A terceira vitória eleitoral de Viktor Orbán demonstra vivamente que nas últimas décadas não fomos capazes de perceber a lógica da manutenção da democracia. Pensou-se no final dos anos 1980 que esta se ia disseminar naturalmente depois do colapso da União Soviética, vista como o único entrave ao seu florescimento; na década de 1990, entendeu-se que a democracia se poderia impor de dentro para fora e cometeram-se um conjunto de erros políticos que aceleraram a sua degradação; nos anos 2000 falhou-se quando não se percebeu que as grandes ameaças ao liberalismo não vinham de potências revisionistas, mas sim do interior dos próprios regimes democráticos.

Vamos fixar-nos no último ponto, a pretexto das eleições deste domingo, na Hungria.

Já não é segredo para ninguém que Budapeste é o regime menos liberal da Europa. Orbán conseguiu a sua primeira maioria de dois terços nas eleições de 2010, o que lhe permitiu alterar a Constituição para um modelo muito pouco liberal e acentuadamente nacionalista. Instituições que seriam independentes num estado de direito, como o poder judicial e a comunicação social, passaram a estar sob alçada do regime. Já entre 2014 e 2015 – depois de ter conquistado a segunda maioria confortável – disse muito claramente ao que vinha: estava decidido e refundar a Hungria como uma “democracia iliberal” inspirada no modelo russo, com nítidos contornos antieuropeus e nacionalistas. Empenhou-se, então, em transformar o país através de instrumentos clássicos: usando o ensino e as instituições culturais – também sob forte influência estatal – para difundir o seu pensamento; usou de várias formas de propaganda para conter a liberdade da sociedade civil. Ontem, ganhou nas urnas a sua terceira maioria, provando que o modelo veio para ficar.

A verdade é que o resultado eleitoral de Orbán se deve essencialmente a três fatores.

Primeiro, a uma adaptação conjuntural vertiginosa. O Fidesz – a Aliança dos Jovens Democratas – nasceu em 1988 como um partido de estudantes, de tendências libertárias e matriz anticomunista. Mas cedo vai assumindo diferentes identidades ideológicas consoante as condições conjunturais em Budapeste. Orbán tornou-se primeiro ministro em 1998 em coligação com dissidentes da Democracia Cristã. O partido tornava-se mais e conservador e nacionalista, mas empenhado na adesão à União Europeia e à economia de mercado. As dificuldades começam no início dos anos 2000 quando a economia se ressente das medidas de ajustamento económico. Orbán perde o poder para os socialistas em 2002 e inicia uma nova fase na oposição em que o conservadorismo ainda liberal se vai transformando num conservadorismo cada vez mais nacionalista e populista. O primeiro de vários que iriam surgir na Europa.

Nessa altura – e este é o segundo ponto – Orbán percebeu que havia mecanismos populistas para chegar ao poder que poderiam ser explorados. Por um lado, a população sentia as dificuldades económicas que o resto da Europa veio a conhecer uns anos mais tarde, e por outro, havia um enorme vazio identitário: o comunismo forçado durante quarenta anos tinha caído e o liberalismo tinha tido uns poucos anos dourados que se desvaneciam rapidamente. Restava o nacionalismo e os receios da população de que a Europa fosse, afinal, uma razão de descontentamento em vez de júbilo. O Fidesz explorou este filão de eleitorado desorientado. Conquistou primeiro os mais desfavorecidos, prometendo mundos e fundos, e depois foi ganhando a classe média através dos medos relacionados com a imigração. Quando o discurso nacionalista étnico, xenófobo e antieuropeu se instalou, os húngaros estavam mais do que dispostos e recebê-lo e aplaud­i-lo.

Finalmente, o Fidesz tirou proveito de duas grandes fraquezas europeias: a crise de 2008, que abalou profundamente a confiança das populações no modelo europeu – e reforçou a posição húngara – e um certo negacionismo dos apoiantes do projeto europeu relativamente à possibilidade da emergência de um governo iliberal no seu próprio território. Apesar de em 2002 Budapeste já estar identificada como um potencial desafio à democracia, prestou-se muito pouca atenção política e intelectual a este fenómeno. Quando a Europa finalmente levou a ameaça a sério, esta já se tinha espalhado por vários outros países, ainda que a exploração de ressentimentos tenha aspetos diferente de estado para estado. Mas a Hungria foi o primeiro caso do qual se poderiam ter tirado ilações. Mas ninguém quis encarar este problema de frente. E o resultado é este: as eleições de ontem são mais um passo concreto rumo a um novo tipo de autoritarismo.

É muito cedo para declarar a morte da democracia liberal. Ainda não é uma batalha perdida. Mas a vitória eleitoral do Fidesz de Viktor Orbán só demonstra que a democracia precisa, mais do que nunca, de ser protegida. O maior erro que o Ocidente cometeu nas últimas quase três décadas foi pensar que este regime era um dado tão adquirido que podia pousar as armas e parar de o defender. Como se viu pelo resultado das urnas húngaras ontem, estamos a pagar um preço altíssimo por isso.