Se pensarmos que o programa europeu Horizon 2020 tinha 80 mil milhões de euros para financiar, ao longo de 7 anos, projectos de investigação e inovação, facilmente se pode concluir que o potencial de impacto na vida das pessoas poderia ser tremendamente positivo. Facilmente? Bom, através destes projectos, o programa, superiormente coordenado pelo Comissário português Carlos Moedas, espera ajudar à criação de emprego e de valor para a economia europeia.

Contudo, em Portugal e em muitos outros países de estrutura semelhante, as empresas e entidades ainda não estão a aproveitar devidamente as oportunidades do ambicioso programa, apesar de os resultados alcançados até agora serem bem mais interessantes do que os obtidos nos programas anteriores.

De forma mais simples: as PME preferem ainda recorrer aos fundos estruturais nacionais – com menos dotação financeira e menos ambiciosos, mas com maior possibilidade de aprovação – do que apresentar uma candidatura à “liga dos campeões” que é o programa europeu. Neste, apesar dos valores e taxas de financiamento serem muito mais interessantes e a perspectiva de networking internacional possibilitar outras perspectivas, as taxas de sucesso são menores, pois também a concorrência é maior.

Como poderemos alterar este comportamento? É que se acrescentarmos a este facto as (ainda) grandes diferenças, em matéria de estruturas científicas e de inovação entre os vários Estados Membros, compreende-se porque afirmo no relatório de avaliação intermédia elaborado pelo CESE – Comité Económico e Social Europeu -que o simples aumento do orçamento do programa para as actividades de promoção da ciência e inovação na sociedade, não contribui por si só para mudar a perspectiva do cidadão comum relativamente ao impacto destas na sua vida! As pessoas precisam de sentir as mudanças que decorrem de uma sociedade mais inovadora e cientificamente mais preparada. E que a Europa pode liderar essa mudança na melhoria da qualidade de vida dos países.

É também por isso que defendemos, no relatório, melhorar o financiamento de base da investigação e inovação nas regiões europeias menos bem preparadas, antes de reforçar a tónica na chamada Investigação e Inovação Responsáveis, com impacto directo e mais facilmente visível na vida das pessoas.

É necessário continuar a apostar na simplificação das regras, na adopção de uma linguagem mais clara nos convites à participação no programa democratizando o círculo de candidatos, na criação de oportunidades de financiamento para projectos de pequena e média dimensão mas com grande impacto e a inclusão dos meios de comunicação social como parte do processo, por exemplo, divulgando os casos de sucesso, na medida em que é essencial reforçar a sensibilização junto dos cidadãos.

A Europa tem mais 3 anos para implementar um programa do qual se espera muito. As taxas de sucesso das candidaturas submetidas não são extraordinárias e a execução financeira, não sendo má, poderia estar bastante melhor tendo em conta o esforço de simplificação efectuado e sempre actual.

Muito do sucesso do Horizon 2020 passa seguramente pela mudança de mentalidade na sociedade relativamente às actividades científicas e de inovação. É por isso que uma maior interacção entre universidades, empresas e organizações da sociedade civil e a participação dos seus intervenientes em órgãos e comissões de investigação e inovação, pode ser decisiva para esta mudança e para uma melhor execução do programa.

E o que pensam as pessoas sobre isto? A comunidade científica tem-se pronunciado de forma muito segura sobre as potencialidades das acções do Horizon 2020 mas também tem alertado para a necessidade da União Europeia abordar toda a cadeia de investigação e inovação, desde a investigação fundamental até à investigação centrada nos produtos e serviços. Num relatório anterior, da autoria de um investigador de enorme competência e mérito, o CESE referia que “só através de um apoio equilibrado em toda esta relação se poderá garantir que a produção de competências resultará na aplicação destas e assim trazer benefícios económicos e societais”, ie, na vida dos cidadãos.

Não está assim, portanto, em causa a “bondade” dos três pilares de financiamento que o programa preconiza – excelência científica, liderança industrial e desafios societais. O que se pede é que exista um equilíbrio razoável entre estes pilares sobretudo percebendo que os impactos decorrentes dos projectos, o período de implementação, a alavancagem e sobretudo, o valor acrescentado, será necessariamente diferente consoante os países.

Muitas vezes ouvimos a queixa de que “as universidades e as empresas não colaboram”. Esta afirmação, na minha opinião cada vez menos verdadeira, está em linha com outra provavelmente igualmente preocupante e mais perceptível no relatório que elaborei com base na amostra recolhida. É que há na verdade um grande desconhecimento por parte do cidadão comum sobre o impacto que pode ter na sua vida o resultado da investigação científica e das actividades de inovação. Em linguagem simplificada, as pessoas “não estão convencidos de que a colaboração entre as universidades e outros centros de saber e o sector privado pode melhorar o seu bem-estar”. E todos temos de ajudar a alterar este sentimento.

Importa também explorar a ideia de criar cursos de inovação em jornalismo ou um prémio de jornalismo no domínio da inovação para facilitar um maior entendimento das famílias – afinal os utilizadores finais dos trabalho de investigação e inovação- sobre o que pode o Horizon 2020 fazer pelas suas vidas.

Tudo isto para mostrar que inovação e investigação científica, não é rocket science! É mesmo o que pode melhorar a nossa qualidade de vida para nos fazer ainda mais orgulhosos de pertencer a uma Europa de todos e para todos. Simples não é?

Link para o relatório na íntegra aqui.

Gonçalo Lobo Xavier é vice-presidente do Comité Económico e Social Europeu (CESE), indicado pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP). É, também, “board advisor” da AIMMAP (Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal).