4 de Dezembro de 1980, Setúbal numa noite gélida e escura com a brisa do mar a entranhar os ossos e a congelar as lágrimas dos rostos, naquele dia do comício por tantos aguardado.
Apesar de jovem, há 4 anos que lutava no terreno, movida por um sentimento de revolta contra os anos de instabilidade que se seguiram ao PREC e contra o clima de tensão entre sectores que defendiam claramente uma orientação socialista ou comunista.
Naquela Setúbal tão vermelha e tão agreste não baixávamos os braços e os insultos verbais e físicos a que éramos sujeitos nas lutas estudantis, pela associação de estudantes, era a força que nos impulsionava. A campanha da AD em 1979 foi um êxito para nós, mesmo naquele tão hostil campo de batalha.
A adrenalina dessa anterior campanha, mostrou que apesar de jovens, não tínhamos medo. Tínhamos vontade, mas sobretudo tínhamos esperança e queríamos um Portugal melhor com uma solução política democrática e a certeza que não queríamos uma ditadura comunista ou a continuação do clima revolucionário.
A AD, representava para nós, apesar de muito jovens, um símbolo de retorno à estabilidade democrática, após anos de incerteza política com governos provisórios e demasiados conflitos ideológicos. A AD, refletia um comprometimento com as instituições democráticas e trazia a esperança da normalização do pais.
Naquele que era o nosso campo de batalha, constituía a única alternativa ao PCP e a toda a sua influência. Naquela altura fomos uma força muito importante contra o movimento sindical, todo ele radicalizado à esquerda do socialismo, do MFA e de outros sectores revolucionários.
Ao contrário do PREC e pós PREC, queríamos empreendedorismo, iniciativa liberal e lutar por um futuro melhor e atrativo para Portugal.
Por isso, aquela noite foi tão trágica e ouso dizer, marcante para o resto da vida de muitos de nós.
Nunca a esquecerei e cada vez que a relembro, os olhos ficam turvos e o coração aperta com a certeza que tudo teria sido bastante diferente, para melhor.
Começou por ser uma noite normal de uma normal semana, agitada apenas pela certeza que o comício da AD iria ter uma adesão nunca vista e para além do expectável naquele território.
Treino de basquete até às 20.30, mesmo a tempo de chegar à praça de Bocage, onde iria decorrer o comício, 1m a pé de distância.
Ia acompanhada pelos meus pais e nessa altura, já o meu pai era dirigente concelhio do PPD. Quando entrou no ginásio trazia o semblante pesado e a voz trémula. Já tinha ouvido risos vindos do canto do pavilhão onde, entretanto se encontravam a aquecer outra equipa. Primeiro pensei que fosse brincadeira habitual, mas percebi pelos comentários distorcidos que celebravam e tornaram uma tragédia em motivo de regozijo.
Senti um aperto no peito, pedi para ser substituída e respondi como era meu hábito.
Fiquei sozinha no meio do campo sem chão enquanto as gargalhadas ressoavam e sentia-as a ferir o peito, uma atrás da outra.
Naquele momento, percebi a crueldade humana e tive a certeza de que lutava do lado certo.
Nesse dia a água fria do banho não me incomodou e corri para a rua, de bandeira em punho e sempre na esperança de que não fosse verdade.
Infelizmente era verdade, os polícias choravam compulsivamente (ainda hoje guardo essa imagem) e a praça do Bocage apinhada de gente inclusive nas ruas ao redor, tornou-se no maior velório que Setúbal alguma vez conheceu.
A morte destes dois grandes estadistas, deixou um vazio numa altura ainda perigosa para a jovem democracia vulnerável em Portugal. Num período ainda marcado pela fragilidade das instituições e do peso recente do autoritarismo e do perigo que alguma forças políticas representavam na sua manutenção à esquerda.
De repente o país ficou órfão de liderança, de clareza de visão, mas e sobretudo de uma determinação inabalável.
A perda não foi apenas política, foi sobretudo emocional e naquele momento não se afigurava sucessão à altura de tamanha demanda.
Ainda hoje, passados 45 anos, relembro com saudade aquelas campanhas e continuo a lutar pela democracia.