Recuar 10 anos, até ao dia em que o primeiro-ministro José Sócrates oficializou o pedido de resgate financeiro à troika, é um exercício revelador. O distanciamento temporal permite-nos perceber que esse governo socialista fez muito mais do que falir as contas nacionais: introduziu, em Portugal, uma nova forma de fazer política, suportada em factos alternativos, pós-verdades, narrativas e outras designações novilíngua para legitimar o uso reiterado de mentiras. E, apesar da distância que nos separa desses tempos, onde os tentáculos do poder até chegaram à comunicação social, é admirável constatar que, ainda hoje, esse legado da mentira como instrumento político se colou à pele dos socialistas.

Não vou perder tempo a ilustrar o ponto com mentiras proferidas por José Sócrates. Precisaria de mais páginas do que as do processo Operação Marquês. Mas há uma mentira de que nunca me esqueço e que, nestes 10 anos desde a troika, vem a propósito recordar. Em Fevereiro de 2011, a dois meses de solicitar o resgate financeiro, José Sócrates anunciou gloriosamente que Portugal havia sido dos países que melhor havia saído da crise económica de 2009. Ou seja, a narrativa vigente informava que éramos os campeões da recuperação económica pós-crise. Semanas depois, o FMI aterrou em Lisboa.

Há quem agora ache que essas narrativas ficaram na gaveta dos insólitos, entre arquivos históricos. Mas, hoje, elas ainda conduzem a actuação do Governo. Na gestão orçamental, onde o discurso político anunciou o fim da austeridade, mas o Ministério das Finanças se especializou em cativações. Na economia, onde o discurso político declarou o reforço do investimento público, mas os dados mostram como o seu impacto é reduzido. Ou no enfrentar da crise sanitária, quando Portugal rapidamente foi qualificado de exemplo no combate à Covid-19. Recorde-se: empolado pela máquina de comunicação socialista, logo em Abril de 2020, vendeu-se o mito do “milagre português”, resultado da “actuação rápida” das autoridades portuguesas e da capacidade de resposta dos serviços de saúde. Daí até à final da Liga dos Campeões em Lisboa, como prémio aos funcionários da saúde e grande vitória nacional, foi um pequeno pulo. Ou seja, o discurso político assegurou-se em celebrar o país como estando na vanguarda da contenção da pandemia. Só que depois chegou o Natal, o frio e o mês de Janeiro: Portugal pareceu apanhado desprevenido por milhares de casos e mortes por Covid-19, batendo recordes mundiais.

Dedicar-se mais às narrativas, em vez de às reformas políticas, não faz do PS especial. Nos últimos 10 anos, em várias democracias ocidentais, o peso eleitoral de partidos ou políticos promovidos com mentiras aumentou exponencialmente — com Trump, nos EUA, à cabeça. Desde então, nasceram os fact checks e muitas outras formas de verificação de declarações, que reagiram a uma tendência global de desinformação e manipulação da verdade. Ou seja, o PS foi apenas precursor nacional da política da mentira. E, para o bem e para o mal, o PSD não fez o mesmo caminho. Seja Manuela Ferreira Leite, seja Pedro Passos Coelho, seja Rui Rio, nenhum deles poderá ser recordado como líder ziguezagueante ou promotor de narrativas enganadoras — pelo contrário, à sua maneira, cada um assumiu o compromisso de falar a verdade. Talvez uma parte importante do sucesso do PS nos últimos 20 anos tenha precisamente raiz nesse desfasamento: se calhar, as pessoas preferem mesmo que lhes mintam.

A hipótese não é de todo absurda. O sucesso eleitoral de políticos inequivocamente mentirosos é um fenómeno global, de tal modo que há uma investigação crescente sobre o tema, que procura entender o porquê de os eleitores recompensarem (ou, pelo menos, não punirem) estes agentes políticos em eleições. Sabe-se que as pessoas tendem a ignorar a informação que contraria as suas convicções, que adoptam dissimulações se as virem praticadas por outros e que toleram esse comportamento, especialmente quando favorece os grupos a que pertencem. Mas sabe-se também, que, apesar de conveniente e compensadora eleitoralmente, a política da mentira deteriora a confiança nas instituições e no sistema político. Será uma ingenuidade acreditar que, um dia, isso não terá consequências sérias. A começar pela ascensão eleitoral de vozes anti-sistema — lá fora e cá dentro.

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