O mote para este artigo é simples: a “embriaguez de morte” de um anarquista revolucionário russo do século XIX é semelhante à “embriaguez de Deus” de um jihadista franco-argelino do século XXI. Ou Deus não existe e eu tomo o lugar dele, ou Deus existe e eu ajo em nome dele. No limite, em ambos os casos, tudo é permitido e legítimo.

Percebemos melhor os ímpetos de um jihadista na tradição literária ocidental – em personagens como Kirillov (dos ”Demónios” de Dostoiévski) ou Adolf Verloc (do “Agente Seceto” de Joseph Conrad) – do que no na tradição corânica. Para Kirillov ou para os irmãos que atacaram a redacção da Charlie Hebdo o desejo de destruição é o último vestígio de transcendência que resta para quem, num mundo secular de compromissos e tolerâncias, já não encontra a “verdade” absoluta. Eles são marcados por um niilismo activo e por uma lógica de destruição. Matam levados por uma espécie de optimismo trágico em prol de um amanhã que canta – ou o socialismo libertário, ou o califado universal.

O terrorismo é um método. Ou seja, é uma táctica de subversão armada – uma forma extrema de acção directa. Genericamente caracteriza-se pelo uso da violência contra uma população não-beligerante, tendo sempre como matriz uma mundividência que se quer impor. Por estas características pode desestabilizar estrategicamente o inimigo com relativa facilidade. O terrorismo é o momento em que se passa das palavras violentas aos actos, em que pela destruição se procura a transformação. Não há divórcio entre a palavra (doutrina e ideologia) e a acção. É, portanto, uma praxis ideológica. Os fins que justificam uma acção terrorista confundem-se assim com os meios de os realizar. Por isso, identificamos de imediato um jihadista ou um anarquista revolucionário russo com o método que utilizam para fazer vingar as suas ideias – o terrorismo.

A violência para o terrorismo acaba por assumir uma dupla função: simbólica e destrutiva. Simbolicamente, a violência assenta em dois pontos: serve como propaganda e reforça as crenças e os valores que sustentam os próprios terroristas. Explora-se o raciocínio dualista em que não há adversários, mas tão-somente inimigos poderosos a abater. Procura-se legitimidade no cliché moral da rebelião da vítima contra o tirano e na assimetria do combate. E justifica-se a acção armada no princípio moral do tiranicídio. A segunda função, a destrutiva, parte da imprevisibilidade e da propagação mediática. A imprevisibilidade advém da crescente vulnerabilidade da sociedade não-beligerante e da impossibilidade de previsão do acontecimento. A propagação mediática multiplica o real efeito da acção terrorista, expandido a causa e aumentado o sentimento de vulnerabilidade dos grupos alvo.

Para além de instrumental, a violência terrorista é também expressiva – representa o mundo simbólico do seu autor. Surge como uma espécie de meta-linguagem carregada de elementos salvíficos que a justificam. E o terrorista assume-se como o elemento catalisador e a consciência de todos aqueles que não têm possibilidade de acção em nome da causa que defendem. Justifica assim a morte de inocentes e o seu próprio suicídio – a arma fatal de um terrorista. Há um comprometimento total, e por isso existencial, com a causa. A luta contra o sistema é quase um processo de auto-libertação, que, para acontecer, implica destruição absoluta – se mato, logo existo. Partindo da subjectividade do actor, a destruição toma então um lugar ontológico.

Num ímpeto niilista, já não importa a construção da nova ordem, mas tão-somente a destruição da existente. Aliás, na dimensão discursiva de um Kirillov, Verloc ou dos irmãos Kouachi não está patente a tomada de poder, nem um plausível day after político, mas apenas o ataque e a implosão do status quo.

Sejam fanáticos ou híper cínicos, há um fascínio pela destruição que não vem no Corão. Embora surja de vestes religiosas num jihadista, a exaltação da morte é na sua essência profundamente niilista. Nos “Demónios”, Dostoievksi insiste: “De onde surgiram os niilistas? De nenhuma parte, sempre estiveram connosco, em nós, ao nosso lado”. Nada de novo para nós, portanto.

Professor Universitário; Porta-Voz do OSCOT