Começa-se sempre com os factos:

  • Os EUA eram, até há duas semanas, aliados da Ucrânia contra a Rússia. Forneciam armas, munições, informações, conselho, etc.
  • Em campanha, Donald Trump prometeu acabar com a guerra em 24 horas.
  • Após conversar com Putin e logo depois da reunião de Riyadh entre Rubio e Lavrov, chamou ditador e comediante a Zelensky, e afirmou que a Ucrânia tinha recebido 350 mil milhões de dólares sem dar nada em troca.
  • Trump quer que a Zelensky faça, sob ameaça, um acordo que concede aos EUA o acesso a várias riquezas de Ucrânia. Uma extorsão de manual a um povo que enfrenta uma guerra existencial.
  • Na Casa Branca, em directo para todo o mundo, Zelensky foi tratado com inacreditável hostilidade e não é exagero descrever o que aconteceu, como uma emboscada e um mediático esfaqueamento pelas costas.
  • Os EUA suspenderam a ajuda militar à Ucrânia, deixaram de partilhar informação operacional e táctica, acabaram com as operações cibernéticas ofensivas contra a Rússia, estão a considerar acabar com as sanções económicas e a sinalizar a vontade de fazer negócios com Putin, enquanto lançam tarifas e incrementam a retórica hostil contra os aliados ocidentais.

Tudo isto se pode interpretar de várias maneiras mas uma delas, que segue o princípio da parcimónia da célebre “Tesoura de Ockam”, é que se uma coisa parece pato, mexe como um pato, grasna como um pato e cheira a pato… é pato!

E só há duas opções para a natureza deste pato.

1 Ingenuidade e ego

Se for este o caso, estamos de regresso a 1938 quando, em Munique, Neville Chamberlain e Edouard Daladier fizeram um acordo com Hitler que garantia, nas palavras do primeiro, “a paz para o nosso tempo”.

Chocado pela ingenuidade, Churchill disse a Chamberlain que tinha trocado a honra pela paz, mas que não iria ter nem uma nem outra.

Um ano depois, a guerra estava instalada no continente europeu. Para Daladier foi ainda pior. Em 14 de Junho de 1940 as tropas nazis desfilavam triunfalmente pelos Campos Elísios.

Nesta hipótese mais benigna, a premissa de Trump é a de que Putin é fiável e quer mesmo acabar com a guerra.

Ora a premissa é completamente falsa à luz do que se conhece, até pelo facto óbvio de que o ex-coronel do KGB pode acabar com a guerra em qualquer momento que deseje, com um simples estalar de dedos.

Trump pouco entende de estratégia, nem tem na sua entourage alguém que entenda e, por isso, está a interpretar mal as intenções russas, deixando-se aparentemente manipular por inteligentes carícias ao seu enorme ego.

Não sabe, e porventura não quer saber, que a doutrina militar russa (Guerra de Nova Geração) encara a guerra como uma luta contínua em todas as vertentes, a prosseguir em todo o tempo, incluindo aquele que nós designamos por “tempo de paz”.

A Rússia está neste momento totalmente empenhada numa guerra clássica, a produzir equipamento militar como se não houvesse amanhã e a introduzir na Europa armas, munições, soldados e equipamentos da China, Irão e Coreia do Norte.

Os objetivos da Rússia são retóricamente ambíguos mas consistentes na substância: impedir a adesão da Ucrânia à OTAN, derrubar o governo Zelensky, destruir o tecido demográfico e territorial da Ucrânia, anexar territórios, enfraquecer o Ocidente e restaurar a influência imperial.  Tudo isto para minar o Ocidente e promover uma ordem multipolar na qual se vê e quer ser vista como um dos três centros de poder, a par da China e dos EUA.

A “desnazificação” a “desmilitarização”, a “protecção das minorias russas”, etc., são meras máscaras de novilíngua para as ambições imperiais, mas confundem efectivamente o Ocidente que as tenta tomar pelo seu valor facial. A ambiguidade nota-se também nas várias vozes de Moscovo que, por um lado sugerem paz e diplomacia, e por outro insinuam a guerra total e a escalada nuclear.

A Rússia não tem interesse na paz. Militarizou-se profundamente, é como a Alemanha Nazi quando se lançou à conquista da Europa.

O sector da defesa é já o de maior expressão no PIB e as indústrias militares trabalham a todo o vapor, com centenas de milhares de trabalhadores, incluindo grandes levas de operários norte-coreanos, envolvidos no esforço de guerra.

Em regiões mais desfavorecidas, a incorporação militar é hoje o único caminho para tentar fugir da pobreza. As elites empresariais estão a fazer grandes lucros com as empresas ocidentais expropriadas, e com a cornucópia de dinheiro que jorra em gastos militares.

A guerra permitiu também o controlo quase total da sociedade, normalizou os sacrifícios e os custos e há toda uma geração a ser activamente ideologizada e preparada para a guerra. Quase 2 milhões de jovens fazem hoje parte da Yunarmiya, (Movimento Nacional de Jovens Cadetes do Exército) a moderna versão russa da Hitlerjugend.

Um eventual fim da guerra levaria à instabilidade social, pela desmobilização de centenas de milhares de soldados e exércitos privados, habituados à violência, e que se veriam subitamente sem chão e sem objectivo.

Há, pois, imensos incentivos para continuar a guerra que se tornou, não apenas um instrumento ao serviço da visão imperial, mas também um essencial mecanismo de sobrevivência do regime.

Assim, ao contrário da premissa de Trump, o que a Rússia realmente pretende é uma pausa operacional, para rearmar e reorganizar, como acontece sempre que as coisas não lhe correm como deseja. A “Paz” à moda de Trump, que consiste basicamente na cedência completa às exigências do Kremlin, não irá acabar com a guerra, recompensará a agressão russa e permitirá ao Kremlin respirar e iniciar a contagem regressiva para a próxima guerra contra a Europa.

Zelensky colocou a questão relevante, na emboscada que sofreu na Casa Branca, ao perguntar a JD Vance “Que tipo de diplomacia é possível com a Rússia de Putin?”

A História prova à saciedade que os acordos com a Rússia não valem a tinta com que são escritos, a começar pelo Memorando de Budapeste. Todavia, tentando cumprir a promessa de acabar com a guerra na Ucrânia, Trump descartou o facto de os EUA serem aliados objectivos da Ucrânia e instalou-se na ideia de que os EUA eram agora um mediador imparcial entre duas partes em conflito.

Tendo chegado à conclusão de que a Rússia não cedia senão migalhas e acreditando que Putin é confiável, fez como todos os bullies:  Obrigar a parte mais fraca a ceder!

Em síntese, uma vez que Donald Trump, prometeu acabar com a guerra em pouco tempo e a Rússia não cede, resta-lhe tirar o tapete à Ucrânia, correr com Zelensky, forçar o prometido cessar-fogo e o mundo pode dizer que foi o fantástico Donald Trump quem fez a paz.

O que vem a seguir, já não é com ele.

Que se dane a perda total da credibilidade dos EUA como aliado, que se dane a indecorosa situação de se acobardar perante o mais figadal inimigo da América e esfaquear um aliado pelas costas, que se dane tudo e todos, incluindo o futuro do Ocidente e dos próprios EUA.

Ele, Trump, trouxe a paz e cumpriu o que disse. É o maior!

E de caminho esmaga Zelensky, o ditador, o comediante, cuja popularidade  o ofusca e que se atreve a dizer-lhe, na cara, a ele, o homem mais poderoso no mundo, coisas que não gosta de ouvir.

2 Conivência

O que se está a passar remete irresistivelmente para a célebre ficção contra factual de Philip Roth, “Conspiração Contra a América”, na qual o piloto Charles Lindbergh, um admirador de Hitler, ganha as eleições a Roosevelt e se torna Presidente dos EUA. A sua primeira decisão é fazer um acordo com a Alemanha Nazi, segundo o qual os EUA não interferirão com a guerra de conquista da Europa, lançada por Hitler.

Voltando à realidade, os factos acima listados são avassaladores. A ideia de sugerir que o Presidente da Ucrânia não tem legitimidade e é necessário fazer eleições, é directamente decalcada da propaganda russa, e tem como objectivo tentar instalar no poder em Kiev um Lukashenko ucraniano, assegurando por essa via todos os objectivos da Rússia.

Não tendo Zelensky cedido, o acordo dos minerais pode ter sido a táctica seguinte.

O acordo é basicamente uma entrega de riquezas e pode transformar Zelensky, em termos de percepção pública ucraniana, num capacho, num traidor que vende o seu próprio país. Note-se a extraordinária sincronização com as declarações da propaganda do Kremlin, lesta a descrever o acordo nesses exactos termos.  Ou seja, em termos práticos, EUA e Rússia uniram-se para tornar Zelensky irrelevante nas futuras negociações, nas quais, como Trump já disse, a Ucrânia tem de ceder.

Zelensky recusou assinar na passada semana e em consequência foi atropelado em directo o que cumpre o mesmo objectivo, prontamente referido pela Administração americana: Zelensky não serve como interlocutor para “a Paz”, que venha outro que seja palatável e moldável.

Entretanto o presidente ucraniano fez o que um verdadeiro líder preocupado com o seu povo e o seu país, faria nas presentes circunstâncias, engoliu o orgulho e prostrou-se perante Trump. Talvez devesse tê-lo feito logo na Casa Branca, tendo em consideração os interesses do seu povo, mas não estava visivelmente preparado para a emboscada

Se o que move Trump for apenas o ego e a ingenuidade, isto funcionará para já e mais tarde o acordo pode ser renegociado por líderes americanos mais sensatos.

Mas se este cenário conspiracionista for real, não importa o que a Europa ou a Ucrânia façam, os EUA irão mesmo atirá-los para debaixo do autocarro sob qualquer pretexto, e ficaremos a saber que Washington se transformou mesmo numa Bielorússia do outro lado do Atlântico, obedecendo aos diktats de Moscovo.

Todavia, seja qual for o cenário, os países da Europa têm de pensar que, se não vestirem já o camuflado, a perspectiva do futuro é não apenas desagradável, mas catastrófica face ao facto de, despreocupadamente desarmada, a Europa não ter nem estar a produzir uma ínfima percentagem do que precisa para ajudar a Ucrânia e para se defender a si mesma.

Com uma economia e uma população largamente superior à Rússia, a Europa pouco se mexeu desde 2014 e pior, depois de 2022.

Imaginando-se a viver num condomínio kantiano, atolada em “políticas verdes” e floribélicas, desistiu de produzir energia barata, eutanasiou a indústria automóvel e resiste a gastar mais dinheiro com aquilo que é essencial para que tudo o resto exista: a segurança e a capacidade de defender a sua existência.

A Alemanha está a começar a mexer e isso é um excelente sinal.  Uma Alemanha forte e armada até aos dentes é o melhor dissuasor das ambições imperiais russas que sopram de Leste.

Mas em Portugal, a alegação é a de que “não há dinheiro” e será preciso desviá-lo do “estado social”

É um argumento risível.

Basta olhar para o Orçamento de Estado para verificar que a segunda maior fatia do orçamento (13 mil milhões de euros) vai para “Despesas Excepcionais”, dinheiro entregue a empresas públicas endividadas e mal geridas.  Uma parte de leão vai para um dantesco reciclador de lixo chamado Parvalorem que recolhe activos tóxicos, corrupção, má gestão, etc. Em suma sendo o nosso orçamento de defesa de 3 mil milhões de euros, para o aumentar para o dobro e investir, bastava tirar uma pequena parte ao “Ministério do Lixo Tóxico”.

Iremos nós acordar a tempo, ou só nos lembraremos de Santa Bárbara quando trovejar?