Por vezes é necessário — como dizem os anglo-saxónicos — “colocarmo-nos nos sapatos do outro”. Acontece que, neste caso, o “outro” é pouco dado à higienezinha. Pelo que optarei por um, ainda assim cordial, “imaginar-me na situação do outro”. Mas e quem é este “outro”? Este “outro” é o socialista. Este “outro” é o comunista. É o progressista, activista, clima-histerista. Este “outro” é o identitarista, capaz de catalogar mais identidades que o Instituto dos Registos e do Notariado. É o anti-ocidentalista, é o John Lennonista — quiçá leninista — do Imagine.

Em suma, este “outro” é aquela criatura que, ainda na pré-adolescência, optou por cristalizar a sua visão do universo, jurando — ao trincar um Bollycao — nunca, mas nunca, dar uso ao espírito crítico. E muito menos ainda, Deus o livre (aliás, “deus”. Que confianças são essas?), reconhecer quão grotescamente errado está em relação a, quase sem excepção, todos os aspectos da realidade. Começando pelo facto de o Bollycao não ser um estupendo alimento.

Deve ser duro, passar a vida a tentar encaixar o teimosíssimo mundo na utopia parva que nos ocupa a cabeça. Deve ser mais ou menos como tentar encaixar a cabeça de um boneco de Lego no corpo de um Playmobil. É possível? Possível é, mas resulta quase tão bizarro como quando tínhamos, à cabeça da lista de melhores marcadores de sempre da Seleção, à frente do Cristiano e do Eusébio, o Pauleta.

Enfim, passar a vida a racionalizar o tão obviamente absurdo deve ser mesmo muito trabalhoso. E por isso o “outro” precisa de umas férias. A minha sugestão óbvia seria Marte, mas, infelizmente, o destino ainda não está disponível. Mesmo após inúmeras tentativas para convencer a SpaceX a pousar em jeito de teste. Face à indisponibilidade marciana, sugiro destinos que, ao seu jeito, também dão ideia de vivermos noutro planeta.

FAIXA DE GAZA

Recordando Pedro Passos Coelho em 2011, este é um óptimo destino para jornalistas que não consigam colocação em Portugal. A Faixa de Gaza do Hamas é um paraíso de oportunidades: ali, todos podem ser jornalistas. Mediante a frequência, com aproveitamento, de um curso sobre como fazer bombas com uma BIC e uma daquelas almofadinhas de microfone. Quem tiver mesmo estudado jornalismo, também é aceite, claro. Desde que partilhe o gosto por desfazer israelitas com bombas à base de BICs e daquelas almofadinhas de microfone.

ARGENTINA

Enfim, pode-se voltar à Argentina! Ufa, que alívio. Finalmente, a imprensa revelou que as autoridades argentinas investigam um alegado esquema de corrupção no círculo próximo do Presidente Javier Milei. Força com essas alegações, pessoal — contra os espectacularmente comprovados superávit orçamental, redução da inflação, estabilização do Peso, crescimento económico, queda na taxa de pobreza, recuperação do poder de compra e redução da violência, alegar, alegar!

ESPANHA

Tem tudo o que a Argentina tem, com excepção dos espectacularmente comprovados superávit orçamental, redução da inflação, crescimento económico, queda na taxa de pobreza, recuperação do poder de compra e redução da violência. Já no que toca aos esquemas de corrupção no círculo próximo do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, ou muito me engano, ou em breve veremos o padrinho do geringoncista espanhol, António Costa, referir-se ao afilhado em termos idênticos aos que dedicou a José Sócrates pós visita a Évora.

SUÉCIA

A menina dos olhos de socialistas e sociais-democratas cresceu e é hoje uma robusta primeira classificada europeia em crimes relacionados com gangues e em crimes envolvendo incidentes com explosivos. Gente mal intencionada relaciona este aumento da criminalidade com o aumento da população sueca em mais de 10% em cerca de uma década, por via da imigração oriunda de locais como Síria, Somália e Afeganistão. Isto é gente que ainda não percebeu que correlação não significa causalidade, como é óbvio. Se perguntassem ao “outro”, seriam elucidados que o drama não é demasiada gente problemática ter imigrado para a Suécia, mas sim suecos de menos terem emigrado.

WASHINGTON, D.C.

Agora que Trump pôs a National Guard a “limpar” um volume de crime inaudito na cidade, é o local ideal para protestar, ao lado do Black Lives Matter — descobri agora que sim, parece que isto ainda existe — contra a diminuição da criminalidade na capital dos EUA. Leram bem. Tem havido protestos por a National Guard estar a apoiar a polícia no patrulhamento e combate a crimes como homicídios e tráfico de drogas. Porque o mais subtil indício de competência alheia é a criptonite destes “Super-Homens”, “Super-Mulheres” e Super-Não-binários.

VENEZUELA

Não chegaram a ir a Cuba antes do Fidel Castro morrer? Não cometam o mesmo erro com a Venezuela! Mentira. Ninguém está à espera que Nicolás Maduro faleça por causa do cerco que a marinha norte-americana montou à Venezuela para, quem sabe, capturar o presidente ilegítimo, acusado de narcotráfico. Nada disso. Nos próximos tempos, da parte de Maduro, espera-se apenas uma troca muito regular de roupa interior.