Existe entre a Fala e o Silêncio uma faixa íntima e reservada por onde se filtra o pensamento no seu trânsito para o público. É da adivinhação da textura e da espessura dessa “estação intermédia” a caminho da comunicação que, de uma forma geral, formamos ideia, apreciamos conformidades, construímos opiniões sobre os nossos alvos de escolha em situação de interpelação. Entendo-a como uma espécie de velatura do raciocínio, igualmente proficiente e profícua, mas que, mais na ordem da sensibilidade e da intuição, com ele gera e alimenta a convicção.
Vem isto a propósito do frenesim recém-gerado relativamente à apreciação dos já-em- pista ou possíveis-futuros candidatos à Presidência da República, para as próximas eleições de 2026.
Devo confessar que ainda não cheguei a esse patamar, e, dado o ruído bélico que nos assola, ainda não consegui o silêncio interior necessário para assentar ideias sobre o assunto. Porém, não deixo de notar que, dos vários motes lançados a propósito, um dos tópicos que se levanta é precisamente a apreciação, em forma e em fundo, da Palavra de cada candidato.
Quanto a isto, não estou por ora a pensar em termos específicos, como os político-filosóficos, económico-financeiros, de gestão ou sociais ou até simplesmente retóricos que porventura os informem, mas estou tão só a tentar formular um juízo equi-diferenciativo que me permita, a partir daí, “assentar praça” numa escolha justa.
Ora nestas posições e com estes propósitos, falar todos eles têm de, e, com posições ondulantes, sobre quase todos os mesmos temas, aventam soluções, assumem compromissos, levantam o dedo em riste para ameaçar, condenar ou profetizar…Pelo que, nesta posição de candidato (nada a ver com o que o seu étimo latino candidatu- “vestido de branco”, ‘ingénuo’ , ‘puro’, indicia…) a FALA é um derivado indispensável. Público e comprometedor. E, a meu ver, um derivado do exercício, verdadeiramente “preciso” (no seu duplo sentido), que se desenvolve naquela faixa entre FALA e SILÊNCIO de que acima falei.
E se há regras mais ou menos imperativas para gerir a FALA (que tal umas liçõezinhas de Retórica?) o mesmo não acontece, ao que se sabe, quanto ao SILÊNCIO, ou seja, o como medir, guardar ou interromper com correção e efeito. (Claro que tal já não é verdadeiro para a Música, mas aquilo de que falamos é realmente outra música…)
Sabemos que o nosso espaço mediático está enxameado de regras e receitas de múltiplas teorias para a COMUNICAÇÃO. Segui-las a nu denuncia falta de prática, sectarismo ou manha. Elaborar sobre elas implica riscos e passos em falso que nem todos sabem ler adequadamente, porque, a este nível, é preciso um tempo em que se somem audição e interpretação.
É preciso ter a noção de que a Palavra tem por garante e caixa de ressonância o Silêncio, que lhe propicia o lugar e o meio de se materializar em Construção, de realização audível. Qual ela seja, no concreto do pormenor, ver-se-á espelhada na Fala.
Vem tudo isto a reboque dos nomes dos candidatos – apresentados nestas primícias com seus curricula e seus propósitos condutores – anunciados para próxima eleição presidencial. Não tão próxima quanto isso, mas como por ora o futebol amainou, para manter o povo alerta, aqui temos este outro (nobre) campeonato aberto a propostas, contrapropostas e apostas.
E aí vem a fatal pergunta, ingénua ou impertinente: “ Em quem é que você vai votar?”. E logo se me ativa a engrenagem “anteverbo” para enfrentar a questão desta tão previsível gravidez – estamos precisamente a 8 meses da délivrance…
E é aqui e agora que, quer se queira quer não, se alevanta a inevitável faina de comparação com o PR cessante. Para se nos evidenciar que Marcelo é, doa a quem doer – até ao próprio – com os seus defeitos, qualidades, conseguimentos e azares, a fasquia-chave para a base de comparação. De facto, nos dez anos em que, por palcos e púlpitos, em meio do público ou do povo, sempre extremoso e companheiro, por tática, dever de ofício, amor à arte ou tão só a si próprio, Marcelo foi deixando de si selfies mais que suficientes para que os portugueses lhe fizessem o retrato, lhe conhecessem as posturas, lhe decifrassem as imposturas.
Convém esclarecer que, neste particular, não estou a tomar Marcelo Rebelo de Sousa como modelo, mas tão somente como exemplo. Exemplo do quanto exigiu e produziu um homem inegavelmente superdotado e superpreparado – universitário brilhante, mestre conferencista, constitucionalista histórico, comentador experimentado, analista inveterado, duma curiosidade sempre acesa e omnidirigida, dirigente político culto e irrequieto – que não pode de forma alguma deixar de imprimir uma marca que assina obviamente um passado, mas que não deixa de se projetar no futuro como um “não menos que isto” ainda que diferente, em aberto a todos, que não há nisto exclusividade ou monocromia. Todos por natureza somos diferentes e, nestes patamares devemos absolutamente sê-lo para garantia da(s) representatividade(s) e da convivência no/com o mundo, cada vez mais intrincada e agressiva, volúvel e precária.
E não esqueçamos que sendo Marcelo tomado como exemplo, configura um valor em escala, uma medida graduada, que não remete de todo para a igualdade mas apenas para a equi-valência.
E aqui, perdoe-se-me o abuso, socorro-me dum passo do texto de Pedro Norten[1] que diz, bem por claro, aquilo que penso, visto do lado de Rebelo de Sousa: “ Constrangido pelo fato apertado dos seus poderes constitucionais, Marcelo escolheu fazer da palavra a sua arma. A opção , até porque o colocava nos antípodas do estilo rígido de um Cavaco tornado impopular, era obviamente inteligente (como quase tudo no Presidente). Os resultados práticos desiludiram. Marcelo levou o exercício longe de mais. Comentou o que era importante, o que era acessório e o que era francamente supérfluo. Fez-se refém do seu próprio estilo. Obrigou-se a dispensar o silêncio. Momentos houve até (lembram-se do jantar com os correspondentes estrangeiros?) em que a verborreia roçou a irresponsabilidade. A palavra presidencial banalizou-se, a arma virou-se contra o próprio”.
Mas malgré tout, com Marcelo tivemos a felicidade de uma Palavra – elaborada ou espontânea, fértil ou de mera circunstância, in vivo ou traduzida – escolhida e entregue em total liberdade. Como filtro dessa Liberdade Maior que ele tanto e sempre defendeu, ajudou a enraizar, no teor e no exercício, e nos permite hoje usar, com á vontade, convicção e até humor, “a capacidade de conhecer em quem se vota e de entender quem nos representa”[2].
E neste prisma, apesar de consciente de que cada palavra dita um silêncio insuspeitado, direi, “vindo abaixo ao meu jardim”, o que penso do Verbo prenunciador dos candidatos em praça – o que nada tem a ver com escolha, mas apenas com as primeiras impressões para quem olha (de olheiro…):
Um Gouveia e Melo de palavra inábil, malpronta e trôpega; um Marques Mendes cediço, espécie de metrónomo sobranceiro, igual ao d’antes e sem chiste; um José Seguro de torna-viagem, de palavra bem arrumada, sonoridade ajustada à circunstância, compostura oral um tanto ancien regime, mas tudo isto ao nível dos “primeiros votos”…
E aqui chegamos a um por enquanto em que apenas temos como promessa as coreografias FALA / SILÊNCIO capazes de nos aliciar (e deliciar, se possível), prontos para todas as instigações, investigações, interrogações, dado que, agora como sempre nestas lides, “[…] as perguntas portuguesas já raspam as solas nos bastidores, doidas por entrar em cena”.[3]
[1] No seu artigo do PÚBLICO de 17.6.2025
[2] Frase de António Barreto, na sua crónica do PÚBLICO de 21.6.2025
[3] Frase de Miguel Esteves Cardoso, PÚBLICO, 21.6.2025