Frequentemente, ouvimos alguém dizer que “fulano venceu a Covid”. Claro que ficamos felizes ao saber que alguém se livrou do vírus. Mas precisamos conversar melhor sobre sobre isso. Se a ideia de “vencer a Covid” for a ideia de não morrer de Covid, eu, de facto, me encaixo nesse perfil. Mas se “vencer a Covid” for passar a me sentir da mesma forma que me sentia antes da Covid, então eu estou fora dessa conta. Eu e mais alguns milhares de pessoas.

A Covid foi embora, o PCR realmente dá negativo. Mas a doença ainda está em mim. Meu corpo, definitivamente, não voltou ao normal dois meses depois da minha alta. Vem piorando, na verdade. Sofro de tonturas severas, zumbido no ouvido, vertigens. Hoje não está dando para trabalhar. Os objetos se deslocam, me sinto instável, as coisas rodam. Um desconforto gigante.

Vou falando com os médicos a respeito do quadro e a verdade é que o que se sabe sobre isso (seja o meu quadro de sequelas ou o de tantas outras pessoas que sofrem do mesmo mal) é quase nada. São verdadeiros mistérios que a Ciência vai, com pressa, tentando desvendar. Como tratar? Vai passar sozinho? Vai piorar? É melhor tomar medicamento? Não sabemos exatamente.

O meu paladar voltou, mas quase todos os queijos se tornaram amargos. Meu fôlego ainda vem se normalizando. E as histórias que ouço são duras. Pessoas que seguem sem conseguir fazer as atividades básicas do dia-a-dia. Pessoas que nunca recuperaram o olfato e o paladar. Sabores que mudaram de forma brutal – e não parecem voltar ao normal tão cedo. Para uma amiga minha, a água tornou-se insuportavelmente doce. Para outra, alface passou a ter gosto de sabão.

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Tudo isso para dizer: não brinquem. Sigam-se cuidando muito. A Covid foi bem camarada comigo. Foram “apenas” 14 dias de sofrimento e agora vamos lidando com esses dois meses de sequelas, consultas e medicação. Não fui internada, não fui intubada, não precisei de ECMO. Isso é um lucro considerável. E sou grata por isso. Poderia ter sido muito, muitíssimo pior. Não posso me queixar.

Mas não, não é fácil. Nem de longe. Se cuidem sempre e respeitem quem tenta se recuperar. Há sequelas físicas e psicológicas muito consideráveis, há batalhas invisíveis espalhadas pelo mundo inteiro. Não é fraqueza, não é uma forma de chamar a atenção. Essa doença é traiçoeira e a realidade é que nenhum de nós venceu a Covid. Nós só não morremos por causa dela.