Rádio Observador

caderno de apontamentos

Educar mesmo /premium

Autor
  • Miguel Abranches Pinto
187

O debate sobre a educação cairá sempre na necessidade de uma presença adulta, sendo aqui que se joga o diálogo da família com a escola, para que o jovem possa crescer e afirmar a sua personalidade.

Recentemente pude confirmar o valor do teatro aplicado em contexto escolar e em diferentes idades, que resulta, contudo, em frutos semelhantes. Numa época em que tanto se valorizam as competências, poderia até ficar por essas: a expressão dramática e a sua influência numa melhor colocação de voz e linguagem corporal, a interação coordenada no tempo e no espaço entre personagens e a sua relação com um frutífero trabalho em equipa podiam ser apontadas, a par de outras aqui não destacadas, como algumas das importantes capacidades trabalhadas no Teatro.

O valor que voltei a identificar, ao ver em palco alunos de múltiplas idades, vai para além do desenvolvimento dessas importantes competências. Por trás e por dentro da cena está sempre o texto e o seu autor, mas também a relação pessoal de cada um nós, e em particular de quem encarna as personagens, com a literatura e seus escritores. Desenvolve-se um interesse pelos grandes textos clássicos ou modernos, que aproxima jovens e crianças e mesmo nós, adultos, dessas obras que nos formam e com as quais podemos construir um interessante diálogo.

Não é exatamente esse o objetivo da escola e dos seus múltiplos processos? Abrir à realidade e estimular o interesse por tudo, partindo da curiosidade natural e utilizando o principal instrumento que a natureza nos concede – a razão – para nos apropriarmos de cada coisa, mesmo que possamos no fim não ser delas donos?

O teatro, neste contexto, evidencia bem como o estudo pode ser uma aventura, se parte das premissas certas e se tivermos mestres que nos introduzam a essa bela experiência. O conhecimento de si e das coisas está no centro da educação. Sem verdadeiro conhecimento é possível que certas competências permaneçam estéreis e mesmo desapropriadas. Por outro lado, também um saber incapaz de se transformar em capacidade e competência é, de algum modo, pobre. O teatro que acontece na escola mostrou-me bem esta íntima ligação.

Talvez por isso, e num certo sentido, estudar não é hoje muito diferente do que seria há 500 anos. Parte da curiosidade, pede atenção e exige raciocínio, isto é, esforço. Pode ser uma bela aventura, mesmo que peça simplicidade, trabalho e método. É exatamente no método que o educador tem um papel preponderante. Suscitar a curiosidade e capacidade de conhecer, já inatas, e arriscar propor uma hipótese de significado, ou seja, uma possível chave de leitura para o mundo, é, assim, a principal tarefa do adulto como educador.

Por isso a educação só pode entrar em crise se faltarem adultos. Adultos certos de algumas poucas coisas, necessárias para dar significado à vida. Adultos capazes, por isso, de sustentar as crianças e os jovens nas suas experiências pessoais. É na liberdade com que esses arriscam que está a fecundidade da educação.

A existência de adultos assim é o fator fundamental para educar de forma aberta e integral. Esta antecede, mas não substitui, uma pedagogia e uma didática, e será mais a este nível que as coisas mudam. Tenho visto, em ato, como a digitalização de processos educativos não substitui este papel fulcral do adulto, mesmo que este possa, com vantagem, utilizar novos instrumentos para introduzir e manter a atenção. A relação de confiança não é nunca substituída, nem o trabalho de educador e educando o são.

O debate sobre a educação cairá sempre neste ponto e na necessidade de uma presença adulta, sendo aqui que se joga verdadeiramente o diálogo da família com a escola, numa aliança que oferece a sua história como terreno seguro, para que o jovem possa crescer e afirmar a sua própria personalidade. Toda a informação disponível, e mesmo a melhor tecnologia, não servem, se não introduzidas com esperança. Há nos jovens grande potencialidade, riqueza, criatividade. Não me canso de me espantar com eles em cada dia. A falta de esperança é talvez a única falha que filhos e alunos não nos perdoarão.

O teatro de que falava no início, como tantas outras disciplinas, projetos, concursos, demonstrou-me como é grato ver adultos que se oferecem como educadores. Vejo já hoje frutos dessa oferta, mas sei que a maioria desses podem só nascer daqui a muitos anos, pedindo-nos uma sábia paciência, indispensável na educação.

Director do Colégio de S. José – Ramalhão

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

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