Quem é realmente Alexis Tsipras? Um populista que soube aproveitar a onda do descontentamento popular? Ou um estadista que teve a frieza de parar à beira do precipício? Um pragmático que foi capaz de compreender os limites do que podia obter dos credores? Ou um aprendiz de feiticeiro que quase incendiou a Europa ao surpreendê-la com um inopinado referendo? Um génio que manobrou e manipulou todos para se tornar o líder incontestado da Grécia? Ou um oportunista que muda de discurso conforme a audiência e em quem ninguém pode realmente confiar? Um esquerdista que nunca se desligou das suas raízes revolucionárias e anti-capitalistas? Ou antes um radical a caminho de se converter num social-democrata?

Não falta, de resto, quem coloque questões semelhantes na imprensa internacional. Alexis Tsipras não é fácil de ler.

Não custa muito compreender Yanis Varoufakis. É o típico intelectual radical, bem instalado na vida e nos circuitos universitários – circuitos que, de resto, este tipo de intelectual “anti-sistema” ocuparam quase por completo –, vaidoso e tão seguro das suas certezas que, à mesa das negociações, só pode esperar a capitulação do adversário, não um acordo mutuamente benéfico. Para ele a política não é uma missão, é um palco, e por isso fugiu cobardemente para a sua luxuosa casa numa ilha grega na noite da crucial votação que dividiu o Syriza. Com mais ou menos talento, como mais ou menos cabelo, como mais ou menos arrogância, não faltam por essa Europa fora figuras como Varoufakis. E também pelos Estados Unidos.

Mas Tsipras é diferente. Por quem é, pelo seu passado, pela sua forma de actuar, até pela vida que leva.

À primeira vista, não é um ideólogo. Tem até fama de pragmático, pois quando, ainda muito novo, negociou com o Governo o fim de uma greve estudantil, aceitou um compromisso em vez de esticar a corta até ela partir. Não se lhe conhecem livros, como os que Varoufakis escreve. O que se lhe reconhece é a capacidade de gerar empatia e de conduzir o eleitorado na direcção que mais lhe convém.

Mas quando vemos a forma como ziguezagueou ao longo dos últimos meses, umas vezes adoptando um discurso radical, outras vezes enviando para Bruxelas propostas conciliatórias, o mistério adensa-se. Mais: percebe-se a desconfiança que reina entre os parceiros europeus e os credores. Devemos acreditar no Tsipras que provoca a Europa (e nela muito especialmente a Alemanha) ou no Tsipras que se senta pacatamente à mesa com Angela Merkel, todo sorrisos?

Dir-se-á: muitos políticos, em todo o mundo, são igualmente incoerentes, ou erráticos, ou capazes de discursos contraditórios em função das plateias para quem falam (ainda este domingo os finlandeses tiveram um discurso em inglês para a imprensa internacional, muito moderado, e outro em finlandês para o seu eleitorado, muito mais radical). É verdade: não é isso que distingue Tsipras. O que pode distingui-lo é sabermos onde é que ele se situa politicamente, como evoluiu, se é que evoluiu, desde os tempos em que a sua actual mulher – e, leio no jornais, o seu principal esteio – o convenceu a entrar para o partido comunista.

Ter sido comunista, ou continuar a sê-lo numa das variantes em que a Grécia é fértil, não é um detalhe. E também não é incompatível com um comportamento que vemos como contraditório ou errático, mas porque o olhamos pelas nossas lentes habituadas há muito a descartar a natureza real dos partidos de matriz marxista-leninista, como era o partido a que o jovem Tsipras aderiu nos seus tempos de líder estudantil.

Uma coisa é o radicalismo “chique” de Varoufakis, que está na moda e é visto com a maior benevolência, quando não com algum encanto, pela imprensa e pelos comentadores. Quem pode, realmente, temer o motard que toca piano num apartamento com vista para a Acrópole?

Outra coisa bem diferente é ser um revolucionário determinado a construir um tipo de sociedade radicalmente diferente. Anti-capitalistas há muitos – mas revolucionários só os que, adoptando esta ou aquela variante, continuam a seguir a utopia da sociedade sem classes. É Tsipras um desses? É a sua influente mulher? É o seu estilo de vida modesto, num pequeno apartamento num bairro humilde de Atenas, um sinal do ascetismo do militante revolucionário? Ou tudo isto é apenas uma efabulação sem sentido?

Aconteceu-me estar a ler, por estes dias, um livro do escritor cubano Leonardo Padura, recentemente distinguido com o Prémio Princesa das Astúrias. Era daqueles que estava na estante à espera de uma oportunidade e, quando peguei nele, não imaginava que acabaria a pensar em Tsipras. “O homem que gostava de cães” conta-nos a história do assassinato de Trostski por um agente estalinista, um episódio bem conhecido da historiografia da mais trágica utopia do século XX. Até aqui nada de novo, a não ser o indiscutível talento de Padura que nos faz regressar apaixonadamente a um caso sobre o qual julgávamos saber tudo. Só que acontece que o livro não fica por aí. O que nele também se retrata é como a utopia comunista transforma as pessoas e como o marxismo-leninismo serviu para justificar tudo, incluindo os maiores crimes, em nome de um ideal supremo.

As voltas e reviravoltas a que assistimos no Syriza não seriam estranhas a quem tivesse seguido as voltas e reviravoltas dos partidos comunistas na década de 1930, ou de 1940, ou de 1950. Havia sempre uma justificação. Tal como houve sempre um “doublespeak”, essa forma de tornar o discurso num mero instrumento para justificar qualquer coisa e o seu contrário, como Orwell descreveu de forma genial em “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”.

Eu sei que os tempos são outros e que a Europa da segunda década do século XXI tem muito pouco a ver com a Espanha, a Alemanha ou a Rússia da terceira década do século XX, onde decorre uma parte da acção do livro de Padura. Mas quando olhamos para a forma como Alexis Tsipras manobrou ao longo dos últimos meses, e sobretudo das últimas semanas, ficamos na dúvida se foi apenas incompetência e arrogância, ou se todas as reviravoltas a que assistimos – e a primeira, é bom não esquecer, ocorreu logo no final de Fevereiro, quando aceitou continuar dentro do memorando que antes abjurara – não foram apenas guiadas pelo desejo de manter-se no poder, e de reforçar esse poder.

Qualquer político sabe a importância que tem estar no poder – mas ninguém levou tão longe como os comunistas a arte de, sendo uma minoria, o conquistar e conservar. É isso que Tsipras está a fazer? É isso possível porque a Grécia é o país da Europa onde até mais tarde comunistas e anti-comunistas lutaram de armas na mão, numa guerra civil que prolongou a II Guerra Mundial?

Para ser sincero, não creio que Tsipras seja a encarnação moderna dessa herança política. O meu instinto inclina-se mais para que é um radical a caminho da social-democracia. Por isso gostava de o conhecer melhor, mais de perto. Para tentar perceber se apenas deseja um caminho diferente para uma Grécia dentro do euro, ou se ainda acredita que, usando sabiamente o poder, pode ir caminhando para uma sociedade sem classes sem assustar a classe média. No fundo, se é um reformista radical ou se é um revolucionário (a palavra pode parecer estranha nos dias que correm, mas em 2009, numa entrevista que me deu, o nosso pacato Francisco Louçã reconheceu, a custo, que ainda era o que sempre fora, isto é, um revolucionário).

Faz toda a diferença, quando se faz um acordo que implica um mínimo de confiança, saber quem se tem do outro lado da mesa. Neste caso, perceber se temos apenas alguém inexperiente e errático, ou alguém para quem a dissimulação está no coração da forma de fazer política. Ler Padura ajuda a perceber até onde pode ir a dissimulação – no meu caso, ajudou-me a recordar o que se pode fazer quando se acredita que os fins justificam todos e quaisquer meios e que as regras de pouco valem.

Depois de tudo o que aconteceu, antes do Syriza e com o Syriza, os líderes europeus confiam pouco nos gregos e têm razões para isso. Sem perceber quem é realmente Alexis Tsipras, eu confiaria ainda menos, mesmo que agora ele acabe por assinar o que lhe puserem à frente.