A última semana de campanha promete ser dramática. À direita vai continuar a competição para decidir qual dos candidatos é o legítimo herdeiro do fundador do PSD que morreu em Camarate. Se eu fosse à Chiclets, lançava umas pastilhas com sabor a Sá Carneiro, porque parece que toda a gente gosta de andar com ele na boca. Os bustos de Sá Carneiro já estão tão puídos por se pendurarem neles, que o melhor era haver um responsável por esfregá-los com Halibut depois de cada intereacção. É por os candidatos usarem Sá Carneiro para limpar a porcaria que fazem durante a campanha que há quem lhe chame Piaçá Carneiro.

Tem-se discutido qual dos candidatos seria apoiado por Sá Carneiro, se fosse vivo. Marques Mendes, por ser do PSD? O Almirante, por ser carismático? Ventura, por ser jovem? Cotrim, por ser liberal? Como é evidente, trata-se de uma discussão absurda. Se Sá Carneiro aparecesse hoje no meio da campanha, é óbvio que só teria olhos para um candidato: António Filipe. Passados 45 anos da sua morte, Sá Carneiro ia ficar perplexo por ainda haver comunistas a dizer como é que o país deve ser governado. Anticomunista até ao fim, voltar a Portugal em 2025 e perceber que o PCP ainda mexe é como ter lutado contra a varíola e, passados 40 anos, descobrir que não só não foi erradicada como há quem use as bexigas como acessório estiloso.  No meio daquele boletim, Sá Carneiro escolheria António Filipe para Belém. Não para o Palácio, mas para o Museu dos Coches do outro lado da rua, como relíquia do passado a ser preservada. Creio que seria a primeira vez que teríamos um fantasma a apoiar uma múmia.

Entretanto, à esquerda, acompanham ansiosamente as sondagens. Estudam as projecções negativas de Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto e ficam desiludidos. Mas depois reparam nos números ascendentes de António José Seguro e ficam desesperados. Neste momento, a esquerda vê-se na contingência de pedir aos candidatos que desistam a favor de um candidato de quem a esquerda já tinha desistido.

António José Seguro é a única hipótese de a esquerda alcançar uma vitória que vai ser chorada como uma derrota. É que Seguro é lembrado por duas coisas: ter dito que havia um “PS dos interesses”, representado por António Costa, e ter sido o líder da oposição que não dificultou a vida ao Governo de Passos Coelho durante a troïka. Ao mobilizarem-se para votar em Seguro, os socialistas que espernearam contra a acusação ao PS dos esquemas, que ainda hoje se referem à passividade de Seguro face à troïka como traição e conivência com o Diabo, estão a admitir tacitamente que ele estava certo. Estão a caucionar a troïka e a reconhecer a existência de um PS dos interesses, que por sinal governou Portugal durante 8 anos e que continua a ser dirigido pelos mesmos, digamos, interessados.

Há uma década, António José Seguro foi líder da oposição num período desagradável. Percebeu que Portugal atravessava tempos difíceis, estava intervencionado porque um Primeiro-Ministro do seu partido tinha falido o país e tivera de pedir ajuda externa, e não se aproveitou disso para ganhos políticos. Foi atacado pelo seu próprio lado, ao ponto de ainda agora, na campanha, o colarem “à fome das crianças”. Agora, numa coreografia de ginástica que vai para o Guinness, a lembrar aqueles eventos que os chineses organizam em estádios cheios, prepara-se um flik flak coordenado de milhares de eleitores que ainda na semana passada acusavam Seguro de nem sequer ser de esquerda e de ter sido o capacho da troïka, e que agora vão votar nele. Ainda bem que Seguro é um defensor do SNS. Na 2.ª feira os hospitais vão ser inundados por uma data de gente com hérnias na coluna.