Texto originalmente publicado pelo portal dos Jesuítas em Portugal, Ponto SJ.

O Colégio da Imaculada Conceição (CAIC), já não abrirá as suas portas no início do próximo ano letivo. Após o fim dos contratos de associação, esgotadas todas as tentativas de manter o Colégio em funcionamento, a Companhia de Jesus viu-se forçada a terminar o seu serviço público à Educação, através desta obra apostólica. Foram 64 anos ao serviço da educação, uma história que agora termina.

Como Diretor do CAIC nos últimos dois anos, deixo o meu testemunho sobre a experiência de fechar um Colégio. Na verdade, o CAIC era muito mais do que uma “escola”, era uma comunidade educativa, era uma “família”, como gostávamos de dizer! Os seus alunos e educadores sentiam-se verdadeiramente membros de uma comunidade: partilhavam dos mesmos valores e conheciam as histórias de vida dos seus colegas e amigos. Cada um era respeitado, aceite e querido. O seu Projeto Educativo não incidia apenas na aprendizagem, mas na construção pessoal de um Projeto de vida e felicidade.

Comunicámos a decisão aos educadores e aos pais no dia 12 de junho, uma quarta-feira. Alguns foram totalmente apanhados de surpresa; outros já suspeitavam que tal pudesse vir a acontecer, mas, na realidade, nunca acreditaram neste desfecho; outros ainda, revoltaram-se contra tudo e contra todos. É indescritível a tristeza, o sofrimento e o desalento vivido por todos: «O meu Colégio morreu!», «a minha casa vai fechar, e agora, para onde é que eu vou?», «não pode ser, tem que haver uma forma de dar a volta!» – foram estas algumas das expressões que ressoaram, por entre lágrimas e soluços, nos dias após ter sido comunicada a notícia.

Fechar uma casa que ajudou a crescer tantos alunos, que foi lugar de missão de tantos educadores, que marcou profundamente a vida de tantas famílias, é uma experiência muito dura.

Pessoalmente, a expressão que me vinha frequentemente à mente era «Em tudo, Obrigado!», que foi o tema do ano letivo 2017/2018. Um profundo sentimento de gratidão se sobrepunha a toda a minha revolta interior. Uma vontade de agradecer pelo serviço educativo de excelência, por tanto bem que este Colégio trouxe à vida de tantos cidadãos portugueses. Mas muitas vezes, este agradecimento não chegava para conter a dor que persiste em tantos alunos, educadores e pais.

A par desta gratidão, acompanha-me uma profunda tristeza. O nosso país perdeu. A par dos vários Colégios que tinham contratos de associação e que já fecharam, o país perdeu mais uma escola de qualidade, onde os seus alunos, de todas as classes sociais, eram felizes! O país perdeu uma comunidade de educadores dedicados, incansavelmente entregues ao seu trabalho e aos seus alunos, e que agora encaram o desemprego. O país perdeu um edifício que formava quase 1000 alunos, com equipamentos de qualidade, situado num espaço verde inigualável. O país e a Igreja portuguesa perderam um espaço de formação de boas pessoas e bons cristãos, uma comunidade evangelizadora, que será agora dispersa por outros lugares e outras escolas, onde não irão ter essa mesma oportunidade de crescerem com os valores do Evangelho.

Apesar de tudo, desejamos tentar manter um apoio pastoral e espiritual à comunidade dos ex-alunos do Colégio, assim como a outros adolescentes e jovens que quiserem crescer na sua fé, através da continuidade dos Grupos de Vida Cristã (GVX). Porque esta comunidade tem já bastantes mães, pais e antigos alunos comprometidos com a missão de viverem animados pela espiritualidade inaciana. Podem fechar-nos a porta, mas não nos fecham o coração.

As razões de toda esta destruição já são conhecidas, são ideológicas. Dar a primazia à escola pública, cortando a direito nas escolas com gestão privada, as quais oferecem um Projeto educativo alternativo, sem qualquer avaliação do seu desempenho ou consideração pelas preferências das famílias. No fundo, o nosso Governo está a limitar as escolhas educativas das famílias portuguesas, concentrando a oferta de educação nas escolas geridas pelo Estado. O CAIC, instituição conceituada e reconhecida na região, sente-se impotente para contrariar uma decisão unilateral que asfixiou todas as suas possibilidades de sobrevivência. As grandes instituições levam anos a construir… e apenas a assinatura de um político a destruir.

Preocupa-me o rumo da Educação em Portugal. As políticas públicas que excluem a diferença e concentram cada vez mais as elites nos Colégios privados, onde o preço da propina é o critério de admissão. Por outro lado, vão-se enchendo as escolas públicas (algumas com 3000 alunos), onde cada pessoa é anónima. Preocupa-me o monopólio estatal da educação, num afã de controlar tudo, impor currículos e programas, agendas e modos de pensar. Mais ainda, o modo como se formam os alunos para o facilitismo, para a desumanização nas relações e para a superficialidade. Preocupa-me por fim que, silenciosamente, várias escolas que prestavam um serviço público de qualidade, situadas em zonas interiores do país, estejam a perder o seu apoio e os seus alunos, acabando por fechar. E que tantos fiquem indiferentes diante desta tremenda injustiça.