Atentados de Paris

O DAESH digital

Autor
349

Os terroristas estão a utilizar sistemas de comunicação digitais que, por razões técnicas ou legais, não podem ser interceptados, permitindo facilitação e apoio de acções armadas.

Muito se tem falado em intervenções militares na Síria e Iraque. Fundamentais, sem dúvida. Mas parece que esquecemos o ciberespaço. Aqui excede-se a dimensão física. Estamos para além da estrutura organizacional ou capacidade bélica. É daqui que parte a agressiva estratégia de comunicação do DAESH. Este é o verdadeiro centro de gravidade do jihadismo global. Enquanto houver ideia e receptividade há margem para subversão.

Neste momento, já há um cibercalifado, que é uma inigualável plataforma de comunicação externa e interna. Expliquemos.

Para fora, temos propaganda e pregação permanente, com o objectivo legitimar acção violenta e recrutar. Para a subversão é crucial o enquadramento colectivo e uma preparação psicológica que sensibilize e mobilize a massa social para a adesão à causa.

Em paralelo ao conceito de jihad, está o de dawah, que significa, literalmente, proselitismo. Para o jihadismo isto equivale ao espectro de informação empregue para propagar a mensagem e convencer muçulmanos a rejeitar os valores ocidentais e os regimes apóstatas. Pode ir desde sermões tradicionais de imãs em mesquitas até a formatos multimédia distribuídos via web.

Equipas especializadas, através do al-Hayat Media Center, ou por exemplo do al-Furāt Media Center (somente em língua russa) ou da Zora Foundation (dirigia às mulheres), trabalham para disseminar “marca” DAESH de uma forma global. Produzem massivamente sofisticados conteúdos em vídeo, fotografia, áudio e texto, que depois são disseminados no ciberespaço pelas redes sociais. É puro marketing digital a uma escala industrial.

Para dentro, o ciberespaço permite coordenação, planeamento e operacionalidade. A comunicação via web supera a ausência de uma ligação física e directa entre o comando e o operacional. Numa primeira fase os jihadistas ainda gravitavam pela surface web. Hoje, entram pela chamada deep e dark web, onde são apresentadas acções violentas e discutidas possíveis operações.

Além disso, tornaram-se activos utilizadores dos conhecidos Twitter, WhasApp, Tumblr ou Ask FM. Estas aplicações permitem mensagens instantâneas e partilha, em tempo real, de vivências operacionais. Contudo, sabendo do elevado grau de encriptação, passaram também a utilizar sistemas como Surespot, Telegram ou Off-the-Record Messaging, para comunicar em segurança.

Não obstante este linguajar aparentemente geek, o importante é realçar que, em termos de guerra de informação, enfrentamos grandes dificuldades. Por um lado, temos a ideia, que é base de toda acção jihadista e que encontra no mundo digital a melhor forma de propagação. Há sempre alguém que a envia, porque há sempre uns ávidos a recebê-la. E por outro, estão sistemas de comunicação digitais que, por razões técnicas ou legais, não podem ser interceptados, permitindo facilitação e apoio de acções armadas.

Professor universitário; porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Estado da Nação

Um ministério entrincheirado

Felipe Pathé Duarte
117

O contexto actual, com um crescendo do sentimento de insegurança e constrangimentos orçamentais, dificulta o papel de qualquer ministro da Administração Interna, como saberá Constança Urbano de Sousa.

Geopolítica

Realpolitik Turco-Israelita!

Felipe Pathé Duarte
215

Mais que questões ideológicas ou éticas, a decisão internacional voltou a ser lida como fruto do pragmatismo e do interesse nacional. A provar este mote estão a Turquia e Israel. Vejamos porquê.

Israel

Os novos sicários

Felipe Pathé Duarte
189

Neste apelo à violência o punhal (ou outro objecto perfurante) assume de novo um papel preponderante. Incitam-se os seguidores a esfaquear judeus nas ruas em nome da causa palestiniana

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)