Ontem, quando subi no 783, percebi que estava com o cartão de transporte errado, sem crédito. Na hora de sair de casa confundira aquele cartão com o outro, que tinha carregado na véspera. O motorista arrancou e eu me sentei no primeiro banco para procurar os 2 euros do bilhete. Eu não tinha.

Dentro do ônibus havia um policial, que me observava, uma vez que viu que meu cartão não passou. Raspei minhas moedas até achar 1,80 euros. Era tudo o que eu tinha. Fui até o motorista e me expliquei, perguntando se deveria descer do ônibus. Ele, meio contrariado, emitiu o bilhete de 2 euros por 1,80. Eu agradeci e disse que na próxima daria os 20 centavos que faltavam. O policial assentiu, com ar de aprovação.

Agora imaginem uma coisa. Imaginem se eu fosse negra. E entrasse no ônibus. E o meu cartão não passasse. E houvesse um policial. E eu ficasse contando as moedinhas da bolsa. E elas não fossem suficientes para o bilhete. Fosse em Portugal ou em qualquer outro lugar do mundo.

Segunda-feira eu e minha mãe estávamos no shopping quando dois menininhos negros de uns 5 e 8 anos estavam saindo de uma loja e o alarme soou. Eles paralisaram. Algumas pessoas ficaram olhando. Nós fomos até eles e dissemos “Tudo bem, esses alarmes às vezes ficam meio malucos”.

O mais velho disse, assustado: “A única coisa que temos é esse caderno que compramos em outra loja”. Eu disse “Sim, também já aconteceu comigo, os alarmes são meios confusos”. Tive que dar a mão para o pequeno, para que ele tivesse coragem de sair da loja. Nos perguntaram se podiam ir embora, para encontrar a mãe que estava na loja ao lado. Dissemos que sim, claro, que a culpa era do alarme da loja, não deles. Nos despedimos, eles foram.

Tudo isso para nos lembrarmos, todo dia, desse negócio chamado privilégio branco. Privilégio de não precisar se desesperar quando o cartão do transporte não passa, privilégio de não ser suspeita aos olhos do policial, privilégio de ficar devendo 20 centavos no ônibus, privilégio de ser alguém que “valida” a saída de duas crianças negras de uma loja com alarme maluco, privilégio de saber que, se um segurança avançasse para cima deles, eu poderia fazer um escândalo e nada aconteceria comigo.

Cheguei em casa e estava passando The Hate U Give na televisão, adaptação para o cinema do livro de mesmo nome da maravilhosa Angie Thomas. Quem não leu, leia. Ou pelo menos veja o filme. Não dá para viver em 2020 sem refletir minimamente sobre esses temas.

Temos que entender o nosso privilégio branco. Temos que entender o que é racismo estrutural. Temos que nos incomodar com uma criança de 5 anos em pânico porque um alarme soou e por ele saber que, desde tão cedo, é visto de forma enviesada. Temos que abominar a frase “Ah, mas agora tudo é racismo”. Porque a verdade é que sim, tudo é racismo. Porque o racismo é a base da nossa sociedade. Nossas empresas brancas, nossas periferias negras, nossa segregação cotidiana. Tudo é racismo, sim. Nós podemos não ter explorado trabalho escravo pessoalmente, mas boa parte dos nossos privilégios é fruto da exploração secular de outras pessoas.

Ontem eu fiquei devendo 20 centavos no ônibus. E tudo correu lindamente a meu favor. E eu tenho a obrigação de saber que a história seria outra se eu não fosse branca.