Vivemos tempos de enorme incerteza, mas também de grande coesão nacional.

Nunca se viu, em Portugal, um esforço de colaboração entre tantos setores, não só na área da saúde, como na ciência, na academia, nas empresas e na indústria, sem distinção entre públicos, privados ou sociais. Todos em Portugal, como no Mundo, sem exceção, unem as mãos nesta luta sem quartel contra o vírus SARS-CoV-2.

Portugal está unido no combate à Covid-19, numa guerra desigual contra um inimigo novo – e, por isso, com um elevado nível de imprevisibilidade – invisível, oportunista e muito perigoso.

A desigualdade de um combate perante uma nova doença, um novo vírus, assim como o esforço que temos de empreender, não pode afastar-nos de um outro combate: o da luta contra as “outras” doenças, aquelas que muitos tiveram de enfrentar ao longo das suas vidas, as mesmas que infelizmente têm de lidar no presente ou as que vão ter de evitar no futuro.

Doenças crónicas como as cardiovasculares, a diabetes ou o cancro. Estas “outras” doenças, apesar de muitas vezes serem agora menos valorizadas por razões óbvias, não se encontram, infelizmente, suspensas em tempos da Covid-19 – mas as necessidades de cuidados destes doentes, essas sim, ficam adiadas, à espera de melhores dias.

Por isso, perante uma emergência sanitária que se antevê mais longa do que o previsto, há que ter em conta que existe uma parte muito significativa da população, muitas vezes a mais frágil e debilitada, que não pode deixar esquecidas estas necessidades. É preciso criar as condições indispensáveis para continuarmos a prestar cuidados de saúde à população, com e sem a Covid-19. Porque há vida para além da Covid-19, com todas as suas contingências e imprevistos, há que dar continuidade às rotinas de prevenção e vigilância, que promovam os diagnósticos precoces, o tratamento e a prevenção das mais diversas doenças.

Não podemos deixar que este combate que prosseguimos unidos, nos deixe esquecer todas as outras doenças que se mantêm presentes no quotidiano de todos os portugueses. De acordo com os últimos números publicados, recorde-se, as doenças do aparelho circulatório ainda são a principal causa de morte em Portugal, logo seguidas pelo cancro.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística demonstram que a mortalidade por tumores malignos não parou de aumentar nos últimos dez anos, tendo sido responsável por uma em cada quatro das 110.187 mortes registadas no país, em 2017. Sabemos que é essencial manter uma estratégia de prevenção, diagnóstico e tratamento para que seja possível evitar mortes que, de outro modo, serão inevitáveis e que poderão aumentar a mortalidade por Covid-19

É, por isso, absolutamente necessário assegurar a continuidade das consultas ou dos exames e, para isso, é obrigatório adaptar, nestes tempos de crise, os hospitais nacionais para responder a outras patologias, minimizando os riscos para a segurança dos doentes. Isso é possível, porque já existem exemplos de estratégias que estão a ser seguidas para garantir a existência de unidades de saúde complementares onde a Covid-19 não é admitida

Sabemos que as mais diversas instituições – públicas ou privadas – têm respondido bem a este novo paradigma, organizando-se de modo proactivo, tornando-se mais digitais, com a realização de teleconsultas, que devem ser vistas como um modo de ultrapassar o contato entre o doente e profissional de saúde, evitando um possível contágio. Contudo, nem todas as situações clínicas podem ser tratadas à distância.

O sistema de saúde português, que a doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2 tornou um todo coerente, tem de continuar a merecer a confiança dos portugueses porque assim o demonstram os heroicos profissionais da saúde que lutam, a cada minuto, para salvar vidas. Para lá desta luta diária que travam nas urgências, nas unidades de cuidados intensivos e na vigilância e intervenção epidemiológicas, todos os profissionais de saúde que trabalham nos hospitais, nos centros de saúde, nos laboratórios e nos centros de diagnóstico mantêm um ambiente seguro que os doentes devem continuar a procurar para aliviar o seu sofrimento sob pena de adiarem cuidados que lhes podem custar a vida.

O aumento da mortalidade no passado mês de março é um alerta para todos. Para além das vítimas causadas pela Covid-19, o número de mortes em Portugal tem vindo a aumentar nas últimas semanas. Olhando para o mês de março e para o estudo realizado pelo CINTESIS, em que participaram diversos membros do grupo COVIDcids –  “Mortalidade em tempos de Covid-19: a que contamos, mas também a que não contamos” – regista-se que  se verificaram “óbitos por outras condições” não relacionadas com o novo vírus e “que, fruto da situação atual, acabam por não ser evitadas”.

O sistema nacional de Vigilância de Mortalidade (eVM), que apresenta dados que são atualizados diariamente, indica que o número de óbitos no país aumentou de forma mais expressiva na última semana e, em alguns dias, foram ultrapassados os registos para as mesmas datas nos últimos dez anos, excluindo as vítimas da Covid-19.

Esta constatação não nos pode deixar indiferentes. É determinante conciliar o período de confinamento em razão da atual pandemia, com as necessidades de cuidados de saúde que já existiam e continuam a manter-se.

Numa primeira fase – e bem – deu-se prioridade absoluta aos atos clínicos urgentes, aos testes e exames que se tinham e têm de continuar a realizar para combater à Covid-19, adiando-se as cirurgias as consultas e os exames, dependentes de programações prévias. Porém, com o previsível prolongar da crise, as necessidades da esmagadora maioria da população já se tornaram críticas. É preciso criar condições que garantam que todos possam ter acesso a cuidados de saúde em condições de segurança.

Porque as outras doenças não podem esperar e as pessoas, protegidas da Covid-19, querem continuar a viver.