No dia 18, mal saíram as primeiras projecções, os comentadores políticos começaram imediatamente a aconselhar os comentadores políticos a saírem da bolha para conseguirem compreender a esmagadora votação no Chega. “Sair da bolha” é jargão de painel para “devíamos falar mais com pobrezinhos”. Ao que parece, comentadores (e elites no geral) julgam viver num ambiente controlado a que chamam bolha e é fora desse meio que vagueiam os eleitores de André Ventura. Se visitados no seu habitat natural, é possível vislumbrá-los a praticar descontraidamente toda a sua cheganice, podendo assim o arguto analista ficar a perceber as razões destes votos.
Há turismo de praia, turismo rural, turismo de saúde, turismo cultural e turismo gastronómico. Agora, os comentadores políticos que alertam para a necessidade de sair da bolha pretendem inaugurar o turismo cheganal. O slogan da campanha será: “Vá para fora ver pessoas que deviam estar dentro!” Uma espécie de safari em que, na segurança de um jipe conduzido por um guarda-caça armado, passeiam nos subúrbios por entre bestas ameaçadoras, com a certeza de que à noitinha já estarão de volta ao conforto do seu bungalow de glamping.
Na realidade, os comentadores ainda não compreenderam bem o que é que se passou. E eu também não, como é óbvio. Mas sei que posso ganhar dinheiro com essa incompreensão. Daí a minha ideia de negócio: uma agência de viagens que organiza expedições em que turistas da bolha contactam com indígenas do exterior. Vai-se chamar Agência Ah! Breu!, que é o grito que os comentadores dão quando põem a cabeça fora da bolha e verificam que, como desconfiavam, lá fora existe apenas a escuridão metafórica da profunda estupidez. Prevejo sucesso comercial.
Nos mapas medievais, quando os cartógrafos tinham de representar as regiões do mundo ainda desconhecidas, despachavam o assunto escrevendo “hic sunt leones”, “aqui há leões” (ou, os mais imaginativos, “aqui há dragões”). Queria dizer que, como não sabiam o que haveria nesses territórios, imaginavam-nos povoados por animais selvagens ou mitológicos que os viajantes fariam bem em evitar. Para os analistas a quem desejo vender os meus passeios, o Portugal que existe fora da bolha é esse sítio inóspito onde a única coisa que sabemos é que residem lá pessoas que votam no Chega. Na brochura haverá um mapa com “Hic sunt chegones” indicado a partir das fronteiras do bairro de Alvalade, para onde não se devem aventurar sem vacinas (aconselha-se a Consulta do Viajante, do SNS). Também virá detalhado o que podem encontrar nesta perigosa expedição. Sublinho “podem”. Como aprendi nos Açores com os barcos que fazem observação de cetáceos, nunca se deve garantir que vamos mesmo ver baleias, pois nesse dia elas podem não estar para ali viradas. O mesmo com eleitores do Chega: digo aos comentadores que passamos pelos locais de alimentação, reprodução e nidificação, mas não prometo conseguir vê-los. Deste modo, quando avistarmos um, a alegria será muito mais intensa.
Imagino os comentadores, excitados, a perguntarem-me, enquanto carrego o Tesla com as mochilas cheias de mantimentos e toalhitas húmidas: “Vamos a Portalegre ver quem abomina ciganos? Falaram-me de um restaurantezinho típico óptimo, em Ponte de Sôr. O serviço é lento e o vinho é bera, mas isso torna-o pitoresco. Ou vamos ao Algarve, ver quem se queixa da seca? Podíamos ficar no hotel novo daqueles franceses que fizeram o resort em Melides! Ou é ao Ribatejo, ver os paranóicos que reclamam da suposta insegurança que eu não sinto em Oeiras? Estou tão entusiasmado por ir ver eleitores do Chega verdadeiros! Eles mordem?” E eu deixo-os na expectativa, enquanto os conduzo para fora da bolha. Depois, tratadas as questões alfandegárias na fronteira, quando finalmente chegamos ao nosso destino, fico a olhar para o seu ar espantado: “Mas isto é o café onde tomo o pequeno-almoço quando venho a Campo de Ourique!”
“Precisamente”, respondo.
“Espera lá, isto é uma lição, não é? Nós pensávamos que a saída da bolha implicava uma viagem longuíssima, mas afinal aprendemos que as pessoas que votam no Chega estão na mesma bolha que nós e que um partido com 1.3 milhões de votos não tem apenas um tipo de eleitor. É isso?”
“É mais ou menos”.
“Eh, pá, podia-me ter dito logo. Escusava de gastar na Decathlon o equivalente a 30h de comentários na CNN. O que é que eu faço agora à tenda Quechua? E ao filtro purificador da água? Os sapatos de trekking? A roupa interior impermeável? O spray anti-ursos, guardo. É capaz de dar jeito no próximo Linhas Vermelhas”.
Os resultados de um estudo efectuado pelo politólogo Pedro Magalhães revela que houve 360 mil eleitores que votaram no Chega em 2024, mas não em 2025. Ou seja, além dos 1.35 milhões de votos que o Chega reuniu há duas semanas, existem pelo menos mais 360 mil votos potenciais por aí, num total de 1,7 milhões. A probabilidade de um comentador político não se dar intimamente com um eleitor do Chega é ínfima. Portanto, se o comentador quiser perceber o que leva alguém a votar em André Ventura, pegue no telefone e ligue aleatoriamente aos contactos da sua lista. Vá perguntando. Em menos de cinco tentativas arranjará alguém que lhe tire as dúvidas.