1. Em consonância com o desenvolvimento do pensamento e da sociedade, é perfeitamente normal que as definições conceptuais evoluam. Os conceitos são, por natureza, flutuantes. Isso significa ser recomendável considerar o contexto histórico e temporal a que se referem.

Quando abordamos o culto da personalidade no âmbito da superioridade moral, não podemos ignorar dois fenómenos que remontam a tempos imemoriais e que foram moldando a história através do influenciar do pensamento filosófico, ideológico e religioso, consubstanciando-se em regimes distintos. Refiro-me ao sacrossantismo e ao messianismo (incluindo político), cujo principal efeito é a sacralização (e a consequente imposição) de certos valores, líderes e instituições, atribuindo-lhes um carácter absoluto e inquestionável, bem como uma dimensão transcendente.

Pode estabelecer-se uma distinção entre ambos os “ismos”: o sacrossantismo está relacionado com a dimensão da simbologia ideológica, enquanto o messianismo remete para a crença, ou até o culto, num líder redentor que conduzirá a sociedade a um futuro pré-idealizado e perfeito.

A crença, o culto e a veneração de líderes como figuras dotadas de uma dimensão divina e espiritual não são novos e manifestam-se ao longo da história. Basta recordar as culturas suméria, hitita, babilónica, egípcia, romana, chinesa e japonesa. Destaco, por exemplo, as culturas egípcia e romana. Os faraós eram vistos como intermediários entre os deuses e os homens, enquanto os imperadores romanos eram frequentemente divinizados, com alguns, como Augusto, a utilizarem essa sacralização para consolidar o seu poder. Durante a Idade Média, com o poder político intrinsecamente ligado à religião, a noção de direito divino legitimou os monarcas. Todos estes cultos serviram para justificar a autoridade absoluta.

2. Resultantes de possíveis reinterpretações, estas ideias, ainda que adaptadas, manifestaram-se no século XX, no comunismo e no nazismo. Apesar de rejeitarem formalmente a religião tradicional e de parecerem regimes seculares e materialistas, ambos propagaram os seus próprios dogmas e cultos, elevando certos homens, valores, símbolos e ideias a um estatuto intocável e sacrossanto. Baseado nas ideias de Karl Marx, o comunismo instituiu diversos dogmas que foram posteriormente sacralizados nos regimes ditatoriais revolucionários.

Classe operária: o proletariado, colectivamente elevado à condição de princípio absoluto, era a força motriz da história, a base de toda moral e verdade, e o único elemento social com legitimidade para transformar a sociedade;

Partido Comunista: como “vanguarda” do proletariado, o partido detinha um papel quase divino na condução da revolução. A sua liderança era infalível e qualquer discordância interna era um sacrilégio;

O Estado proletário: durante a transição para o comunismo pleno, o Estado socialista assumiu um papel absoluto, concentrando o poder de forma incontestável. Teoricamente devia caminhar para o desaparecimento. Na prática, tornou-se intocável e transformou-se no Estado do partido comunista;

Marx, Lenin, Stalin (Mao, Castro): como principais teóricos e líderes comunistas foram tratados como figuras proféticas, cujas imagens e palavras se tornaram omnipresentes na vida quotidiana dos cidadãos;

Materialismo dialético: dogma filosófico inquestionável;

Materialismo histórico: ciência superior a qualquer outra teoria, cujo questionamento era visto como uma traição;

História oficial: a narrativa comunista trata a revolução, a luta contra o capitalismo e os mártires da causa como eventos sagrados, reinterpretando fatos históricos para atender aos interesses da ideologia.

Por sua vez, fundamentado nos escritos de Adolf Hitler, o nazismo também estabeleceu um sistema de veneração ideológica centrado na raça, no Estado e no seu líder, Hitler. Alguns dos principais dogmas incluíam:

Raça Ariana: considerada pura e superior foi tratada quase como um princípio espiritual, cuja preservação é missão essencial (base das políticas de genocídio contra “elementos degenerados”);

Estado Nacional-socialista: encarnava o “espírito do povo alemão” (volksgeist), sendo absoluto e infalível, e severamente reprimidas quaisquer formas de contestação;

Führer: o culto à personalidade de Hitler atingiu dimensão messiânica, sendo a sua imagem, discursos e textos considerados sagrados (o juramento de lealdade ao Führer era pessoal e inquestionável);

Sangue e Solo (Blut und Boden): a ideologia nacional-socialista sacralizou o elo do povo ariano à terra promovendo a ideia de uma comunidade racialmente pura e territorialmente enraizada;

Simbologia reverencial: elementos como a suástica, a saudação nazista e as cores do partido eram usados com uma adoração quase religiosa.

Volksgemeinschaft “comunidade do Povo”: o nazismo visionava uma sociedade unificada, homogénea e virtuosa racialmente, da qual eram excluídos todos os  grupo “indesejáveis”.

Estas ideias estão sumarizadas nas tabelas 1 (elementos sacrossantos) e 2 (elementos ideológicos).

Ao examinar o comunismo e o nazismo, Hannah Arendt (The Origins of Totalitarianism, 1951) disse que ambos compartilharam características e identificou traços comuns: o aniquilamento da individualidade, o recurso sistemático ao terror como instrumento de dominação e a construção de uma realidade alternativa sustentada por dogmas ideológicos. Para Arendt, o totalitarismo não se limitou a ser um regime autoritário. Também foi uma tentativa radical de suprimir a espontaneidade humana e de moldar a sociedade como uma massa uniforme e facilmente manipulável.

Por sua vez, Bertrand Russel (Sceptical Essays, 1928; Power: A New Social Analysis, 1938), defendeu que tanto o comunismo como o nazismo, ao substituírem a razão pelo dogma, impulsionaram a obediência cega em detrimento do pensamento crítico. Russell advertiu para os perigos de transformar qualquer ideologia numa verdade absoluta e incontestável, sublinhando que a liberdade intelectual era indispensável para evitar a deriva para o fanatismo.

Finalmente, Nikolai Berdyaev (The Origin of Russian Communism, 1937), argumentou que tanto o comunismo como o nazismo desenvolveram formas próprias de sacralização, atribuindo um carácter quase divino ao partido, ao líder e à ideologia. Para Berdyaev, esta transfiguração originou um sistema rígido e desumanizado, que anulou a dimensão espiritual do ser humano, tornando-se, por isso, profundamente perigosa e indesejável.

Mas não pensem que os exemplos de políticos (da esquerda e da direita) que usaram cultos de personalidade para se manter no poder ficam por aqui: Ferdinand Marcos (Filipinas), Gurbanguly Berdimuhammedow (Turquemenistão), Kim Jong-un (Coreia do Norte). Juan Perón (Argentina), Rafael Trujillo (República Dominicana), François Duvalier (Haiti), Recep Erdoğan (Turquia), Hugo Chávez (Venezuela), Vladimir Putin (Rússia).

Nos últimos anos, temos assistido ao ressurgimento de uma nova vaga de populismos. À esquerda, emergem movimentos radicais que contestam as políticas sociais dos partidos do centro, recorrendo frequentemente a formas de activismo que funcionam como verdadeiros braços políticos. Exemplos disso incluem o Fridays for Future, o BlackLivesMatter, o GreenNewDeal e o movimento Sunrise nos Estados Unidos – e, em Portugal, o Climáximo. Apesar da mensagem renovada, adaptada aos tempos modernos, os velhos temas persistem: a luta de classes, a denúncia da desigualdade e da injustiça social, o combate ao racismo e à discriminação, e a crítica ao capitalismo, etc.

À direita, também se verifica uma actualização da mensagem. Movimentos e partidos que se apresentam como representantes do povo adoptam um discurso anti-establishment, responsabilizando os partidos tradicionais e as multinacionais pelas consequências da globalização, das políticas migratórias e das crises económicas. Defendem o reforço da soberania nacional, o controlo da imigração e, em certos casos, a limitação das liberdades individuais. Figuras como Marine Le Pen, Nigel Farage, George Simion, Viktor Orbán, Donald Trump e André Ventura ilustram esta tendência. E aqui também se reencontram ideias antigas: nacionalismo, proteccionismo, autoritarismo, xenofobia e, curiosamente, intervenção estatal na economia.

O traço comum entre os fenómenos que descrevi está na construção de cultos de personalidade e na sacralização dos regimes, sustentados por narrativas manipuladoras – assentes na mentira, na distorção, na ilusão e na insinuação. Estas narrativas, ao invocarem uma visão idealizada do passado e ao oferecerem soluções simplistas para problemas complexos, tornam-se sedutoras e eficazes na mobilização das massas. Tanto a afirmação da superioridade moral da esquerda como da direita requerem narrativas de conveniência.

Tal como no passado, o sacrossantismo e o messianismo político continuam a ser instrumentos poderosos na consolidação do poder e na legitimação de regimes autoritários. E, invariavelmente, as vítimas são sempre as mesmas: a liberdade, a verdade e a democracia.

“Those that fail to learn from history are doomed to repeat it.”

Winston Churchill