Parece-me um facto: as figuras mais eficazes, mais combativas e mais populares das direitas europeias são mulheres. Não são figurantes de cartazes eleitorais, muito menos quotas para limpar consciências: são líderes de facto e de pleno direito, ideologicamente definidas, com instinto político, carisma e, sim, resultados eleitorais.

Giorgia Meloni governa Itália e uma coligação teoricamente frágil com mão firme, disciplina partidária e como um farol ideológico agregador. Marion Maréchal e Macarena Olona agitam as águas no campo da direita identitária e soberanista com discursos que não pedem desculpa. E depois há Isabel Díaz Ayuso — a mais perigosa de todas, justamente porque é a mais difícil de desmontar.

Ayuso não é uma “política simpática” nem uma gestora morna. É uma combatente. Transformou Madrid num bastião liberal-conservador e derrotou, em simultâneo, o socialismo central, as esquerdas de todos os folclores, e os barões do seu próprio partido. Governa com uma receita simples: impostos baixos, economia aberta, hostilidade à burocracia estatal, defesa da família, autoridade na segurança, combate cultural sem complexos e um cosmopolitismo racional que deixa a esquerda bem pensante atónita.

Isabel Díaz Ayuso é mais do que uma presidente regional: é um fenómeno político. Conquistou Madrid não apenas pela máquina eleitoral do Partido Popular, mas pela sua capacidade de criar uma narrativa própria — clara, simples e irresistivelmente combativa. A sua política económica é liberal no sentido clássico: impostos baixos, incentivo ao investimento privado, e uma recusa aberta em transformar o Estado num guardião paternalista. Mantém um discurso conservador em valores e segurança, assumindo que a autoridade do Estado é um pilar civilizacional, não uma opressão.

Mas não trata o cidadão como um paciente crónico carecido de assistência permanente, responsabilizando-o individualmente sem abandonar a ideia de comunidade e coesão nacional. Ayuso não tem medo de ser impopular junto das elites mediáticas e de esquerda, recusa calibrar o discurso para caber na cartilha politicamente correta, mas acredita em sociedades plurais e livres. Rejeita o Estado-papá, preserva uma ideia clara de que o progresso não se mede apenas pela redistribuição, mas pela liberdade de criar, empreender e viver sem tutelas. Entendeu que, numa sociedade saturada de discursos politicamente corretos e de respostas diametralmente opostas, gregárias e apenas de sinal oposto, a clareza de defender comunidades de liberdade e ordem pode ser uma arma poderosa. Não foge ao combate cultural: denuncia o intervencionismo, critica a apropriação da linguagem pelas esquerdas e não abdica de conceitos como “família”, “mérito”, “liberdade” ou “cosmopolita”, sem medo de parecer antiquada, retrógrada ou, por outro lado, demasiado liberal ou “a direita de que a esquerda gosta”.

No contexto português, onde a direita tem tendência para se refugiar em generalidades anódinas ou, mais recentemente, numa verborreia quase crónica, esta frontalidade seria quase revolucionária — e é aqui que se percebe porque Portugal está tão distante de ter uma Ayuso própria.

Ayuso é a prova viva de que é possível fazer política de direita, ganhar eleições e liderar sem concessões identitárias à esquerda e sem entrar em identitarismos de sinal contrário. Não pede licença à esquerda para existir, mas também não vive apenas como um contraponto a todo o custo a essa mesma esquerda – existe para além dela.

O paralelo é óbvio: em Portugal, alguém com esta atitude seria neutralizado pelo próprio partido antes de chegar a meio do caminho ou tornar-se-ia uma mera ferramenta semi-burlesca a soldo do chefe. Porque, entre nós, a direita tem pavor de lideranças que fujam ao guião. Prefere dirigentes que não assustem a esquerda, por um lado; ou que se limitem a ser uma esquerda de sinal contrário, por outro. Em Espanha, Ayuso entende que a política não é só economia, é também combate cultural; mas também sabe que o combate cultural sem políticas públicas consequentes não serve nada nem ninguém.

Enquanto lá fora estas mulheres estão a redesenhar o mapa político, por cá continuamos a importar referências e a suspirar “quem nos dera”. É um deserto provinciano, onde as mulheres à direita que surgem são quase sempre perfis decorativos, domesticados, sem densidade política ou megafones do chefe. O futuro político europeu fala com voz feminina e gramática de direita. Quem não entender isto ficará a olhar pelo retrovisor para líderes que governam, enquanto nós discutimos quem fica com a quota na lista de candidatos. A “big new thing” já não está a caminho — já chegou. Mas Portugal continua sem estação para a receber.