Golda Meir disse uma vez que “podemos perdoar os árabes por matarem os nossos filhos, mas não por forçar-nos a matar os seus. Só haverá paz quando os árabes amarem os seus filhos mais do que nos odeiam”
Há dias uma palestiniana caminhava na multidão pelo corredor de Netzarim, com destino ao Norte da Faixa de Gaza. Estava esfuziante, dava vivas ao Hamas e clamava vitória, como se a destruição e a morte à sua volta não tivessem resultado das acções e das tácticas daqueles a quem vitoriava.
Já no massacre de 07 de Outubro de 2023, bandos de mulheres, jovens e adolescentes, acompanharam os jihadistas no frenesim de violência e saquearam entusiasticamente as casas dos judeus.
Na libertação dos reféns, milhares de homens apinham-se em torno do espectáculo, insultando-os, cuspindo-os, fotografando-os, rindo-se e vitoriando os jihadistas vestidos de Tartarugas Ninjas.
O Hamas encena e comemora a “vitória” porque sobreviveu à guerra e ainda está no controle. Porque os seus líderes sabiam que o Ocidente tudo faria para não deixar Israel completar a tarefa, enquanto a sua estratégia implicasse muitas baixas civis.
Assim aconteceu e com a sua terra e as suas vidas reduzidas a cacos, com milhares de compatriotas mortos, jihadistas, população e até a enorme bolha antissemita no Ocidente, clamam vitória.
Será apenas uma atitude de desafio, ou uma convicção assente numa lógica que nos é estranha?
A guerra, tal como a entendemos no Ocidente é, na maior parte das vezes, racionalmente balizada pela teoria dos jogos. Para obrigar um inimigo a capitular há que cobrar-lhe um preço que ele não pode ou não está disposto a pagar.
Foi assim que a Alemanha e o Japão se renderam na Segunda Guerra Mundial, foi assim que Israel marcou a sua existência numa região onde o Direito Internacional que sustentou a sua pretensão (Resolução 181 da Assembleia da ONU) de nada valeria se não derrotasse claramente no terreno a invasão de vários exércitos árabes. Mas não é isso que se passa em Gaza.
A superioridade israelita é esmagadora, os danos causados ao Hamas, a Gaza e às populações são avassaladores, mas todos eles clamam vitória. Porquê?
Está aqui em acção uma trágica conjunção dos efeitos perversos da postura ocidental no que respeita à guerra, com a filosofia jihadista.
Os países ocidentais, particularmente os europeus, parecem acreditar que estão já para lá da História, que as guerras são reflexos indesejáveis de um mundo antigo e hobbesiano, acreditando que os conflitos são meras questões de polícia, resolúveis em tabuleiros assépticos, limitados por certos valores e regras, como as galantes justas de cavalaria das sagas da Távola Redonda.
E porque pensam e agem nesse quadro de valores, têm dificuldade em lidar com o “outro” que não se regula pelas mesmas regras, não colabora e explora despudoradamente esses limites morais, éticos e legais para sua própria vantagem.
Israel também faz parte do mundo ocidental mas enfrenta o mundo real das guerras existenciais, e por isso os países ocidentais, não estando na linha da frente nem tendo de resolver urgentes dilemas de sobrevivência, limitam-se a sinalizar virtude e pressionam constantemente Israel a não aplicar a força necessária e suficiente para que a “resistência” deixe de fazer sentido. Largos sectores da população europeia, sob o efeito dos flautistas ideológicos do palestinianismo, em maioria nas redacções, manifestam simpatia pelo Hamas, a generalidade da esquerda indigna-se com hiperbólicos “genocídios” e em conjunto com simpatizantes neonazis como o eurodeputado polaco Grzegorz Michal Braun, conspurcam a memória do Holocausto, chamando nazis e genocidas os descendentes das vítimas do nazismo e do genocídio por antonomásia.
No mundo real, num recente incidente em Jenin, no qual foram mortos dois jihadistas, o Hamas comunicou que “o seu sangue não foi derramado em vão” e que as mortes encorajariam “a escalada da resistência e a continuação das heróicas operações”
Está aqui, em essência, a filosofia do Hamas, firmemente fundada no Corão, ou não fosse este grupo um franchising da Irmandade Muçulmana:
Israel é o mal supremo, o culpado de tudo o que está errado no mundo, e o sentido da vida dos palestinianos, como bons muçulmanos é lutar incessantemente contra os judeus, seguindo o exemplo do Profeta, sacrificarem-se a si mesmos e às suas famílias, para causar o maior dano possível a esse inimigo satânico.
São irrelevantes os efeitos que isso tem na vida e no bem-estar dos palestinianos, face ao sagrado e supremo desígnio de causar danos a Israel.
Se isso implicar, como sempre implica, infligir danos brutais aos próprios palestinianos, é um sacrifício necessário e até apreciado. “Prosseguiremos no caminho dos líderes mártires até alcançarmos a vitória ou o martírio, se Alá quiser”, proclamou há dias, logo após o cessar-fogo, um líder do Hamas.
O Hamas existe em função de Israel, a sua identidade resulta da oposição radical aos judeus, ou a qualquer “infiel” independente que ali existisse, não de qualquer aspiração de convivência pacífica e basta ler a sua Carta Fundadora para entender isso.
A questão da identidade não é estranha. A maioria das identidades fortes forma-se e consolida-se na luta contra um hostis externo. A identidade portuguesa, por exemplo, foi-se decantando na luta contra Leão, Castela e muçulmanos.
A identidade “palestiniana” tal como hoje é, não existia antes da formação de Israel. Os árabes da região eram simplesmente árabes sem qualquer pertença nacional e a melhor prova disso é que os territórios de Gaza, Judeia e Samaria estiveram quase 20 anos na posse do Egipto e da Jordânia, sem que os árabes aí residentes sentissem serem “palestinianos” e tivessem constituído o seu estado. A própria resolução da ONU que aponta o caminho de dois estados refere-se a “estado judaico” e “estado árabe”, mas não “estado palestiniano” pela simples razão de que não existia tal identidade. Na verdade eram até os judeus quem mais se identificavam assim. O jornal israelita “Jerusalém Post” começou por chamar-se “Palestine Post”.
Em síntese, a “causa palestiniana”, sendo uma construção recente criada pelo bloco soviético no âmbito da Guerra Fria, precisa de Israel como propósito, como aglutinador, objecto de ódio e projecção do mal. É essa a razão pela qual não tem a paz ou a convivência como objectivo, mas sim a luta, e apenas aceita tréguas temporárias (hudnas) quando necessita de tempo para se recuperar e voltar ao combate cósmico contra o Mal.
Nesta perspectiva as perdas humanas e materiais dos palestinianos, não importam face à grandeza do objectivo que prosseguem, são meros sacrifícios pela causa maior, os mortos são mártires, o sacrifício é sagrado e motivo de orgulho e celebração. Quanto maior o sofrimento, maior o orgulho. A vitimização cénica, com a exibição deliberada de corpos, sangue e destruição, não é apenas um instrumento de propaganda para lograr a vilificação de Israel no Ocidente, mas também uma demonstração de heroicidade e empenhamento total na causa.
Aqui a teoria dos jogos falha redondamente, porque o Hamas e o povo de onde emana, não conectam logicamente as acções e as suas consequências.
Atacar Israel causa danos aos judeus e isso basta como objectivo, mas a enorme destruição que a resposta inevitavelmente acarreta não é contabilizada como preço a pagar, outrossim como uma prova da maldade judaica e incentivo para mais ataques. Para os palestinianos não existe relação directa entre a destruição sofrida e a agressão do Hamas em 7 de outubro e isso está patente em inúmeras reportagens nas quais civis palestinianos se queixam ao mundo da sua desgraça, como se ela tivesse surgido sem qualquer outra razão que não a maldade ontológica dos judeus.
Não há avaliação reflexiva das vantagens e desvantagens de atacar os judeus e, para Khalil al-Hayya, do Hamas, o “7 de outubro continuará a ser uma fonte de orgulho para o nosso povo e a nossa resistência”.
Sentem-se pois vencedores, e o que dizia aquela mulher a caminho do Norte era genuíno e não apenas conversa fiada para os vídeos da propaganda.
A nós, esta estratégia parece insustentável e irracional, mas há aqui uma lógica diferente que nem Israel ainda captou completamente.
E não é por falta de oportunidades.
Os milhares de terroristas, ao longo dos anos capturados e julgado nos tribunais de Israel, sabem sempre que serão libertados, porque os governos israelitas, presos nas malhas dos próprios interditos morais, têm sistematicamente cedido a acordos humilhantes nos quais trocam alguns reféns ou até cadáveres e ossadas, por milhares de terroristas condenados pelos mais hediondos crimes.
Os jihadistas usam deliberadamente a vulnerabilidade que resulta destes interditos. É por isso que combatem a partir de escolas, hospitais, mesquitas, ambulâncias e casas civis. É por isso que alvejam e raptam deliberadamente civis. É por isso que encenam e divulgam sangrentas imagens apenas com crianças e mulheres. É por isso que nos seus relatórios, apenas referem e inflacionam as vítimas civis. É por isso que as desejam.
Porque acreditam que Israel não os irá atacar aí. Porque detectam a “fraqueza” moral de não deixar ninguém para trás e proteger os civis. Porque pretendem manipular o Ocidente usando os seus “decadentes” valores. Porque sabem que a pressão mediática, a camisa-de-forças moral, e a nossa compulsão para sinalizar virtude, irão tornar aceitável e até normal a grotesca troca de reféns por assassinos, irão dar-lhes o cobiçado estatuto de vítimas, irão catalogá-los como uma “minoria oprimida” por uma grande parte da população ocidental que se repoltreia na cultura da culpa e do repúdio de si mesma, e foi condicionada a ver o mundo numa perspectiva marxista de “luta de classes” na qual os palestinianos são a classe oprimida e Israel e o Ocidente os “opressores”, as encarnações do “capitalismo”, do “racismo”, do “colonialismo”, enfim, do Mal.
Nem Israel nem o Ocidente deveriam racionalmente deixar que esta lógica distorcida fizesse sentido para os palestinianos, porque sempre que essa estratégia liberta jihadistas e impõe limitações a Israel, o Hamas continuará a segui-la e a obter ganhos. O desastroso acordo que troca reféns por jihadistas, e mantém o Hamas no controlo de Gaza, está aí como insofismável validação da ideia.
E esta ideia perturbadora sustenta-se, não apenas pela narrativa romântica da “resistência”, mas porque Israel se vê impedido de a invalidar, mostrando no terreno da realidade que ela não traz “ganhos” aos palestinianos.
Israel, como também o Ocidente, tem de voltar ao fio-de-prumo de tudo isto: quem tem escrúpulos em pensar e fazer a guerra em todas as suas dimensões e levá-la até ao fim, é levado a desenvolver meios e métodos para a tornar menos “desagradável” (tornando-a paradoxalmente mais provável), ao apaziguamento e á rendição, em vez de usar os meios necessários para a ganhar e obter assim uma paz sólida.
Há, de facto, uma idiótica linha de pensamento no Ocidente, segundo a qual se ganhar uma guerra implicar a morte de civis, então não se deve lutar. Esta tese, acolhida por ONG’s como a Human Rights Watch ou a Amnistia Internacional, tomadas de assalto por sensibilidades e agendas de extrema-esquerda, entende que a guerra justa é algo que não existe, pelo que as suas categorias morais não fazem sentido.
A verdade é que não se pode destruir uma filosofia como a do Hamas, se se permitir que ela continue a gerar ganhos, ainda que sejam de um tipo que a nossa lógica não reconhece.
O único caminho para a paz exige que essa ideia, alimentada também por organismos e personalidades da ONU que a ensinam deliberadamente nas escolas da UNRWA, seja extirpada das mentes dos palestinianos.
E para isso acontecer há que sair da camisa-de-forças das bem-intencionadas regras prevalecentes, há que ir até ao fim, há que fazer a guerra de modo a que o jihadismo não obtenha resultados, não valha a pena, e deixe de fazer sentido aos olhos dos palestinianos cujos corpos e mentes as Tartarugas Ninjas controlam, pela propaganda e a tiro.
Até lá, o ciclo de guerra, morte e destruição irá repetir-se.