Não têm faltado no país e no mundo assuntos capazes de ocupar a nossa atenção e espaço mediático, mas há um que nos tem escapado e que é exemplar: a guerra pública que Donald Trump tem feito a Jerome Powell, o presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos.
As críticas do presidente norte-americano ao banqueiro central não são novas, mas subiram de tom nas últimas semanas. De “idiota” a “estúpido” ou “pessoa que não é esperta”, de “pior presidente da Reserva Federal de sempre” a “pessoa que mais tem prejudicado a economia americana”, Trump não se cansa de estragar publicamente Powell com mimos. Sempre naquele seu estilo cordato, de pessoa educada e que respeita as instituições e a separação de poderes.
A última ideia genial do inquilino da Casa Branca surgiu na sexta-feira: vai nomear já o sucessor de Jerome Powell. Só há um pequeno problema. O mandato do actual presidente da FED só termina daqui a 11 meses. Portanto, o seu putativo sucessor funcionará como “banqueiro central sombra” até lá. Único e nunca visto.
É evidente qual é o objectivo de Trump. Como legalmente não pode demitir o presidente da FED – regra promotora da independência da instituição e da sua acção – quer forçá-lo a sair pelo próprio pé por força dos insultos e impropérios públicos.
Não é difícil de adivinhar o motivo que está na origem de mais esta investida de Trump contra as instituições. É o motivo que, por regra, leva muitos políticos a quererem meter a mão nos bancos centrais: a fixação do nível das taxas de juro.
A Reserva Federal tem, neste momento, as taxas de juro directoras fixadas entre 4,25% e 4,50% e Donald Trump acha que deviam estar entre 1% e 2%. Obviamente. Qual é o político que não gostava de ter o dinheiro mais barato?
Mas o presidente americano parece ter pouca sorte nesta sua investida. Powell já deu sinais de não ceder um milímetro, tanto na sua continuação no cargo como na condução da política monetária. Evita responder em público às críticas de Trump – o que só abona a seu favor – e sobre a manutenção de juros mais elevados responde que precisam de avaliar, entre outras coisas, qual vai ser a política de tarifas aduaneiras e o seu impacto na inflação. Naturalmente, é que qualquer pessoa responsável faria, sendo que neste caso há ainda o picante de confrontar o incendiário com as consequências do fogo que ateou.
Este caso, por estar profusamente ilustrado e documentado, mostra-nos a importância da independência dos bancos centrais face ao poder político. Após várias décadas em que esse é o padrão das economias mais desenvolvidas e com instituições mais sólidas, ainda há muitos sectores políticos que convivem mal com essa ideia. No caso da Europa, e de Portugal em concreto, precisamos apenas de recuar um par de anos para encontrar críticas e ataques ao Banco Central Europeu, quando este começou a subir taxas de juro para combater a inflação, no final de 2022.
Naturalmente que essas críticas estavam muito bem enquadradas naquilo que é o normal debate político e ideológico e não resvalaram para o bullying típico de Trump. Mas não deixaram de confirmar que, sobretudo à esquerda, há quem considere que a independência do banco central só atrapalha e não devia existir.
Afinal, não era tão mais fácil que o nível dos juros pudesse ser decidido na sala oval da Casa Branca ou num qualquer Conselho de Ministros? Claro que sim. No imediato, haveria dinheiro mais barato para que as famílias, empresas e Estado pudessem endividar-se ainda mais. Daqui resultaria certamente algum crescimento económico adicional baseado sobretudo no consumo. A prazo isso seria pago com mais inflação, minando os rendimentos reais das famílias e penalizando especialmente as mais desfavorecidas.
Mas, como vimos também há um par de anos, a vida das pessoas pode ficar mais difícil, mas não a dos governos. Uma inflação elevada cria a ilusão monetária usada tantas vezes para reduzir rendimentos reais, ainda que os aumentos nominais de salários possam parecer generosos. E é um poderoso aditivo para as receitas fiscais e um redutor do rácio da dívida.
Nos Estados Unidos como na Europa, as regras das instituições são valiosas precisamente em momentos atípicos como os que vivemos. Nunca sabemos quando, ao virar da esquina, alguém com menos escrúpulos assume responsabilidades políticas poderosas e coloca os seus objetivos pessoais de curto prazo à frente da estabilidade de longo prazo. Esse momento já chegou aos Estados Unidos e não estamos livre de algo semelhante deste lado do Atlântico.
Por isso, que os deuses protejam a independência dos bancos centrais e afastem as tentações dos que gostavam de ver-se livres dela. Estamos muito mais bem servidos assim.