A primeira grande boa notícia da semana que passou é sem dúvida a publicação em França de um primeiro livro sobre a obra do historiador liberal britânico Lord Macaulay (1800-1859) [Aude Attuel-Hallade; T.B. Macaulay et la Révolution Française: la pensée libérale whig en débat, Michel Houdiard Éditeur]. A revista Commentaire, fundada em Paris pelo saudoso Raymond Aron, dedica-lhe um longo e elogioso artigo, sublinhando a especificidade reformista e cavalheiresca do grande historiador Whig (antepassados aristocráticos dos liberais).

Macaulay foi com efeito um dos maiores historiadores britânicos. Os seus livros venderam-se na época às centenas de milhares. Mas o ponto principal não é esse. Ele exprimiu o milagre da reformista democracia britânica , em contraste com o conflito entre revolução e contra-revolução no continente europeu.

No centro do milagre reformista britânico, Macaulay colocou o respeito de todas as facções rivais por regras gerais de ‘fair play’ e de ‘gentlemanship’ — expressas na soberania do Parlamento, na Justiça imparcial, na liberdade de expressão, nos direitos pessoais de não interferência por terceiros e no respeito mútuo cavalheiresco (como insistia Jane Austen, devemos sempre dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’, sobretudo para com os subordinados ou para com aqueles de quem discordamos).

O distinto historiador francês Elie Halévy (1870-1937), grande admirador de Macaulay, celebrizou o milagre reformista inglês:

“O verdadeiro milagre da Inglaterra moderna não está em ter sido poupada à revolução, mas em ter assimilado tantas revoluções — industrial, económica, social, política, cultural — sem recorrer à Revolução”.

A nossa saudosa amiga Gertrude Himmelfarb — distinta historiadora norte-americana, filha de imigrantes ucranianos — escreveu em 1985 um famoso ensaio intitulado “Who Now Reads Macaulay?”. Alertava na época para o declínio da imparcialidade, da moderação e da gentlemasnhip nas Universidades americanas e inglesas e para a emergência de disposições radicais e sectárias. Esse alerta de 1985 foi, no mínimo, altamente premonitório.

Só na semana passada, no Reino Unido, o nome de David Hume foi removido de um edifício da Universidade de Edimburgo, por alegadas opiniões racistas. O National Trust britânico acaba de divulgar um anúncio em que denuncia as alegadas opiniões colonialistas de Winston Churchill (de cuja casa de campo, em Chartwell, o National Trust é proprietário). E a campanha woke já atinge também o nome de George Bernard Shaw (que poderíamos talvez descrever como um social-democrata): os estudantes da Royal Academy of Dramatic Arts querem remover o seu nome de um dos auditórios.

Neste contexto, é sem dúvida uma excelente notícia a publicação em França de um primeiro livro sobre o liberalismo moderado e conservador do Whig Lord Macaulay. O simbolismo desta redescoberta pode ser expresso pelo editorial de Fraser Nelson na Spectator [Established 1828] de 19 de Setembro. Passando em revista a ofensiva radical contra o passado, Fraser Nelson alerta para a possível tentação, entre os conservadores, de abraçarem um radicalismo de sinal oposto [uma tentação que, poderia ser dito, está talvez patente em várias paragens peculiares, onde não se abotoa o casaco…].

Em contraste, Fraser Nelson vigorosamente recomenda aos conservadores e liberais que ocupem ao centro os valores da tolerância e da diversidade que estão a ser abandonados pela esquerda moderada — que não quer, ou não consegue, enfrentar a esquerda radical. (Nelson reconhece a decência do novo líder trabalhista, Sir Keir Starmer, mas observa a sua dificuldade em condenar abertamente o tribalismo da esquerda radical). Este editorial da Spectator é seguramente a segunda grande boa notícia da semana passada.

Uma terceira excelente notícia é a recente elevação de Charles Moore — ex-director da Spectator, do Telegraph e do Sunday Telegraph, biógrafo de Margaret Thatcher — à Câmara dos Lordes. Charles é um grande amigo do Estoril Political Forum, promovido anualmente desde 1993 pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Acaba de confirmar a sua participação na próxima 28ª edição do EPF, que terá lugar online entre 19 e 22 de Outubro, sob o Alto Patrocínio do Presidente da República. Vai ser comentador na Palestra Memorial Winston Churchill, no dia 19, juntamente com James Muller (Chairman do Board of Academic Advisers da International Churchill Society) e Allen Packwood (director do Churchill Archive no Churchill College, Cambridge). O orador principal, já agora, será Christopher Sainty, Embaixador do Reino Unido em Lisboa.

Estas já seriam suficientes razões para celebrar a elevação de Charles a Lord Moore. Mas há mais. Charles Moore tem sido há décadas um exemplo de firmeza e moderação na crítica aos radicalismos tribais da esquerda (sobretudo) mas também da chamada direita (um termo que, a propósito, não é utilizado em Inglaterra pelos Conservadores — talvez porque, como explicou Lord Macaulay, os conservadores ingleses, diferentemente dos continentais, são liberais desde pelo menos 1688).

Charles Moore tem ainda uma vantagem adicional: um acentuado sentido de humor. Fui ensinado por Karl Popper e Ralf Dahrendorf (ambos britânicos não nativos) que o  sentido de humor, sobretudo sobre si próprio, é indissociável das boas maneiras no milagre não-revolucionário britânico.

Post Scriptum: Uma quarta potencial boa notícia poderia consistir nos insistentes rumores de que Charles Moore poderá ser nomeado director da BBC. Seria uma excelente notícia. Mas, por favor, não venha a boa notícia a impedir a participação de Lord Moore na Winston Churchill Memorial Lecture do Estoril Political Forum no próximo dia 19 de Outubro.