Davos é o encontro anual da elite política e económica global na Suíça. É uma forma inteligente e barata de um pequeno Estado europeu recuperar centralidade estratégica. Há muito que defendo que Portugal devia organizar o “seu Davos”, por exemplo no campo da segurança marítima. Temos o potencial para ser uma ponte, mas para isso temos de investir alguma coisa nos alicerces. Em vez disso preferimos estar dependentes dos humores dos donos da Web Summit. Trump foi eleito com uma retórica de rejeição da elite global e “globalista”, o que está a fazer então em Davos? Claramente, a sua real queixa era não ser bem aceite no meio, e como tantos outros populistas gosta da adoração do povinho, mas prefere a companhia lucrativa de bilionários.
Carney acertou e Davos errou
O tema de Davos este ano era o “espírito do diálogo”. O Financial Times, que é suposto perceber bem a elite global, traduziu da gíria de Davos: os idiotas estão no poder e é preciso falar com eles. Mas Davos estava errado. Quem esteve certo em Davos foi o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. O seu discurso foi aplaudido de pé, mas a grande questão é saber se os líderes europeus vão continuar de pé, ou se voltarão a seguir o exemplo lamentável de “agachamento estratégico” de Mark Rutte. O antigo primeiro-ministro holandês foi eleito secretário-geral da NATO, mas age como se fosse o moço de recados de Trump. O último feito de Rutte parece ter sido esgalhar uma proposta nebulosa sobre a Gronelândia com o presidente dos EUA. Rutte garante que não foi discutida a cedência de soberania dinamarquesa, os trumpistas dizem o contrário. O que é certo é a Dinamarca não esteve presente na discussão, foi meramente informada. Ninguém de bom senso questiona a necessidade de os países europeus falarem com os EUA, seja quem for o presidente. A respeito cabe dizer que o governador da Califórnia, Gavin Newson, foi a Davos mostrar que o disparate na política norte-americana não é monopólio de ninguém, ao atacar os europeus para não fazerem o trabalho de oposição eficaz a Trump que lhe cabe a ele e outros líderes do Partido Democrático fazer. Eu sempre fui um grande defensor da aliança com os EUA, mas não tenho vocação masoquista, e nunca vi vantagem analítica em confundir desejos e factos. A grande questão é em que termos devemos falar com os EUA. É evidente que, desde logo, devemos fazê-lo sem ilusões sobre o momento atual da política norte-americana.
A tentação de ceder ao mais forte sempre existiu. E, diga-se, até pode resultar, se a grande potência tiver objetivos limitados, estiver disposta a compromissos razoáveis e duráveis, e tiver um histórico de os honrar. Mas com imperialistas predatórios que não aceitam limites à sua ambição – como Napoleão ou Hitler – as cedências só pioram a situação, só adiam o inevitável. Se a Europa quiser continuar a ter Estados livres, independentes e relevantes precisa de mostrar que não haverá compromisso com o regresso descarado do imperialismo predatório e sem limites, venha ele de onde vier. Como disse Carney as pequenas e médias potências têm de se coligar para estar sentados à mesa e evitar fazer parte do menu.
Trump recuou
A validade do que disse Carney ficou demonstrada no próprio dia. Trump brindou-nos com a sua habitual incontinência verbal e indiferença a factos e nomes de países – Gronelândia e Islândia é tudo o mesmo. (Um colega norte-americano dizia-me que os islandeses foram à capital norte-americana nos últimos dias para perceber em que ponto estavam as relações com os EUA, imagino que estejam mais preocupados, que sejam os próximos.) Das poucas afirmações claras e úteis de Trump foi afirmar que não ia usar a força contra os aliados na Gronelândia. Horas depois Trump veio dizer que também não haveria mais tarifas contra a Europa. O que o fez recuar? Rutte não foi certamente. Foi a decisão corajosa da Dinamarca – um Estado com mais de mil anos, que já perdeu e ganhou muitas guerras e muito território – de rejeitar ser chantageada pelos EUA, inclusive pondo tropas no terreno. Foi um apoio claro a essa posição dos principais países europeus. Foi o facto de o Parlamento Europeu ter suspendido a aprovação do acordo comercial com os EUA, com que muitos se iludiram que se tinha comprado a boa-vontade de Trump. Foi, por fim, o facto de o mercado norte-americano ter caído, e de cada vez mais parlamentares e cidadãos nos EUA rejeitarem esta posição de Trump: em todas as sondagens desde Agosto, mais de 70% dos norte-americanos opõem-se à anexação forçada da Gronelândia. A Europa ainda tem amigos nos EUA, inclusive na direita conservadora, mesmo que estejam marginalizados.
Claro que qualquer posição de Trump é sempre temporária e a sua próxima declaração é imprevisível. O que pode e deve ser consistente é a reação da Europa, do Canadá, de outros países do Ocidente global, deixando claro que há linhas vermelhas nas relações com os EUA que não serão objeto de negociação. O respeito pela nossa integridade territorial devia ser a mais evidente dessas linhas vermelhas para todos os verdadeiros patriotas na Europa.
As lições da história
Carney também está certo em sublinhar que a história mostra que é falso que os mais fracos nada podem fazer para se defender. Citou Vaclav Havel, um herói do combate às ditaduras comunistas, que pareceram invencíveis durante décadas. A história é um cemitério de grandes potências que confundiram terem grande poder com ser omnipotentes. É um erro tão frequente que até temos um nome para isso nas Relações Internacionais – overstretch – que podemos traduzir como o equivalente diplomático de ter mais olhos do que barriga, dá indigestão e pode ser fatal. Há inúmeros conflitos assimétricos ao longo da história que terminaram com a derrota dos mais fortes. Qual é a chave para isso acontecer? Ter vontade de resistir, combater de forma inteligente, e encontrar bons aliados.
Quanto tempo duraram os impérios de Napoleão ou Hitler construídos com base na “lógica” de esmagar aliados? Do Afeganistão à Ucrânia não nos faltam exemplos recentes de atores mais fracos que resistiram com sucesso a grandes potências. É verdade que os europeus, hoje, têm muito a perder, e, por isso, compreensivelmente, querem evitar conflitos armados. Convém também recordar, no entanto, que os norte-americanos também têm sido muitos claros de que não querem novas guerras custosas, e Trump prometeu isso mesmo. E, efetivamente, temos visto operações militares muito limitadas, com risco mínimo e a possibilidade de declarar vitória em poucas horas. A Europa devia mostrar que é capaz de fazer frente à Administração Trump, de a fazer pagar um preço económico elevado. Desde logo manter suspenso o acordo comercial até esta questão estar resolvida, e já agora a da Ucrânia. Deixar claro que vamos deixar de ser os maiores compradores de exportações de armas norte-americanas, algo de que Trump gosta muito, e isso pode acontecer gradualmente ou bruscamente. E, até, se forçados a isso, podemos negar a possibilidade de operações militares rápidas com resultados garantidos de que Trump gosta. A força – militar e económica – é, infelizmente, a única linguagem que o trumpismo parece perceber e respeitar. Veja-se o respeitinho com que Trump fala de ditadores como Xi, Putin ou do monarca comunista da Coreia do Norte.
A Europa entre a coesão e a irrelevância
Há, realmente, como dizem Trump e Vance, uma ameaça interna à defesa eficaz dos interesses dos Estados e dos valores mais nobres da civilização da Europa: a liberdade e a universalidade dos direitos humanos. Essa ameaça a uma Europa forte e livre vem da polarização extrema promovida pela esquerda radical woke e pela direita radical nativista, ambas grandes promotoras da política identitária no seu pior, frequentemente também putinistas e trumpistas mais ou menos envergonhados. É ver a votação lamentável no Parlamento Europeu – mais um exemplo da famosa falta de democraticidade das instituições europeias – em que uma estreita maioria, que combinou os votos da esquerda radical e da direita radical, tentou sabotar o acordo da UE com o Mercosul. Este acordo é fundamental para a estratégia de diversificação geoeconómica da Europa. É potencialmente muito positivo para os exportadores portugueses. Viu-se, para já, atirado para as calendas judiciárias. Trump, Putin, Xi agradecem.
Carney tem razão sobre a forma como os europeus deviam lidar com este admirável mundo novo. Vimos em Davos sinais positivos nesse sentido de vários líderes europeus, como Macron e Mertz. É, sobretudo, preciso agir com rapidez e robustez. Ora, como Carney também afirmou, isso provavelmente só será possível fora de grandes instituições multilaterais, com demasiados membros, demasiadas regras, demasiados vetos, em coligações voluntárias orientadas para resultados concretos. Muito pouco pode ser dado como garantido nestes tempos de elevada incerteza, exceto que o passado não voltará, e será um erro custoso tentar apaziguar imperialistas predatórios.