A notícia da morte de Almirante Nuno Gonçalo Vieira Matias, no sábado passado,  atingiu-me duramente, embora não com total surpresa. Visitara-o no Hospital Militar há poucos meses e percebera com tristeza que o seu estado de saúde era muito delicado. Recebia semanalmente os seus emails, por vezes também telefonemas, de resposta aos meus envios das minhas crónicas semanais neste jornal. E há algumas semanas que tinha deixado de receber as suas respostas. Temia por isso o pior. E o pior aconteceu neste passado sábado, pelas 07h55.

Tendo conhecido pessoalmente o Almirante Vieira Matias em data relativamente recente (1996), posso apenas aqui deixar um sentido testemunho pessoal. Sobre o conjunto da brilhante carreira e obra de Almirante Matias, tomo a liberdade de remeter o leitor para a tocante e abrangente alocução de Almirante Alexandre da Fonseca, proferida em Novembro do ano passado na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, reproduzida na mais recente edição da revista Nova Cidadania.

Recordo sem hesitação que o meu primeiro contacto com Almirante Vieira Matias ocorreu em 1996, por puro acaso, numa recepção na residência do Embaixador americano em Lisboa. Começámos a conversar por acaso, como é frequente neste género de eventos. Mas — o que já não é nada frequente — continuámos a conversar insistentemente e sem interrupção. Ao cabo talvez de uma hora, vozes amigas alertaram-nos para que devíamos tentar conversar com os outros convidados, em vez de ficarmos em intensa ‘reunião’ a dois. Assim fizemos, contrariados, e trocámos rapidamente os nossos contactos.

Lembro-me exactamente das razões que me deslumbraram nesse primeiro contacto com Almirante Vieira Matias, há 24 anos. Havia desde logo a postura nobre de um gentleman, que imediatamente me cativou. E havia mais. Eu tinha acabado de regressar de uma estadia de 4 anos em Inglaterra e de 2 anos na América. Tinha aí descoberto uma nobre tradição marítima de liberdade ordeira e não revolucionária (nem contra-revolucionária) — em que os nossos parceiros anglo-americanos incluíam a ancestral aliança com o marítimo Portugal. À medida que ia descobrindo essa tradição marítima da liberdade ordeira (por sinal orientado por um austro-britânico, Karl Popper, e por um germano-britânico, Ralf Dahrendorf), ia ficando cada vez mais intrigado pela debilidade dessas referências marítimas em Portugal.

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Eis senão quando encontro o Almirante Vieira Matias na já referida recepção diplomática. E eis senão quando ele começa a falar-me da importância crucial da NATO, da sua experiência no norte-americano Naval War College de Newport, da sua admiração pela Royal Navy e pela aliança luso-britânica estabelecida pelo Tratado de Windsor de 1386. Lembro-me vivamente da minha total surpresa perante esta voz tão rara no nosso panorama intelectual, bem como da sua postura enérgica, mas tranquila, e da sua cortesia exemplar. E fiquei para sempre seu admirador — antes mesmo de ter tido o raro privilégio de beneficiar da sua nobre amizade e de conhecer a sua notável carreira naval, nacional e internacional, e a distinção do seu carácter.

Anos mais tarde, tive o privilégio de convidar Almirante Vieira Matias para leccionar no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Foi um reencontro com fantásticas consequências. O Almirante Vieira Matias desenvolveu a partir de então uma área de estudos em Segurança e Defesa, atraindo à docência no IEP militares de topo dos três ramos da Forças Armadas. Com o Professor Adriano Moreira, ambos retomaram a tradição dos Programas Avançados em Estudos do Mar, inicialmente inaugurada também na Universidade Católica, por nosso querido Amigo e Mestre Ernâni Lopes, então precocemente falecido.

Com eles, e sob a sua liderança, o IEP-UCP consolidou e ampliou a sua vocação marítima. Quando criámos, com Mário Pino e Manuel Braga da Cruz, a sala comum D. Henrique o Navegador, o Almirante Vieira Matias ofereceu-nos uma bela reprodução, com a chancela da Academia de Marinha, da Carta Náutica de Jorge de Aguiar, de 1492 — o mais antigo mapa com data e assinatura dos Descobrimentos portugueses, cujo original se encontra na Universidade de Yale. Na mesma ocasião, o Professor Adriano Moreira ofereceu-nos uma bela réplica do retrato do Infante nos célebres Painéis de São Vicente.

Nas inúmeras conversas com Almirante Vieira Matias sobre a natureza marítima de Portugal, lembro-me de  que gostávamos de sublinhar o sentido de equilíbrio e moderação, por contraste com os dogmatismos castelhano e continental, fatalmente atraídos por infelizes dicotomias entre revolução e contra-revolução. Uma das nossas favoritas conjecturas era que as culturas marítimas favorecem o equilíbrio dos navios, sabendo que eles têm de balançar para um lado e depois para o outro, em contraste com os planos imóveis, dogmáticos e centralizados, das culturas continentais.

A este respeito, gostávamos  de recordar que Edmund Burke e Michael Oakeshott — dois clássicos liberais-conservadores não revolucionários, por isso descritos no continente como reaccionários — usavam a mesma imagem de “manter o equilíbrio do navio” para ilustrar o comum sentido de equilíbrio e moderação. E o comum entendimento de que o equilíbrio assenta numa gentil e civilizada oscilação entre dois lados naturalmente diferentes — traduzidos no Parlamento pela concorrência e controlo mútuos entre (pelo menos) dois partidos rivais .

Lembro com saudade as inúmeras longas conversas que mantive com Almirante Vieira Matias sobre estes e muitos outros temas da nossa tradição marítima. A ele lhe devo o muito honroso e inesperado convite para ingressar na Academia de Marinha, primeiro como Membro Correspondente, depois como Membro Efectivo. Também a ele devo o inesperado e muito honroso convite para prefaciar o tocante livro Comandar no Mar (que surpreendentemente acaba de ter uma edição em língua inglesa).

Com lágrimas nos olhos, sei que tenho de terminar; e sei que já abusei da paciência do eventual e raro leitor. (Sei também que ‘um homem não chora’; mas conforta-me saber que Churchill chorava frequentemente quando era o momento). Só que não sei como terminar. Apenas posso recordar as tocantes palavras de Almirante Alexandre da Fonseca na sua homenagem a Almirante Vieira Matias, em Novembro passado:

“O Almirante Vieira Matias é um chefe de família exemplar; com sua mulher, a Senhora Dona Maria Francisca, tiveram dois filhos e três netos. É um homem de valores, de princípios e de causas. É um amigo do seu amigo. É um homem de cultura, um académico. É um líder, um chefe, um Comandante, com quem dá gosto trabalhar. É um marinheiro, um fuzileiro, um militar e um combatente. O Almirante Nuno Gonçalo Vieira Matias é um verdadeiro Patriota, é um Grande Português.”

Post-Scriptum sobre a violência de rua falsamente anti-racista: As habituais patrulhas ideológicas têm usado a legítima indignação contra o homicídio de um cidadão norte-americano por um polícia fardado como pretexto para uso da violência de rua e para vandalização de estátuas — incluindo a de Winston Churchill, líder do mundo livre contra o nazismo e o comunismo. A vergonha dos actos fica com quem os pratica e as nossas democracias liberais têm larga experiência de enfrentar tranquilamente fanatismos de sinal contrário. Danos contra a propriedade, pública ou privada, estão tranquilamente previstos na lei. E decisões sobre que estátuas erguer ou remover também: o debate público sobre esse tema é livre; e as decisões são tomadas pelos representantes livremente eleitos pelos cidadãos, ou por referendos convocados por aqueles representantes. Por outras palavras, não precisamos de ‘entusiasmos’ de sinal contrário. Quem tem alguma coisa a dizer, pode dizê-lo. Quem quiser remover ou manter estátuas, pode e deve apresentar a(s) proposta(s) ao voto dos eleitores ou dos seus representantes. Quem, em vez disto, quiser desrespeitar a lei, deverá ser julgado pela Lei — como aliás está a acontecer com o polícia de Minneapolis, que está em Tribunal.