Uma petição, lançada a 17 de Março por um conjunto de associações e personalidades ligadas à Marcha do Orgulho do Porto, reivindica a atribuição do nome de Gisberta Salce Júnior, a mulher transexual brutalmente agredida e assassinada em 2006, a uma rua da cidade. Questionada sobre esta iniciativa, a presidente da Comissão de Toponímia da autarquia disse não conseguir «estabelecer uma relação entre Gisberta e o Porto», acrescentando ainda que «a pessoa em si nada fez» pela cidade. Fica patente a incapacidade em problematizar o caso Gisberta, naturalmente contrário à postura hagiográfica que a Comissão de Toponímia adopta e que insiste em ver o espaço público como um enorme e polido mausoléu municipal, onde, muito naturalmente, figuras como esta não são bem-vindas.

A cidade lembra aqueles que se destacaram nas artes, no saber e no comando, atribuindo os seus nomes a ruas, praças, jardins, escolas, museus, gravando-os em placas e esculpindo as suas figuras em estátuas para admiração pública. Homenageia os que se sacrificaram por altos ideais, como os mártires do liberalismo enforcados na Praça Nova, hoje da Liberdade, ou os republicanos que tombaram perante as balas monárquicas no topo da Rua de Santo António, hoje 31 de Janeiro. Evoca, por todo o lado, façanhas colectivas que reluzem nas crónicas e lendas transmitidas ao longo de gerações, como o exemplo de abnegação dos portuenses aquando da partida das naus para Ceuta, convertido em epíteto popular, ou a resistência ao cerco levantado pelos absolutistas, consagrado em divisa municipal.

Mas a memória na cidade contemporânea não se pode reduzir a uma galeria de heróis, inseridos em histórias depuradas de espinhos e devidamente compartimentalizadas para leitura fácil e imediata. Isso tornaria o lugar onde habitamos num museu desumanizado. Tal como na vida, a cidade é o palco de conflitos, de traumas e de erros cometidos, com os quais aprendemos a contar para corrigir e evitar novas falhas. Ouvimos dos nossos pais e avós histórias de adversidade e superação protagonizados por pessoas comuns que, por acção deliberada ou por força das circunstâncias, se convertem em símbolos de causas sociais mais vastas, mas que a historiografia das grandes narrativas ainda relega para o lugar da nota de rodapé. A toponímia e a estatuária, enquanto veículos da memória colectiva, devem descolar deste entendimento para se tornarem depositárias da diversidade de experiências produzidas pelo mosaico humano que a cidade sempre foi. Devem reconhecer exemplos de júbilo, mas também de choque e de angústia social, que pedem da comunidade uma acção reparadora — quanto mais não seja, a justiça simples da memorialização.

A morte de Gisberta Salce Júnior foi um desses momentos traumáticos. Gisberta tornou-se na mais expressiva bandeira na luta pela inclusão e contra o ódio à comunidade LGBTI, levando à congregação de esforços que antes se achavam desarticulados. A sua história já foi contada em todas as artes: na música, em “Balada de Gisberta”, canção composta por Pedro Abrunhosa e depois cantada por Maria Bethânia; na literatura, com Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral, romance vencedor do prémio José Saramago em 2019; no teatro, em peças protagonizadas por Rita Ribeiro e Luis Lobianco e levadas à cena em palcos portugueses e brasileiros; no cinema, na curta-metragem de Thiago Carvalhaes, A Gis, apresentada em competição em vários festivais. A história de Gisberta faz parte do imaginário social e cultural do Porto. A atribuição do seu nome a um arruamento daria o reconhecimento institucional ao esforço de preservação da memória, para o qual milhares de munícipes têm contribuído desde o momento da sua morte, em 2006. Foi neste ano que o Porto teve a sua primeira marcha do orgulho. Com ela nasceu o compromisso de não deixar esquecer o crime cometido. Em 2019, sete mil pessoas marcharam pelas ruas da Baixa, acreditando que com a evocação da memória se evitam novos atentados e se salvam vidas. Ao contrário do que supõe a presidente da Comissão de Toponímia, Gisberta tem, de facto, contribuído para vivermos num Porto melhor.

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No próximo mês de Junho, contam-se 120 anos desde a chegada clandestina ao Porto de duas mulheres galegas perseguidas pela Guardia Civil. Tinham contraído matrimónio e esse era o seu crime: esperando, por esta via, acederem a uma vida “normal” de casal, uma delas tinha adoptado uma identidade masculina e assim se apresentara diante do altar. Revelada a encenação, não tiveram outra opção senão fugir. Foram descobertas no Porto, em meados de Agosto. A polícia portuguesa respondeu ao repto do país vizinho e prendeu-as preventivamente. Durante o tempo que passaram na prisão, a população e a imprensa portuense mobilizaram-se pela sua causa, não num acto de aceitação do seu amor (seria excessivo e anacrónico admiti-lo), mas de simples compaixão. Reuniram-se fundos, escreveram-se cartas às altas instâncias do Estado, publicaram-se apelos condoídos na imprensa. Depois de libertadas, viveram no Porto largos e tranquilos meses, dando-lhes condições para escaparem ao inevitável pedido de extradição feito pela justiça espanhola. Quando esse momento chegou, já estavam em segurança na América do Sul.

A história de Elisa e Marcela é recordada todos os anos em Espanha por ocasião das marchas do Orgullo, e é conhecida um pouco por todo o mundo graças a uma adaptação ao cinema produzida pela Netflix, em 2019. O Porto, lamentavelmente, esqueceu o episódio. Se, passados 100 anos, a cidade ainda conservasse a sua memória e a consciência do precedente, talvez o destino de Gisberta tivesse sido diferente. Talvez a sua situação de fragilidade tivesse inspirado, senão aceitação, pelo menos alguma compaixão.