Que o mundo mudou profundamente, já ninguém tem quaisquer dúvidas. Também ninguém questiona o facto de o poder ter migrado para o Indo-Pacífico, com a ascensão da China e a reorganização americana do seu papel de potência do Pacífico, atestado por um conjunto de parceria mais ou menos informais, mas cada vez mais sólidas, mais militarizadas e mais assertivas.

Já se conhecia, desde Obama, a vontade política (e necessidade geopolítica) dos Estados Unidos apontarem baterias para a Ásia. Mas os últimos anos têm deixado comentadores, especialmente noutras partes do mundo, atónitos com a rapidez com que se construíram ou reconstruíram alianças, pactos, parcerias informais. Em pouco tempo investiu-se no reforço da relação com países como o Japão, a Coreia do Sul ou o Vietname e na sedimentação do Diálogo Quadrilateral de Segurança entre os EUA, a Índia, a Austrália e o Japão. Recentemente, a administração Biden afastou bruscamente a França de Camberra para criar o AUKUS (Pacto de Defesa entre os Estados Unidos, Reino Unido e Austrália) suportado pelo Five Eyes, que pela sua natureza é pouco referido. Trata-se de uma parceria de partilha de inteligência formada durante a II Guerra Mundial e mantida até hoje entre cinco dos principais países da Commonwealth, que dá, literalmente, a volta ao mundo e abraça a região do Pacífico (inclui Canadá, Estados Unidos, Reino Unidos, Austrália e Nova Zelândia). Concorde-se ou não com a estratégia, a China parece cada vez mais cercada por aquilo que Biden chama “like-minded states”, democracias “diferentes” mas com valores similares, a contrair os músculos contra um inimigo comum.

Perante este cenário é cada vez mais legítimo perguntar: e a Aliança Atlântica? O que é que deve ser a NATO num contexto internacional que a torna solitária e periférica? A resposta não é fácil, mas é urgente, uma vez que está em curso o processo de reformulação do Conceito Estratégico. Há decisões difíceis de tomar, mas determinantes para o futuro da Aliança. Realço três.

A primeira é a natureza ideológica da NATO. Joe Biden fez juras continuadas relativamente ao Artigo V, mas tornou-se claro que quer algo em troca: uma NATO anti-chinesa. Na visão da nova administração, o mundo está dividido entre democracias e autocracias, e o berço da comunidade das democracias tem de fazer parte integrante dessa ordem. Não parece que em Washington se espere que a Aliança Atlântica esteja na primeira linha de defesa contra Pequim, mas é legítimo esperar que esteja na retaguarda, a guardar um espaço regional que não deixou de ser conflituoso.

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