O Partido Conservador inglês, segundo algumas contas otimistas, tem 192 anos. E o SPD já chegou, com a disciplina que se espera dos alemães, aos 150. Comparado com eles, o nosso PSD, que esta semana fez uma enorme festa por ter conseguido atingir os 52 anos, ainda usa cueiros. Mas, como se sabe, o mais importante na política não é essa contabilidade. Novo ou velho, o mais relevante é saber se, com a passagem do tempo, um determinado partido cresce ou engorda.
Quando nasceu, o PSD era um bicho estranho. Quem estivesse distraído, pensaria que ele surgiu do nada. Ao contrário dos outros grandes partidos, não era a versão nativa de nenhuma das famílias políticas que atuavam no mundo inteiro. O PS era um seguidor dilecto da Internacional Socialista, que acolitou, socorreu e financiou o partido de Mário Soares. O CDS era um protegido da Internacional Democrata Cristã, que pelo menos uma vez, no Palácio de Cristal, impediu que o partido de Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa fosse varrido pela revolução. E o PCP era, como não podia deixar de ser, um vassalo de Moscovo. Já o PSD — que se chamava inicialmente PPD, Partido Popular Democrático — não tinha quaisquer relações no estrangeiro. Aliás, todas as tentativas de angariar aliados internacionais acabaram em frustração e fracasso. Por isso, o PSD decidiu transformar um problema numa virtude. A dada altura, passou a referir-se a si próprio como “o partido mais português de Portugal”.
Tudo isto era tão atípico que algumas pessoas olhavam para o PPD e viam um extraterrestre. Quando, pouco depois do 25 de Abril, Francisco Sá Carneiro se cruzou com Mário Soares numa festa na embaixada de França e lhe comunicou que ia fundar este partido, o líder do PS estranhou. Coçando metaforicamente a cabeça, perguntou-lhe: “Porquê? Se você é um social-democrata, então basta-lhe entrar para o PS.”
Mário Soares, decididamente, não percebia. Mas o ponto era este: o PPD não tinha uma ideologia distintiva, nem debitava fórmulas teóricas com pedigree internacional; mas, não sendo gaullista, tinha “uma certa ideia de Portugal”. O PPD sempre foi o partido que queria acabar com o mais-do-mesmo. O projeto político que os laranjinhas apresentavam aos eleitores, campanha após campanha, assentava numa vontade de transformação radical do país que pretendia libertar a sociedade do peso sufocante do Estado. Sempre que conseguiu articular de forma clara esse propósito e essa aspiração, o PSD recebeu maiorias de mudança. Aconteceu com Sá Carneiro e aconteceu, mais tarde, com Cavaco Silva.
Claro que, no início, um dos grandes combustíveis do PPD era Sá Carneiro. Hoje, é impossível explicar a pura força magnética que ele exercia sobre um impressionante número de portugueses. Em algumas campanhas, havia eleitores que queriam, simplesmente, tocar-lhe — como se essa fosse a forma mais eficaz de resolver os problemas deles, e do país. Mas, além de carisma, havia método. Quando começou a criar o partido, Sá Carneiro foi atrás de todos aqueles que poderiam dar músculo e força a uma mudança que teria de ser feita contra o “sistema”. Primeiro, procurou dirigentes para o novo partido na Ala Liberal, o grupo parlamentar onde se tinham juntado no marcellismo os deputados que pretendiam modificar a ditadura por dentro, tendo assim mostrado frontalidade e determinação. Depois foi à SEDES, onde estavam as melhores cabeças do reformismo português. A seguir, olhando para o mapa, fugiu ao óbvio e decidiu dar prioridade ao recrutamento na província e no Norte, deixando para o fim Lisboa, onde, como acontece em todas as capitais, se reuniam os situacionistas.
Nem sempre foi fácil. Num momento em que estavam a sentir dificuldades de expansão, os dirigentes do PPD traçaram um plano muito português para chegarem a mais pessoas: queriam “fazer uma campanha urgente nas praias com distribuição de papéis de propaganda e balões e sobrevoo das praias com um avião”; pretendiam contactar “professores primários, veterinários, agentes agrícolas, médicos e padres”; planeavam “abrir em cada concelho um café O Social-Democrata”; e, com uma ingenuidade comovente, decidiram “tentar entrar no clube das donas de casa”. Houve avanços e recuos, houve discussões — e houve cisões. Mas, mesmo no meio das sombras e do nevoeiro, Sá Carneiro conseguiu, num espaço de tempo absurdamente curto, construir uma arma política temível.
Foi isto que Luís Montenegro quis comemorar esta semana no 52.º aniversário do PSD, abusando dos bombos e da fanfarra. Como seria de esperar, tentou apresentar-se como o herdeiro de uma respeitável e invejável linhagem de líderes reformistas. Segundo ele, os seus anos como primeiro-ministro “vão marcar tanto a história de Portugal como os grandes períodos governativos” do passado. É uma ambição estimável. Mas, para conseguir isso, não basta a retórica. No dia em que a capacidade de fazer reformas se esgotar, “o partido mais português de Portugal” morre.