja minoritária e oportunista que apoia o terrorismo contra o Ocidente e o seu modo de vida. A maioria dos muçulmanos são tão pacíficos e normais como nós. No entanto, não podemos ignorar que os terroristas da Al-Qaeda, do ISIS, do Hezbollah e outros agem invocando motivos religiosos. Aqui, por complexos compreensíveis relacionados com o politicamente correcto, houve um esforço concertado para não relacionar aquela religião e os seus crentes com as ideias de radicalismo, terrorismo e violência. A meu ver, fizemos mal. Seria do nosso interesse e do interesse da maioria dos muçulmanos que tivéssemos juntado esforços para sinalizar os grupos, os líderes políticos e religiosos, as mesquitas e madraças que albergam as seitas ditas islâmicas mas que distorcem o Islão e instrumentalizam a fé dos homens e o nome de Deus para semear a violência e cometer crimes contra a humanidade.

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Para além do mau nome que estes radicais dão ao Islão, a maior quantidade de mortos vítimas de atentados terroristas são… muçulmanos. Em vez de identificarmos o inimigo do terrorismo islamista e de o combatermos, cedemos primeiro ao politicamente correcto e depois cedemos também ao medo – sobretudo após os ataques a embaixadas dinamarquesas em 2005/6 por causa de caricaturas no Jyllands-Posten e o massacre do Charlie Hebdo em 2015.

Quando não identificamos o inimigo numa guerra, ele ganha uma vantagem desnecessária. Em sociedades democráticas como as nossas, os líderes têm contas a prestar para se manterem no poder e para continuarem a actuar. Quando a guerra é contra um inimigo vago e sem cara, quando após 20 anos já não sabemos o que fazemos numas montanhas longínquas e porque é que isso é tão importante para a nossa segurança e modo de vida, então a retirada é fatal e o sabor da derrota é amargo. Como já não compreendemos aquela guerra, ela torna-se aparentemente inútil e cara.

Queremos crer que os talibãs de hoje são melhores, mais moderados e humanistas que os de há 20 anos – mas as imagens e relatos mostram-nos o contrário. A Al-Qaeda continua, a Bin Laden sucedeu Al-Zawahiri e surgiu também um ISIS que semeia o terror até em Moçambique. Podemos pensar que ao sairmos do Afeganistão a guerra acabou, no entanto, o radicalismo islamista persiste como inimigo violento, perigoso e próximo. Devemos seguir a nossa vida sem a mudar, mas, se formos confrontados novamente com este inimigo, só ganhamos em identificá-lo melhor.