Em política, como no resto da vida, errar é humano.

Quando se erra, o que se deve fazer?

Há diferentes tipos de erro na política e, necessariamente, o que deve ser feito quando estes ocorrem, precisa de ser considerado face ao erro em causa.

Venho falar de um tipo específico de erro: aquele que corresponde à afirmação pública, por parte de um dirigente de topo, de uma inverdade.

Mesmo neste tipo de situação, há que verificar as razões, o contexto, o propósito da declaração. Por exemplo, se na situação de desespero que ocorreu com uma jovem equipa de futebol e do seu treinador numa gruta, na Tailândia, em 2018, em que as possibilidades de sobrevivência e de saída com vida da gruta eram baixas, se se transmitisse aos mesmos que “Vai tudo correr bem”, mesmo sabendo que as hipóteses de tudo correr bem eram limitadas, não se pode criticar o dirigente público que pudesse transmitir este tipo de inverdade. De facto, de que serviria dizer, nesta situação, antes de iniciar a operação de resgate, “As vossas chances são muito baixas”? Aqui, temos uma situação de inverdade que, dificilmente, pode ser julgada como um erro.

Mas não é sempre assim.

No passado dia 1 de Setembro, Donald Trump veio afirmar, publicamente, na sequência da passagem devastadora do furacão Dorian nas Bahamas, que o mesmo atingiria de forma impactante o Estado do Alabama, provocando alarme na população. Esta afirmação, que foi feita a partir da Sala Oval, na Casa Branca, mostrando um mapa da evolução do furacão em território americano, continha informação errada, acrescentada, na Casa Branca, à informação dos serviços meteorológicos dos Estados Unidos.

Não é provável que quem entregou o mapa com informação errada a Donald Trump, quisesse que ele fizesse uma aparição pública a mostrar informação errada. Também não é provável que Donald Trump, quisesse, sobre esta matéria, dar, deliberadamente, informação errada à população. Todavia, é provável que Donald Trump quisesse capitalizar a preocupação dos americanos com o furacão, para mais uma frente do seu protagonismo, mostrando-se como “protetor”, “cuidador”, “timoneiro” e coisas parecidas.

Seja nos Estados Unidos, em Portugal e em outros países democráticos, bem sabemos que, por vezes, há líderes políticos que não conhecem bem a diferença entre oportunidade e oportunismo. Ou até podem conhecer essa diferença, mas aproveitam oportunisticamente as oportunidades. Tragédias, eminência de tragédias, são território fértil para exibir compaixão, compreensão, solidariedade… tudo gestos positivos que a população aprecia. E não haja dúvida de que os servidores públicos, nos seus diferentes níveis de responsabilidade, face a tragédias ou à sua eminência, têm o dever da compaixão, da compreensão, da solidariedade.

Mas conhecer os limites da presença pública, para não transformar a mesma numa confrangedora manifestação de insensibilidade mascarada de sensibilidade, é o que distingue, nomeadamente, um estadista de um oportunista.

Voltando a Donald Trump: soube-se, a 8 de Setembro, que a direção dos serviços meteorológicos americanos (de nomeação política), quis limitar a informação ao público, por uma diretiva interna enviada aos serviços técnicos, depois da declaração errada de Donald Trump sobre a evolução e impacto no Alabama do furacão Dorian. Tal aconteceu depois do desmentido deste alarmismo – provocado pelo presidente americano. O desmentido foi feito pelos serviços meteorológicos no mesmo Estado face à chuva de pedidos de esclarecimento recebidos.

E é aqui que temos uma insistência no erro que enfatiza uma questão séria: errar na comunicação pública, pode acontecer. O que se faz, face a esse erro, define quem errou e condiciona o espaço público, para melhor ou para pior.

Face a este erro de informação, transmitido pelo mais alto responsável americano, o que  seria melhor? Procurar esclarecer que se tratava de um erro ou procurar dizer que não havia erro nenhum?

Creio que, neste caso em particular, não há dúvidas de que a melhor atitude a tomar era lamentar o lapso e informar que se procederia a um inquérito interno para esclarecer como tal tinha sido possível, respaldando os serviços meteorológicos e a confiança política nos mesmos.

Mas o que foi feito foi exatamente o contrário – o erro não foi reconhecido e pôs-se em causa a correção de serviços públicos de ordem técnica através da limitação dos esclarecimentos que os mesmos podiam prestar ao público.

Um dos campos em que o suporte político a serviços técnicos é necessário é o campo da meteorologia.

Mas não é o único: o respaldo político a serviços especializados do Estado, como aqueles que avaliam a importância dos medicamentos, a situação de segurança de redes viárias e ferroviárias, da qualidade do ar ou da proteção de espécies animais e vegetais em perigo, é importante, só para dar alguns exemplos.

Ignorar, diminuir, deturpar a informação especializada de serviços técnicos públicos em áreas prioritárias que envolvem a segurança dos cidadãos, para obter ganhos políticos, é um perigo para as democracias.

Quando falamos de transparência em democracia, sabemos que esta transparência deve ser entendida com cuidado. Há domínios em que há interesses superiores que se sobrepõem à transparência. Casos exemplares são o segredo de Estado, a relação médico-doente, os dispositivos que garantem a segurança de altas figuras públicas ou da população em geral, os registos dos dados pessoais dos cidadãos, o segredo de justiça. Transparência não significa a colocação de toda a informação que o Estado detém  disponível para todos.

O que não pode acontecer é, com o argumento da proteção de informação sensível, limitar o escrutínio público de políticos ou de serviços públicos. Ou, como no caso em presença, para reforçar as afirmações erradas de um político, limitar ou descredibilizar o campo de perícia de um serviço público prioritário.

Então agora vamos discutir se uma melhor previsão meteorológica é feita por um político ou por um serviço público de meteorologia?

Este é um passo em frente na recomposição do real feita a partir de poderes dominantes – a desvalorização de serviços técnicos reconhecidos face aos interesses envolvidos na mensagem política.

Donald Trump, através de 122 tweets em dois dias e declarações a partir da Casa Branca sobre o furacão Dorian, é um exemplo de referência para o oportunismo associado à gestão mediática de uma tragédia.

Ao errar na informação técnica transmitida, não se retratou. Antes procurou limitar a margem de ação dos serviços técnicos do Estado, na área em que errou. Esta insistência no erro, corresponde a um caminho perigoso, entre outros que têm, na sociedade hiper-mediatizada que é a nossa, minado as diferenças entre informação e opinião, entre parecer técnico e afirmação política, entre verdade e mentira.

Esta deterioração erode, gravemente, o espaço público, promove o sectarismo, a manipulação, o oportunismo. Como bem se percebe, estes parâmetros não coadjuvam o exercício de opiniões esclarecidas, a participação política, a proteção do espaço público como lugar de debate sério, plural, democrático, baseado em informação fiável e na existência de diferentes posições sobre a interpretação a dar à informação e sobre o como agir a partir dela, a partir de diferentes perspetivas, de que se alimenta uma sociedade democrática.

Que o Trumpismo, enquanto modelo de prática política, não contamine as democracias ocidentais é não só uma esperança que temos que ter, mas uma determinação que é necessário exercer.

A insistência no erro, como forma de organização e exercício do poder público, não é identificável com os atributos essenciais que definem os valores das democracias liberais.