Ele há coisas extraordinárias. Estava eu este fim-de-semana a ler uma longa entrevista a um jornal de referência e eis que me deparo com um discurso que, facilmente, poderia ser subscrito por gente de muitos e diferentes quadrantes. Gente variada e importante.

Senão vejamos:

“Veja o que se passa entre os países do norte e os do sul. Os do norte tratam os do sul como parasitas, gastadores, preguiçosos. Quanto mais se avança mais a UE se transforma num palco onde decorre uma guerra económica, um dumping social, entre os diferentes países.” Bagão Félix? Era possível, mas também podia ser Viriato Soromenho Marques.

“Se nos vêm agora explicar, como fazem em relação à Grécia, que os povos podem votar mas que, na realidade, o seu voto não tem qualquer importância nem influência, quer dizer que estamos numa ditadura.” Creio que Freitas do Amaral não seria mais claro.

“Não é o povo grego que é soberano na Grécia. É a ditadura europeia que impõe à Grécia o que deve fazer e como o deve fazer.” Esta frase é mais dura, mais ao estilo, digamos, de um Marinho e Pinto.

[A troika] “é uma hidra com três cabeças cujo único objetivo é defender os interesses dos bancos, das grandes instituições financeiras, dos credores dos países e de modo algum defender os interesses dos povos”. Francisco Louçã ou Catarina Martins não se expressariam melhor.

“Não sou por menos Estado, não sou por mais privatizações, não sou pelo ultraliberalismo, não sou por essas leis do mercado que eu considero deverem ser controladas porque, caso contrário, conduzem ao esclavagismo”. Mário Soares? Talvez João Galamba. Ou até Manuel Carvalho da Silva.

[Os líderes da União Europeia] “passam a vida a assinar acordos de trocas livres com o mundo inteiro. O objetivo deles não é defender os interesses dos europeus é o de criar um mercado único mundial. Vemo-lo com o Tratado Transatlântico, no qual os mais fortes ganharão, as multinacionais ganharão, e os fracos morrerão. E isso está a ser feito pagando o preço de sofrimentos horríveis.” Esta já é mais coisa para um Jerónimo de Sousa.

“Considero muito claramente que a União Europeia é responsável pelo conflito ucraniano porque se imiscuiu voluntariamente na esfera de influência da Rússia. (…) Sabíamos na Europa que a Ucrânia estava frágil, dividida entre os que olhavam para Leste e os que olhavam para Oeste e a UE atiçou as brasas, lançou gasolina para o fogo e, evidentemente, o braseiro reacendeu-se.” Podia ser um editorial do Avante, ou um desabafo de Bernardino Soares.

Acontece que todas as frases que citei não resultam de uma improvável mesa redonda antiausteritária ou de uma recolha de depoimentos à saída de mais uma sessão na Aula Magna. São frases retiradas da longa entrevista que Marine Le Pen deu ao último Expresso. E garanto-vos que não foram retiradas do contexto – é claro que há mais temas na entrevista e, nesses, a coincidência com as posições de figuras como as citadas é inexistente, é até de divergência frontal.

Mas isso não muda o essencial, um essencial que a própria Marine Le Pen expôs noutra passagem da mesma entrevista: há uma convergência real nos discursos anti-sistema daquela a que convencionámos chamar “esquerda radical” e dos que arrumamos, com menor ou maior rigor, na extrema-direita.

Marine Le Pen, que até utilizou nesta entrevista um dos termos mais glosados pelo Podemos espanhol – o ataque aos que designou como sendo “a casta” –, não teve por isso dificuldade em admitir que esse mesmo Podemos “representa em Espanha mais ou menos o mesmo que o Syriza significa na Grécia. E sublinha de novo que, quando não existe um movimento patriota como a FN, é a extrema-esquerda que canaliza a cólera contra a UE”. Trata-se de um argumento simétrico ao que temos ouvido, por estas semanas, nas bocas de Tsipras ou Varoufakis.

Sei que muitos dos que se surpreenderão a concordar com muito do que a líder da Frente Nacional francesa diz, logo acalmarão as suas consciências quando, para dela se distanciarem, atacarem a defesa que faz do regresso da pena de morte ou do fecho das fronteiras a mais imigrantes. Mas é poeira que atiram para os próprios olhos. Primeiro, porque há uma real coincidência de pontos de vista na sua oposição ao liberalismo, aos odiados mercados abertos e concorrenciais, à globalização (ou mundialização, como lhe chamam os franceses). Depois, porque existe uma comum fúria antiausteritária e uma comum vontade de considerar que a origem dos problemas está sempre nos outros, nunca em nós próprios ou na forma como organizámos as nossas sociedades e as nossas economias. Por fim, os excessos de linguagem que se tornaram tão comuns um pouco por todo o lado (estou a pensar nas nossas televisões, por exemplo), contribuem para diluir a diferença entre os que têm reparos legítimos e fundamentados a fazer à forma de funcionamento das instituições europeias e os que, na verdade, o que desejam é um sistema radicalmente diferente e, esse sim, autoritário e, no fim do dia, ainda mais austeritário porque empobrecedor.

Mas há mais, e esse mais não deve ser ignorado: o regresso de um discurso nacionalista radical não é hoje um exclusivo da extrema-direita, é também, e cada vez mais, uma normalidade para a esquerda radical. E não digam que exagero, pois já estamos a assistir a isso mesmo, ao directo e ao vivo, na Grécia. A aliança entre o Syriza e um partido nacionalista da direita radical não nem resultou de um acaso, ainda menos de uma necessidade, resultou de uma real coincidência de objectivos, de retórica e de métodos.

Nem sequer preciso de ser eu a dizê-lo, basta-me citar alguém como Manos Matsaganis, um professor de Economia que se assume como um homem de esquerda e que sempre esteve contra a austeridade. Num artigo que publicou a semana passada no site da Open Democracy não podia ser mais claro quando acusou a estratégia do Syriza de ser o que designou como “nacionalista-populista”, centralizando o discurso num só inimigo – a troika – e numa só solução – o fim mágico da austeridade, uma estratégia que fez convergir naturalmente os “anti-imperialistas” com os “nacionalistas radicais”.

Por isso também não é demasiado surpreendente que nalguns bairros mais pobres e mais fustigados pela crise, o Syriza tenha tido de disputar o mesmo eleitorado com a Aurora Dourada, o partido neo-nazi. É uma realidade com mais do que perturbantes semelhanças com algumas vividas na sombria década de 1930, quando quase toda a Europa mergulhou nas trevas do totalitarismo.

E a procissão, como se costuma dizer, ainda vai no adro. A coligação governamental grega preparou para a habitual parada militar de 25 de Março, que assinala a independência da Grécia, um conjunto de inovações que irão desde a introdução no reportório das bandas militares de canções populares à preparação de momentos de “confraternização” entre o povo e as suas Forças Armadas, como relatava o Ekathimerini. Para quê? “Para dizer aos estrangeiros que somos um povo soberano”, disse sem rodeios o ministro da Defesa.

É uma forma de celebração da festa nacional grega que Maria Katsounaki, colunista desse mesmo Ekathimerini, considerou “perigosa”, organizada “da forma mais triste” e visando promover uma ideia de “nação” coerente com “o gradual afastamento da Europa e o crescente isolacionismo” das novas autoridades de Atenas. Mas uma comemoração onde o Syriza dá orgulhosamente o braço à direita radical grega.

Se acrescentarmos a todos estes ingredientes a comum simpatia tanto da Frente Nacional, como dos radicais gregos, tanto os da esquerda como os da direita, pela Rússia de Vladimir Putin – uma simpatia que de resto é retribuída –, percebemos os riscos associados à convergência de discursos e de objectivos destes novos populismos-nacionalistas (tal como sentimos até que ponto o caminho lhes pode ser aberto pelos discursos desabridos e irrealistas de antiausteritários que, sendo gente com indiscutíveis credenciais democráticas, ajuda a criar o clima de permanente sobressalto que conduz a estes radicalismos que são muito mais gémeos do que se nos querem fazer crer).

Marine Le Pen não é igual a Francisco Louçã. Ou a Pablo Iglésias e Alexis Tsipras. Não cai no erro de dizer que é tudo a mesma coisa. Só digo, e repito, que estes populismos-nacionalistas (ou nacionalistas-populistas) não têm pudor em unir esforços contra aquilo que designam por “sistema” ou por “casta”, mas que é o nosso sistema democrático e os líderes que livremente elegemos. O facto de gritarem mais alto não lhes dá mais legitimidade que o mais humilde votante que, serenamente, continua a preferir governantes imperfeitos a líderes apresentados como libertadores ou redentores, como apesar de tudo voltou agora a suceder em França e na Andaluzia. O que é um sinal de sabedoria.