Quem escreve gosta de ser lido. Quem escreve gosta de, ao ser lido, ser lido por pessoas. E quando falo em pessoas, falo em leitores que reagem com humanidade ao que lêem. Quando quem lê reage com animalidade em vez de humanidade, quem escreve não fica geralmente feliz. Quem escreveu gosta de ser lido com humanidade, não com animalidade.

A internet aumentou o número de leitores além do papel. A internet tornou possível até para quem não esperava escrever para muita gente que isso conseguisse. O fenómeno não acontece, claro está, sem que uma maior animalidade se possa manifestar também. Logo, quem gosta de ser lido concretiza através da internet um aumento dos seus leitores, mas sempre com uma superior latente possibilidade de animalidade neles.

É o que é, que é como quem diz em português o célebre “it is what it is”. Sem internet pessoas como eu não seriam tão lidas, mas a animalidade com que somos lidos vem junto. Quem não quer essa animalidade pode sempre deixar de escrever.

No fundo, trata-se de quem escreve desejar que os seus leitores sejam pessoas. Trata-se de quem escreve desejar que os seus leitores resistam a uma forma de animalidade que interfere com o prazer de escrever. Não é só que quem escreve goste de ser lido; quem escreve gosta de que os seus leitores sejam pessoas mesmo.

A literatura portuguesa conhece a figura do escritor que se sente tão abandonado pelos leitores que passa a escrever para seres alternativos. No “Sermão de Santo António aos peixes” do Padre António Vieira existe esse elemento de persistir a mensagem quando os receptores desistem dela. Ou seja, é como se a teima do escritor fosse maior do que a teima de quem o lê mal. A ironia é que, se comecei este texto lamentando a animalidade dos leitores, no caso do sermão de Santo António celebra-se o encontro dos animais como substitutos das pessoas. A animalidade de que me queixo é o que alivia o Santo António.

Não é estranha a experiência de frustração para quem, gostando de escrever e de ser lido, já provou a animalidade dos seus leitores. Talvez se vá desistindo dessa expectativa elementar de que os leitores sejam pessoas. Passa-se a escrever também para que eventualmente os animais as substituam, ao estilo do Padre António Vieira. Escreve-se, ponto final. Leia quem ler.

Eu próprio, escrevendo e pregando, vou também desistindo de contar com o ovo na galinha. Afinal, os leitores podem não ser tão pessoas assim e mais facilmente mostrar animalidade do que humanidade. Tenho vindo a achar mais realista e preferível esperar que, se as pessoas forem leitores, já não é mau.

Não é um mau conselho a dar em 2025 a quem goste de escrever e ser lido: não esperes que os leitores sejam pessoas; contenta-te se as pessoas forem leitores.