Polémica

Magalhães

Autor
  • Luís Filipe Thomaz
1.591

Uma instituição com os pergaminhos da Real Academia de la Historia jamais se deveria permitir emitir um comunicado que enferma de simplismo, omissão, distorção de factos e falta de informação.

Li com surpresa um Informe de la Real Academia de la Historia sobre la Primera Circunnavegación a la tierra. Com esse comunicado pretende a ilustre academia espanhola, “evitar que la Conmemoración de estos años se conviertan en una fuente de disidencias entre los dos países vecinos”. É caso para dizer: que desaforos não teria proferido a douta assembleia se o seu escopo fosse, em vez de evitar dissidências, fomentá-las…

Uma instituição com os pergaminhos da Real Academia de la Historia jamais se deveria permitir emitir comunicados levianamente escritos sobre os joelhos. A historiadores desportivos facilmente se perdoam quejandos pecadilhos — mas tal não é o caso da instituição aqui em causa. Ora, como vou tentar mostrar, o comunicado enferma de simplismo, omissão, distorção de factos e falta de informação.

Comecemos por notar que, uma vez que Fernão de Magalhães era português — e não conheço documento algum que prove que se tenha alguma vez naturalizado castelhano —, assiste a Portugal o mesmo direito de se associar à comemoração do quinto centenário da histórica viagem que assistiu a Génova para se associar ao centenário de Colombo.

Como a própria academia reconhece no seu comunicado, tanto nas capitulações que em Maio de 1518 celebrou com el-rei D. Carlos, que no seu informe cita, como em muitos outros documentos que não cita, mas que se podem ler na obra clássica de D. Martín Fernández de Navarrete Colección de los Viajes y Descubrimientos que hicieron por Mar los Españoles desde fines del siglo XV, Magalhães e seu companheiro Rui Faleiro são quase sempre referidos na documentação oficial como “caballeros naturales del reino de Portugal”.

Mas quiçá que tal seja de pouca importância. O que o não é é afirmar-se que Magalhães “instituyó un mayorazgo en el que dejaba heredero a su hijo Rodrigo, nacido en Sevilla y, si éste falleciese sin descendencia, impone a su familia portuguesa que quien lo herede debería castellanizar su apellido, llevar sus armas y vivir en Castilla”. Na realidade do testamento original de Magalhães subsiste apenas uma folha, embora no Archivo General de Indias em Sevilha se guardem duas cópias quinhentistas. Das duas deve a priori ser a mais antiga a que merece mais fé; ora nessa cópia lê-se por 18 vezes a forma Magalhaes e uma única Magallanes. Sendo a primeira, do ponto de vista castelhano a lectio difficilior, é a essa, como o sabe qualquer aprendiz de crítica textual, que se deve dar a preferência. Por conseguinte, é abusivo afirmar que quem herdasse o morgadio “debería castellanizar su apellido, llevar sus armas y vivir en Castilla”: o que o testamento estatui é que o morgadio deve ser herdado por varões que continuem a usar quer o nome da família quer as suas armas “sin las mesclar con otras algunas”; segundo a letra do texto a cláusula de residir em Castela apenas se aplica a quem, não sendo descendente direto do navegador, mas de um colateral, viesse por varonia a herdar o morgadio — o que é lógico, pois os bens que Magalhães vincula se situavam naquele reino.

De tudo isto conclui a douta academia que Magalhães “se considera por tanto un castellano más”. Logicamente, o mesmo se deveria aplicar aos companheiros do capitão; fica-se então sem perceber porque razão reduziu a Casa de la Contratación drasticamente o número de participantes portugueses na expedição, impondo nomeadamente a exclusão de Rui Faleiro, sem embargo de ter sido, por carta régia de 22 de Março de 1518, nomeado capitão de um dos navios, e a sua substituição por Juán de Cartagena.

Se tudo se passava entre bons irmãos castelhanos fica-se igualmente sem compreender por que motivo foram, à última hora, impostos a Magalhães mais dois capitães oriundos de Castela, Luís de Mendoza e Gaspar de Quesada; e por que razão se rebelaram tanto este último como Juán de Cartagena contra o capitão português, levando-o a pôr este a ferros em Outubro de 1519 e em seguida a abandoná-lo na Patagónia a 24 de Agosto do ano seguinte, 17 dias depois de aquele ter sido executado. Igualmente sem explicação fica a destituição, a 16 de Setembro de 1521, de João Lopes de Carvalho, capitão da frota desde 2 de Maio, pela maioria castelhana da tripulação, que elegeu Gonzalo Gómez de Espinosa para lhe suceder.

É neste passo oportuno notar que a distinta academia dá no seu informe um salto mortal no tempo ao resumir: “Después de la desaparición de Magallanes, ya en el Índico, se hicieron cargo de los dos navíos que quedaban una vez que llegaron a las Molucas, Juan Sebastián Elcano de la Victoria y Gonzalo Gómez de Espinosa de la Trinidad“. A história é um pouco mais complicada: morto Magalhães em Mactán foi escolhido para lhe suceder seu cunhado Duarte Barbosa. Como Barbosa não tivesse sobrevivido ao cunhado senão quatro dias, foi eleito para o substituir um terceiro português, João Lopes de Carvalho.  Só quando este foi destituído pela chusma assumiu Juán Sebastián de Elcano, mestre da Concepción, queimada a 2 de Maio, o comando da Vitória. De boa ou de má fé, escamoteia assim o informe o facto de a frota ter sido sucessivamente capitaneada por três portugueses.

Embora a ninguém seja lícito fazer ao próximo processo de intenções, dir-se-ia que é na mesma lógica que se insere a agilidade com que a douta academia despacha em cinco linhas a atuação de Magalhães: “Fernando de Magallanes, tras una serie de contratiempos y motines entre la tripulación, logró encontrar el paso al Océano Pacífico por el Estrecho que lleva su nombre y una vez cruzado este océano, con sólo dos navíos, murió en Mactán, una isla del archipiélago de las Filipinas”. O seu mérito parece assim reduzir-se ao de ter achado a passagem para o Pacífico, com que qualquer um, costeando a América do Sul como ele fez, acabaria por topar. Fica no tinteiro o essencial da sua proeza: ter, quando o Atlântico demorara 54 anos a ser explorado, atravessado à primeira tentativa, em apenas três meses, a imensidão do Pacífico, que tanto quando sabemos jamais alguém atravessara. Se o fez não foi graças ao apoio que recebeu de Carlos I de Castela, mas graças à ciência náutica portuguesa que tinha bem assimilada. Foi dela que lhe veio a intuição genial de que o regime de ventos do Pacífico devia ser idêntico ao do Atlântico. Começou, assim, por rumar aproximadamente a norte, aproveitando os ventos alísios de sueste e a corrente de Humboldt que deles recebe a moção. Acompanhando a circulação do grande anticiclone do Pacífico sul inflectiu depois gradualmente para oeste, pondo-se de ló com os alísios do hemisfério sul.  Tendo cruzado a 13 de Fevereiro de 1521 a linha equinocial, pôs-se finalmente a c. de 10° de latitude norte, para aproveitar dos alísios do hemisfério boreal e da corrente equatorial do norte; e com eles, ao cabo de três meses de navegação no desconhecido, alcançou as Filipinas.

Um último reparo, ainda que de somenos importância: lamenta-se a academia quer dos protestos portugueses tentando convencer Carlos I a cancelar a expedição, quer do que veio a suceder aos tripulantes da nau Trinidad, que sem um capitão ou um piloto da fibra de Magalhães, tentou, mas em vão, alcançar o Panamá, vagueando três meses pelo Pacífico até não ter outro remédio senão render-se aos portugueses de Ternate. A cena repetir-se-ia, aliás, com todas as sucessivas expedições castelhanas mandadas a Maluco, pois foi apenas em 1565, quarenta e três anos após ter Elcano concluído a primeira circum-navegação do Globo, que Felipe de Salcedo, assistido do cosmógrafo Frei Andrés de Urdaneta, conseguiu ganhar o México a partir das Filipinas, colocando-se à latitude do Japão para beneficiar dos ventos gerais de oeste. Concluiu assim a primeira travessia do Pacífico no sentido oeste-este, abrindo o caminho ao célebre Galeão de Manila, que a partir daí sulcou anualmente o oceano, entre Manila e Acapulco. Nesta conformidade será um ato de nacionalismo histérico afirmar que, ao tempo, a ciência náutica portuguesa estava mais adiantada? É isso o que explica o frequente recurso de Castela a pilotos e cartógrafos portugueses: Magalhães, João Dias de Solis, Rui Faleiro, Diogo Ribeiro, Fernão da Alcáçova, João Rodrigues Cabrilho, Pedro Fernandes de Queirós e tantos outros.

Afirma a academia: “los tripulantes de la Trinidad, apresados por los portugueses, no pudieron regresar hasta varios años después, cuando fueron liberados al firmar las coronas de Castilla y Portugal un acuerdo sobre la posesión de las Molucas”. Respeito profundamente o seu drama humano; mas convém explicar que o sofreram por terem invadido os domínios que, pelo tratado de Tordesilhas, cabiam à coroa de Portugal. Segundo os cálculos que em detalhe exponho no meu livro O Drama de Magalhães e a volta ao Mundo sem querer (Gradiva, Lisboa, 2018), demasiado complexos para se resumirem aqui, a raia de Tordesilhas recaía necessariamente entre 48° 28’ e 43° 35’ W de Greenwich. O antimeridiano passava, por conseguinte, entre 131° 32′ e 136° 25′ E de Greenwich, ou seja, pelo menos a uns 4° a nascente de Ternate e Tidore, que ficam a c. 127° W. Após a sua travessia do Pacífico, Magalhães aterrou, a 16 de Março de 1521, na ilha filipina de Samar, sita a c. 125° E, por conseguinte, dois graus a oeste da posição real das ilhas de Maluco, nove e meio da que no seu memorial a el-rei D. Carlos lhes atribuíra. Bom marinheiro como era, é provável que se tenha de imediato apercebido do seu erro. Se assim foi, deve ter-se sentido frustrado, senão perdido: traíra el-rei de Portugal para provar que as Molucas pertenciam de direito ao reino comarcão; restava-lhe agora o dilema: ou dar a mão à palmatória, traindo el-rei de Castela, ou obstinar-se no erro e trair assim a sua própria consciência.

Foi talvez a angústia resultante do transe em que se via que o inibiu de rumar logo de seguida às ilhas que constituíam o objetivo da sua expedição, pondo-se durante quarenta dias a vaguear pelas Filipinas, até colher a morte numa luta tribal em que se imiscuiu, de mais que diminuto interesse para a Coroa de Castela. Assim feneceu tragicamente a vida de um homem que foi quiçá o mais ousado navegante da história da humanidade. Outros castelhanos e portugueses ao serviço de Castela, utilizando a favor desta quer as imprecisões de Tordesilhas quer as divergências na correspondência dos graus de longitude a léguas, deslocavam, de boa ou de má fé, a raia muito mais para ocidente do que fazia Magalhães. Se o faziam de má fé, tinham em certa medida desculpa, pois tentavam vergar a favor da potência de que dependiam a realidade matemática das coisas. Já a Real Academia de la Historia, com o que de officio é obrigada a saber, de todo em todo a não tem…

Historiador

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