Rádio Observador

Ministério Dos Negócios Estrangeiros

Do regresso da estratégia às faces de Jano /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho

Santos Silva insiste recorrentemente no pitch: somos europeístas e atlantistas, mas “autónomos” nas relações com a China. O problema é que os nossos aliados não parecem nada convencidos pelo argumento

Se a primeira década deste século foi marcada pelo terrorismo, as restantes serão definidas pela questão chinesa. Na arena internacional, quando o confronto direto cai, cresce a importância do longo-prazo. Isso vê-se no estabelecimento das prioridades, por exemplo, do Departamento de Estado norte-americano e também no despontar de preocupações geopolíticas no seio da União Europeia. Poderá falar-se, ou pelo menos perguntar-se, se há um regresso da estratégia às relações internacionais.

No fim-de-semana em que Augusto Santos Silva veio, mais uma vez, relativizar a iniciativa Belt and Road, Miguel Monjardino diagnosticou no Expresso uma dialética que auxilia o debate: por um lado, a visão estratégica (“dominante na região euro-atlântica”) e, por outro, a visão geoeconómica (de “ambições industriais, económicas e financeiras”).

Atualmente, de qual destas mais se aproximará o posicionamento português?

O ensaio assinado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros no passado domingo oferece uma perspetiva que, consoante a embaixada, poderá ser lida como declaração de intenções ou como nota explicativa. Mas de pouco serve ler Santos Silva, hoje crescentemente pressionado pelos aliados tradicionais de Portugal, sem ouvir o que Santos Silva disse sobre política externa no último seminário diplomático em que participou.

Em uma hora e dezassete minutos, o ministro, na sua característica elasticidade intelectual, foi da geometria ao divino. Primeiramente, modificou o eixo sob o qual usualmente se debate a política externa portuguesa. De um quadrilátero para um hexágono – assumindo um recente “estreitamento de relações” com a China e com a Rússia – e, depois, para uma série de círculos concêntricos com Portugal ao meio. Uma mente mais humorada suspiraria que, de facto, o MNE tem andado às voltas – mas adiante.

Nos pressupostos mais básicos, não há forma de desgostar do proferido. Sem hesitações, Santos Silva utiliza expressões próprias de um governante do arco democrático. Não renega a importância do nosso património civilizacional (“Somos ocidentais”), chegando mesmo a avisar que “nós estamos do lado da ordem internacional liberal que os revisionistas querem perturbar” e não se colocando à margem do confronto entre “regimes democráticos e regimes autoritários”.

De seguida, o ministro executou uma análise propositadamente realista na sua aparência. A pertença à NATO não é “pertinente” nas nossas relações com os países da América Latina; a força da União Europeia não é ainda “suficiente” para fazer valer os seus interesses nas Nações Unidas. Para Santos Silva, e esta coluna já o havia subscrito, há um “auto-enfraquecimento do Ocidente” e uma ordem internacional que vai sendo “questionada por si própria”.

Terminando, como prometido, no divino, Santos Silva proclamou um novo deus a adorar. Na política externa, segundo o ministro, Portugal não deve simplesmente ser Hermes (“o deus mensageiro”), mas também ser Jano (“o deus das duas faces”). Ora, meu caríssimo leitor, para o nosso MNE, não haveria ato de contrição mais apurado do que este. E não há dossier em que Augusto Santos Silva mais tenha encarnado Jano do que o dossier chinês. Ao associar-se à divindade romana que simboliza a mudança e o “significado da transição”, o MNE está a dizer-nos, de forma mais clássica do que musical, que os tempos estão a mudar. Que, para ele, o interesse nacional estará melhor assegurado se Portugal envergar as tais “duas faces” de Jano.

Desde o seu início de mandato que o ministro dos Negócios Estrangeiros procura, menos literariamente, vender a política externa portuguesa como excecional e específica, com “um papel próprio a desempenhar no multilateralismo” e uma liberdade de atuação na arena internacional correspondente a uma “mais-valia” para os nossos aliados. Apresenta-nos como “ponte” entre uns e outros, eventualmente com uma face de Jano virada para cada margem. Santos Silva insiste recorrentemente no pitch: somos europeístas e atlantistas, mas “autónomos” nas relações com os nossos parceiros (como a China) e isso será uma “mais-valia” para os nossos aliados (como os EUA e a UE). O problema é que os nossos aliados não parecem nada convencidos pelo ponto do sr. ministro. O seu texto publicado esta semana (“Nós, a Europa e a China”) não é mais do que uma assunção desse problema.

Portugal não pode esperar que o aprofundamento das suas relações comerciais e económicas com a China seja indiferente às suas relações políticas e militares com os Estados Unidos da América – especialmente quando o investimento infraestrutural, dos portos ao 5G, tem interferência óbvia na gestão da informação e da segurança. Ao contrário do que escreveu o ministro, a Belt and Road é mais do que uma iniciativa que promove “as ligações entre a Ásia e a Europa através de investimentos em infraestruturas e redes”. É, em síntese, muito mais do que dinheiro: é estratégia. Santos Silva sabe-o ou não seria “segurança” a palavra mais repetida no seu ensaio.

Porquê, então, esta opção? Se a constatação da mudança já é unânime, por que não clarificar o “significado da transição”? O ministro não se coíbe de saudar o consenso, o debate e o “escrutínio público”, mas raramente concretiza esses princípios. Estaremos, certamente, a perguntar à face errada de Jano.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
PS

Não subestimem Pedro Nuno Santos /premium

Sebastião Bugalho

A ideia de que o pedronunismo se resume a um fenómeno ativista é profundamente desinformada: eles andam aí, nas agências de publicidade, nos escritórios de advogados, nas vilas de Aveiro, nas redações

Política

A alegada universalização do passismo /premium

Sebastião Bugalho
417

O problema de admitir que a falta de dinheiro não mudou com a ideologia é que toda a porcaria que foi escrita contra Passos (o "ajoelhar" a Merkel...) era, no fim do dia, apenas lidar com a realidade.

Corrupção

E da crise do PS? Não se fala? /premium

Sebastião Bugalho
596

O PS tem de decidir se quer ser um partido verdadeiramente ativo contra a corrupção ou um partido cujo silêncio não significará mais do que complacência perante a sua própria identidade.

Serviços públicos

O melhor dislate do ano

Fernando Leal da Costa

Que mania, a dos nossos concidadãos, que insistem em usar os serviços que lhes disseram ser públicos. E, logo que precisam, vão todos ao mesmo tempo. É muito irritante.

PSD/CDS

35 horas: outro vazio de representação /premium

Alexandre Homem Cristo

PSD e CDS já não defendem a convergência dos sectores público e privado (40 horas de trabalho semanais). Quem representa, então, os eleitores que compreenderam a sua medida em 2013? Ninguém.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)